Entrevista comigo no Fazendo Média. Espero que gostem...



“Se o povo não for pro pau ele não vai ter nada”Por Eduardo Sá, 05.10.2009


Aurélio Fernandes era químico quando em seu primeiro trabalho, ainda adolescente, percebeu a exploração aos trabalhadores. Foi demitido aos 19 anos, por tentar reverter esse cenário na empresa onde trabalhava. Arrumou outro emprego, mas largou tudo, por vocação, para ingressar na área de história: nesse período estabeleceu o seu primeiro contato com a política. Intrigado com a figura de Brizola, demonizado por uma parte da sua família e admirado por outra, acabou se aproximando do Partido Democrático Trabalhista (PDT), após assistir um debate na televisão, em 1982, com a participação do “velho” para as eleições do Estado do Rio de Janeiro e descobrir quem era Darcy Ribeiro, então candidato a vice-governador. Entrou para a campanha e no ano seguinte já estava filiado ao partido, no qual fez sua formação ideológica, apesar de sempre manter posições críticas nas discussões. No ano 2004 foi candidato a vereador, quando constatou na prática as suas teorias: “a democracia que a gente vive é uma tremenda farsa”. Depois, já percebendo “o processo de degeneração do PDT”, participou da criação dos Círculos Bolivarianos Leonel Brizola que, em 2007, criaram o Movimento Revolucionário Nacionalista (MORENA) – Círculos Bolivarianos. Há três meses Aurélio se desvinculou do partido, continua professor na rede pública estadual do Rio de Janeiro e se dedica inteiramente à militância no Morena, cujo movimento ele apresenta na entrevista a seguir.

Como surgiu o MORENA?

Organizávamos uma corrente dentro do PDT denominada PDT pela esquerda. Em determinado momento a conjuntura interna do partido nos levou a desarticulá-la e então criamos o Coletivo de Educação Popular. Era praticamente uma continuidade mas prestava assessoria aos movimentos populares, na área sindical, através de seminários e outras atividades. Iniciamos um trabalho de educação política na Federação de Favelas do Município do Rio de Janeiro.

Logo após a tentativa de golpe na Venezuela começamos a debater nas favelas o filme “A revolução não será televisionada”. Este filme é uma produção de dois jornalistas irlandeses e tem uma mensagem muito interessante: o Chávez é um coadjuvante, não é o protagonista do filme, o protagonista é o povo. Mostra o povo mais pobre se mobilizando, se conscientizando, se organizando, para enfrentar um golpe. O curioso é que quando você passa nas favelas, o pessoal se identifica. Vêem ali o seu semelhante, na forma de se colocar, na forma de agir, nas contradições, enfim em tudo, e dá uma sensação de “empoderamento”. Eles percebem que a política pode ser muito mais. Estávamos fazendo um trabalho desse tipo e a embaixada soube, não sei como.

A embaixada da Venezuela?

Isso, entrou em contato com a gente e queria depoimentos de lideranças comunitárias em defesa do mandato do Chávez, porque estava tendo plebiscito revogatório na venezuela. Aí conversamos e conseguimos mobilizar sete lideranças comunitárias que se propuseram a dar os depoimentos. O que nos chamou atenção é que em seus depoimentos, as lideranças comunitárias mais velhas faziam ligações com a década de 60 e com o Brizola: aqui no Brasil teve também uma liderança parecida à beça com o Chávez que foi o Brizola, aí falavam dos posicionamentos políticos de Brizola na resistência ao golpe de 64, na campanha da legalidade e nas reformas de base e dos projetos que o Brizola fez em seus governos.

Quando terminamos surgiu uma reflexão em todos nós: curioso, a gente podia trabalhar alguma coisa nesse campo, hoje temos uma revolução bolivariana… Aí nós despertamos. O que é essa revolução bolivariana? Ainda não tinha ocorrido os processos bolivarianos na Bolívia, no Equador,. Nós achávamos que era um processo muito venezuelano. Mas por que a gente não discute isso? Vamos aproveitar e sentar para aprofundar essa discussão: O que é isso, o que não é, o que nós podemos fazer? Na época militávamos no Comitê de Solidariedade aos Povos em Luta na América Latina junto com um padre colombiano, e ele propôs: por que vocês não constroem um círculo bolivariano? Legal, tá aí, é uma idéia... Começamos a discutir e um companheiro perguntou: por que não criamos um circulo bolivariano Leonel Brizola? Pô, mas aí vai ficar uma coisa muito vinculada ao PDT? Não, vamos começar a desmistificar isso, o Brizola não é do PDT, o legado de Brizola é um patrimônio do povo brasileiro, como o Marighella, o Prestes, e é bom que essa iniciativa contribua para desmistificar isso. Então vamos fazer? Assim iniciamos a discussão sobre o Círculo Bolivariano Leonel Brizola cerca de cinco meses após a sua morte. Esse primeiro círculo surge em novembro de 2004.

Então aconteceu o que?

Os jovens do grupo inicial resolveram criar um círculo bolivariano de juventudes Che Guevara. Haviam os professores, criamos o círculo bolivariano de educadores Paulo Freire. Aí já não é mais um círculo bolivariano Leonel Brizola, transformou-se em um movimento: Círculos Bolivarianos Leonel Brizola / CBLB(m). O pessoal confundia como um espaço vinculado ao PDT. Para complicar, definimos o símbolo do CBLB(m) com outra intenção e acabou dando errado, esse desenho do Che com a rosa não tem nada a ver com o PDT. Foi um desenho de uma camiseta cubana que um companheiro ganhou quando participou de uma brigada de solidariedade a Cuba. Abaixo do desenho havia uma frase: “podem matar uma rosa, mas nunca conseguirão deter a primavera”, que é uma frase do comandante Che.

Fizemos uma panfletagem em 2005 no Fórum Social Mundial, um manifesto, 10 mil impressos em Xerox. Um repórter da Folha de São Paulo achou curioso um círculo bolivariano no Brasil. Ele fez uma entrevista com a gente, pensamos que não ia dar em nada, saiu ¹/4 de página no jornal. Procuraram o presidente do PDT, Carlos Lupi e ele declarou: Não, não tem nenhuma ligação com o PDT, a gente nem sabia que isso existia, mas entendemos que não tem problema nenhum em utilizar o nome de Brizola. Ficou uma matéria boa, saiu no Rio Grande do Sul, saiu em outros jornais, então começou a pipocar contato, o pessoal da Bahia, do Distrito Federal, de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul…

Pessoal querendo participar?
Pessoal interessado, em função até dessa reportagem. Em São Paulo já havia um círculo bolivariano anterior ao surgimento dos nossos, mas ele se propunha a fazer solidariedade à Venezuela, não era um círculo bolivariano que tivesse a opção de discutir a revolução bolivariana no Brasil.
Termina 2005, vem 2006 e chegamos a conclusão da necessidade de ter um espaço físico para desenvolver um referencial. Nós já desenvolviamos um trabalho aqui na Federação de Favelas (FAFERJ), daí conversamos com a diretoria e propusemos fazer um projeto em conjunto: vamos criar a Casa Bolivariana! Vai ser o seguinte: a FAFERJ não tem dinheiro, não tem recursos, tem uma dificuldade muito grande de se manter, então nós vamos alugar uma sala diminuta por 200 reais por mês, nesse preço a gente podia alugar até em outro lugar, mas a gente quis manter uma sede dos círculos bolivarianos em uma federação de favelas exatamente pela mística do local,.

A partir daí transformamos, em um projeto conjunto com a diretoria da FAFERJ, o auditório da entidade no espaço Casa Bolivariana, um espaço de poder popular, ou seja, a Casa Bolivariana não é a sede dos círculos bolivarianos. É um espaço na FAFERJ que quem esteja identificado com a lógica do poder popular e quiser, pode fazer reunião aqui, a gente libera o espaço. Esse espaço estava cheio de lixo, era um depósito, fizemos uma limpeza, um mutirão. Já está no terceiro mutirão, foi bem pior do que está hoje, na primeira vez não tínhamos muitos recursos, principalmente financeiros. O movimento foi crescendo, a gente começou a auto-sustentação, cada companheiro contribui e com isso conseguimos uma estrutura um pouco melhor, daí pintamos o teto, fizemos a parte elétrica, compramos quadros. Em 2006, inaugurarmos a Casa Bolivariana com a presença de representantes do Congresso Bolivariano dos Povos, com sede na Venezuela, do Instituto Cubano de Amizade entre os Povos e homenageamos a presidente da Associação José Martí de solidariedade a Cuba.

E de onde surgiu a necessidade de se criar um jornal?

Nós queríamos fazer desde o início, antes da primeira assembléia bolivariana nacional em 2007. O nome do jornal “O Panfleto” tem uma ligação direta com as lutas antiimperialistas, populares e classistas da década de 60. Quando começamos a discutir a criação dos círculos bolivarianos, uma questão que também me chamou a atenção foi o fato de ser muito parecido com o grupo de onze, os comandos nacionalistas que o Brizola organizou para fazer a resistência meses antes do golpe civil-militar de 64. E esses grupos de onze aglutinavam a base do PCB, do PSB, do PTB, trotskistas, a Polop, um monte de organizações. A professora Vânia Bambirra tem um artigo no qual ela fala que esses grupos de onze provavelmente seriam o embrião de um novo partido revolucionário que estava surgindo no bojo do processo político na década de 60. Esses grupos de onze mantinham um jornal cujo nome era “O Panfleto”.

Vocês buscam também resgatar essa memória…
Um realidade curiosa com a qual brincamos muito é que parecemos uma organização política de professores de história. Muitos estudantes de história se identificam, professores também, não sei se é devido a defesa que fazemos sempre de resgatar a história brasileira. Um dia um de nossos professores levantou a seguinte questão: Vocês sabiam que logo depois do golpe de 64, quando se discutiu a organização da resistência entre o pessoal vinculado ao grupo dos onze, o Brizola propôs a criação do Movimento Revolucionário Nacionalista, cuja sigla seria Morena?

Brizola afirmava que essa sigla tinha a ver com a cara da esmagadora maioria povo pobre brasileiro, que não era branco europeu, era moreno e negro e tal. Então era um nome que vinculava a questão ideológica, o nacionalismo revolucionário, a libertação nacional e ao mesmo tempo pegava esse sentimento de brasilidade. Então porque a gente não retoma esse nome? Assim em 2007 na I Assembléia Bolivariana Nacional fundamos o Movimento Revolucionário Nacionalista – círculos bolivarianos. Ah, mas aí a esquerda não vai entender. Ah, dane-se a esquerda, o nosso discurso não é para a esquerda entender.

Não é pra jogar para a torcida…

Não é isso, entendemos que é esse discurso que mais nos aproxima daqueles que pretendemos catalisar no processo revolucionário. Não é representar, porque a gente acha que a organização política não representa o povo, ela pode ser o catalisador do processo – daí vem a minha influência da formação em química…

Esse conceito de catalisador para o campo social faz até sentido…

Muitos tentam definir o que é vanguarda. A melhor definição que eu consegui fazer é a do catalisador no processo químico: você tem lá os dois reagentes e não acontece reação nenhuma, daí você coloca duas gotinhas de um outro reagente, que é o catalisador, e acontece uma reação violentíssima e surgem novos produtos completamente diferentes. Ou seja, o catalisador quantitativamente não é quase nada, mas é fundamental, sem ele não ocorreria a reação. Nós entendemos o papel da vanguarda dessa forma, a vanguarda objetiva. Quem vai fazer revolução é o povo, a classe trabalhadora.

O papel da vanguarda é ser o catalisador, é descobrir qual é o projeto histórico que mobiliza a maioria desses trabalhadores, qual a metodologia de luta que vai mobilizar essa maioria para a luta e forjar quadros na classe para construir esse instrumento político. Não é auto proclamatório. Nós não temos a ilusão de que o MORENA vai ser a vanguarda da revolução brasileira. Nós queremos contribuir com esse processo de construção da vanguarda: isso pode até ser ilusão da nossa parte, mas a gente alimenta.

Uma coisa que sempre frisamos muito: o companheiro tem que estudar, porque conhecimento é fundamental na luta. Alguns militantes e dirigentes nossos entraram na UERJ e alguns acabaram ingressando no Centro Acadêmico de história (CAHIS). O CAHIS resolveu fazer um debate sobre o golpe militar de 64 e para o nosso espanto o auditório ficou cheio, o pessoal sentado no meio daquelas cadeiras, a lista tinha 350 pessoas. Não era gente só de história, tinha pedagogia, direito, sociologia, foi uma surpresa, alguma coisa está acontecendo e a lógica que colocamos no debate era discutir o golpe de 64 numa visão de retomar uma memória que a ditadura tentou e o sistema tenta manter esquecida.

Encheu, foi uma discussão muito legal e vários jovens e professores nos procuraram querendo discutir, participar, entender o ponto de vista do MORENA. Isso também estimulou muito para a criação do jornal, se existe esse clima temos que botar a nossa cara pra fora, temos que mostrar o que nós somos, até para as pessoas conhecerem, para poderem se aproximar, para o MORENA se organizar e cumprir o papel que acreditamos poder cumprir nesse processo.

Além disso, quais tipos de atividades vocês realizam?

Fora a atuação em universidades e uma atuação incipiente no movimento sindical, aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, militantes do movimento de sem teto e do movimento comunitário de favelas vinculados ao MORENA decidiram contribuir na reconstrução do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). Isso começou a partir do apoio do MORENA a ocupação Serra do Sol na zona oeste. Esse trabalho resultou na criação do círculo bolivariano de trabalhadores sem teto Carlos Marighella e na ampliação da área de atuação do círculo bolivariano de favelas Hugo Chávez Frias.

Mas o MTST é muito mais amplo que nossos militantes, entendemos que deva ser um movimento de massa. Nós não vemos o movimento social como uma correia de transmissão da nossa organização, inclusive combatemos isso. Entendemos que se um movimento social se transformar em correia de transmissão de um partido político, pode ser de direita, de esquerda ou o que for, ele não vai cumprir o seu papel revolucionário: ele tem que ser uma força social autônoma, independente, para não acontecer, por exemplo, o que aconteceu agora no governo Lula.

A maioria dos movimentos sociais era correia de transmissão do Partido dos Trabalhadores e aí quando o PT entra no governo o que acaba acontecendo? Esses movimentos acabam entrando no governo, e o que é mais grave, fazendo a política do governo. Ao invés de combater no sentido positivo da coisa, exigindo do governo suas demandas históricas, eles tentam adaptar o movimento ao que o governo pode estar oferecendo em determinado momento e assim não há processo revolucionário que avance. O papel do movimento social é estar chicoteando qualquer governo, exigir as suas demandas, se isso não acontecer não vai mudar nada. E o papel do partido político qual é? É estar disputando o poder, estar aproveitando essa luta política para mostrar as limitações do sistema capitalista para chegar ao poder. Não é ao governo, e daí fazer uma verdadeira transformação social.

Hoje o que acontece na Venezuela é isso, os movimentos sociais vão todos para cima do governo e ele tem que dar resposta. Se não der resposta a tendência é se adaptar, ou pior o processo pode caminhar para a direita atendendo aos interesses mais poderosos do capital. E essa a luta que se trava na Venezuela. Algumas organizações de esquerda não conseguem entender o processo venezuelano, que aquele processo não é uma transição socialista. A Venezuela ainda está em uma transição rumo ao socialismo e não em um processo de transição socialista.

É muito complicado, porque se o movimento social não tiver força social autônoma, independência perante os governos, não consegue empurrar esse processo para frente. Não é o governo, é o processo, o governo é mais uma frente de luta, porque vai chegar um momento que vai surgir uma dualidade de poder. Vai chegar o momento em que as contradições vão se acirrar mais e aí vai ser a hora de realmente tomar o poder: vai ser a hora do processo de transição socialista. E isso é um processo ininterrupto, não são etapas. Poderia ser diferente, poderia acontecer como aconteceu em Cuba, onde os caras derrubaram uma ditadura. Mas não é o caso da Venezuela, não é o caso da Bolívia, não é o caso do Equador. Em Cuba eles derrubaram pela via armada uma ditadura e eles já tinham o poder nas mãos do exército rebelde, e mesmo assim, só vão assumir o processo de transição socialista em 1961.

E na prática, qual a função desse espaço aqui, por exemplo?

Aqui [sede do Morena] nós passamos filmes de formação, fazemos nossas assembléias, é um espaço aberto. Já ocorreram várias reuniões: do MST, do pessoal de economia solidária, da Famerj, da Consulta Popular, de Associação de Moradores, do MTST. É um espaço de fomento de poder popular que tentamos tornar o mais amplo possível em sua utilização politica. Como organização usamos para reunião dos círculos bolivarianos pois nosso principal desafio é dar uma organicidade ao movimento pela base.

Então o espaço é usado pelas nossas missões: a missão Lênin, relativa às questões de organização que estimula esses círculos bolivarianos, monta cartilha, faz reunião, vê a questão de finanças, vende material. A missão Rui Mauro Marini de formação política que organiza debates, cursos, esse ano a gente tem um sobre a América Latina: sábado agora vai ser a Colômbia, é uma experiência que estamos fazendo desde março, discutindo num sábado do mês um país específico, conta toda a sua história, a sua luta revolucionária.

Questionamos muito a questão do eurocentrismo, sentimos que esse é um dos grandes problemas da esquerda brasileira. Ela está voltada de frente para a Europa e de costas para a América Latina, daí a incapacidade de entender o papel do nacionalismo revolucionário. A incapacidade de entender que o nacionalismo revolucionário não tem nada a ver com o fascismo, não tem nada a ver com a direita. Todos os processos revolucionários na América o que mobilizou o povo na esmagadora maioria deles foram bandeiras democráticas populares anti-imperialistas, logo nacionalistas revolucionárias. Mas não conseguem entender, e por quê? Porque o referencial deles é a revolução russa, a luta da social democracia ou da esquerda radical na Europa. Não conseguem olhar para as lutas populares e classistas de nosso continente e aí vêem a realidade brasileira enviesada: a nossa história acaba não sendo entendida e, portanto, não é contada.

Por que esse estímulo à memória, a busca da história brasileira?

Para entender como a classe trabalhadora construiu sua consciência. Culturalmente falando, por que ela não é tão participativa, para você poder trabalhar tudo isso em sua estratégia e tática politica. Por que o Getúlio é um referencial popular e da classe quando fazem uma pesquisa? Em aula, às vezes, você chega para o aluno e pergunta: qual foi o maior presidente que o Brasil já teve? Um adolescente de 15 anos responde Getúlio. Por que Getúlio? Ah, porque o meu avô fala isso, meu pai fala isso, meu tio fala isso. Por que isso acontece? De onde vem isso? É meramente fruto de uma manipulação? Ou realmente houve um tipo de processo que atingiu os interesses da classe, claro que limitadamente, e construiu um nível de consciência?

O que a gente quer? A gente quer um desenvolvimento no Brasil voltado para a maioria, como é que você trabalha isso? Você tem que entender essa consciência real e muitas vezes possível da classe, para poder aumentar a consciência de classe. Você não vai chegar para um trabalhador e dizer: o Getúlio era um grande filho da puta, ele tinha um projeto nacionalista burguês… O que é isso? Nacionalista burguês?

Então vocês entendem a questão da linguagem como fundamental?

Mais do que a linguagem, é fundamental a construção de um discurso revolucionário que parta da consciência realmente existente da classe e contribua para que a classe avance em sua consciência da necessidade de superar o capitalismo. E daí analisar o seguinte, é viável hoje em dia um projeto como o Getúlioe que marcou profundamente a cultura da classe? É inviável em dois sentidos: no sentido de que não interessa as classes dominantes e isso o próprio Getulio denuncia na Carta Testamento. Um projeto nacionalista burguês não interessa a burguesia, não interessa ao imperialismo. Se aparece um maluco qualquer defendendo honestamente um projeto nacionalista burguês, um sujeito que consiga se eleger presidente e tenta implementar esse projeto, o derrubam como derrubaram Zelaya em Honduras, porque não interessa. Sabe que esse tipo de problema desata nós que criam uma série de problemas, ao estilo do minha casa minha Dilma agora.

Qualquer projeto para tentar sanar uma limitação do sistema no sentido de atender aos interesses populares, cria para o sistema mais problemas do que solução. Você hoje tem um projeto que aponta um milhão de moradias e sabe quantos inscritos tem? 18 milhões, eu quero ver darem resposta para todos. Aí que deve entrar a esquerda como catalisadora, ela tem que atuar os movimentos sociais para exigir os 18 milhões de casas, tem que organizar esse povo para exigir a sua casa. Porque se for na luta, ele vai reparando que esse sistema não vai me dar o que eu quero, ele vai aprender na luta, é pedagógico.
Então você pode argumentar: na época do Getúlio que o seu avô viveu tinha direito à moradia, não era essa história de habitação, os institutos de previdência que construíam as casas e você não tinha que pagar o aluguel, você pagava uma taxa para construir mais casa… E esse sistema “matou” o Getúlio, derrubou João Goulart...

É só isso que a gente quer? Não é, mas nem isso o sistema permite conquistar. Então o cara vai se conscientizar no processo e perceber que a necessidade é muito maior e que a sociedade tem que ser diferente. É nesse sentido que a gente tenta resgatar o processo histórico, a gente fala que é retomar o fio da história, porque foi isso que eles cortaram em 64. O golpe militar na verdade é uma contra-revolução, não estava ocorrendo uma revolução socialista, era um processo revolucionário que poderia caminhar rumo ao socialismo, um processo de acumulação de força, de aumento da consciência. Como todo processo, tem limitações, equívocos, o Lênin tem uma frase que eu acho espetacular: aquele que espera uma revolução pura está prestando um desserviço à revolução. Vai ter limitações, pode ser até que essas limitações levem ao reformismo ou à própria derrota da revolução depois dela estabelecida que é o período mais difícil.

Então para você combater, o indivíduo como instrumento político deve estar trabalhando nessas contradições. Nesse contexto é de fundamental importância o movimento social como uma força autônoma que tenha princípios socialistas na sua gestão, coletivos, solidariedade, democracia interna nos movimentos. Para garantir a democracia na revolução socialista, tem que começar a construção de uma democracia participativa a partir de agora. A grande maioria dos movimentos sociais e os sindicatos em particular, não exercem a democracia participativa.

Uma cúpula mantendo-se distante do trabalho de base…


Esse tipo de coisa nunca vai conseguir contribuir para a revolução, para a transformação política da realidade. Se acontecer uma revolução, essa cultura vai ser reproduzida no processo, daí vem os desvios, os caminhos errados, o aumento das contradições. Os inimigos da classe, os burocratas, vão usar isso para descaracterizar e combater o processo revolucionário. Mais difícil do que você fazer a revolução é permanecer com o poder , então são essas discussões que tentamos travar no MORENA, vinculadas ao trabalho permanente, à militância. Temos claro que somos um grupo pequeno, incipiente. O MORENA como organização política existe há dois anos e meio no máximo, achamos muito importante trabalhar a questão mística, a nossa bandeira preta e vermelha tem relação com a revolução cubana, com várias organizações de esquerda na América Latina que utilizam bandeiras rubronegras.

Fazemos tudo isso - o nome do jornal, o nome do movimento, o trabalho de educação política, a atuação nos movimentos sociais - tentando resgatar essa mística da memória: se o povo resgatar a sua memória de lutas vai perceber que se ele não for pro o pau ele não vai ter nada, vai continuar tudo do jeito que está, verá que não tem outra alternativa que não seja lutar. Se não lutar pelos seus direitos e reivindicações o povo trabalhador nunca perceberá o nível de miserabilidade em que vivemos, não perceberá que se não correr atrás do prejuízo não tem ninguém que vá correr não.