A violência urbana, segundo Brizola

Nestes dias de UPPs e "libertações" onde assassinos de nosso povo pobre são trasformados em heróis nada como "ouvir" a palavra de Brizola...

Mais uma vez "Brizola tinha razão"...

E pasmem esse modelo de "plano colombia carioca" é programa de governo da Dilma para a segurança publica brasileira e pau nos pobres antes que eles se revoltem e que sumam com os armamentos do trafico pois eles podem tomados e usados pelo povo...

Pobres tolos a roda da história não para...


A violência urbana, segundo Brizola

O problema de segurança pública adquiriu essa importância, esse nível de gravidade, com a ditadura. Antigamente, uma pessoa podia andar tranqüilamente na rua, praticamente o assalto não existia. Assalto a banco? Isso não existia aqui! Realmente isso era assunto de cinema. As senhoras andavam nas ruas, lá no centro, com as suas bolsas. Havia naquele tempo os chamados punguistas: era os batedores de carteira, eram os passadores do conto do pacote, do conto do vigário, enfim, eram atividades até ingênuas, que eram motivo de crônicas, que todo mundo até apreciava naquele tempo.

Não existia esse clima de violência, de assassinatos, de homicídios. Isso veio com a ditadura. E coincidiu com o agravamento da situação social. E com o empobrecimento da população, com a decadência do sistema educacional. E com a explosão demográfica, que foi agravando, multiplicando esta ordem de problemas.

Receita por receita, os militares tentaram tratar isso com violência, enfrentando de uma forma primária o assunto, até com helicópteros sobre as favelas, sobre as áreas carentes... Agora andam falando em pena de morte, que já existe aqui, como em nenhum outro país!

O Brasil é campeão na utilização da pena de morte, com a quantidade de assassinatos que estão ocorrendo. E o problema se agravando, a situação cada vez pior! Então, vejam, essas duas questões correm paralelas, como grandes males nacionais, como situações absolutamente intoleráveis que condenam, estão estiolando a vida brasileira. Principalmente nas grandes cidades.

Veja o Rio, como tem sido prejudicado por isso. Então essa questão não pode ser realmente analisada como até agora, desconhecendo certos aspectos que estão em águas mais profundas. Acho que a questão educacional é conseqüência de uma cumplicidade das elites brasileiras, que querem o povo brasileiro ignorante. E reagem até contra um programa como esse dos CIEPs. Há gente que tem esse fundo cultural, que não aceita que as crianças, as crianças da nossa pobreza, de nossas populações negras, tenham escola de nível de classe média como tem os filhos deles! Não aceitam.

A floresta de Samora Machel

Quando estive em Moçambique, isso me serviu para entender muito o problema. Samora Machel, que era um ser humano admirável, me disse: "Olha, Brizola, aqui estamos utilizando o idioma do colonizador para fazer a nossa unidade e para nos conhecermos! Como um instrumento de reconhecimento mútuo. Porque são muitos idiomas, dos diversos grupos populacionais que possuímos. Mas, veja, nós agora estamos universalizando isto; mas antes, o colonizador usou, durante séculos, o seu idioma para nos colonizar".

Eles só ensinavam português para uma pequena camada que trabalhava com eles: os empregados domésticos, os motoristas, os carregadores, os serviçais de maneira geral, os trabalhadores que formavam a base da economia e da sociedade colonial que existiu lá até 1975, ano da independência de Moçambique. O idioma português era ensinado restritamente pelo colonizador aos moçambicanos que prestariam serviços a ele. Quanto ao resto da população, os colonizadores nem sabiam quantos eram. Nem queriam saber quantos moçambicanos viviam por lá, pelos matos, pela floresta. Eles eram chamados de "indígenas", não tinham documentos, não andavam nas cidades, e pronto, ninguém se preocupava em sabe se estava doentes, com fome, quantas crianças nasciam, quantas morriam, nada! Viviam à parte da sociedade colon ial, ninguém sabia se matavam algum elefante para comer, para se salvar ou não, quantos viviam nas florestas, pelos matos! Os colonos brancos não tomavam conhecimento. Este é o perfil do próprio colonialismo.

Vejam agora a questão no Rio de Janeiro. Existem aqui duas sociedades: tem uma que é a nossa, onde circulamos, conhecemos pessoas. Estamos aqui nos controlando, conhecemos fulano, beltrano, filho de sicrano, temos carteira de identidade, etc. E se uma pessoa falta, damos falta dela. Se essa pessoa é vítima da violência, todos nós sabemos e ficamos revoltados.

Descendo na escala social, nos deparamos com um outro mundo, subterrâneo, parecido com a floresta descrita por Samora Machel. Lá ninguém sabe quantos matam, quantos morrem, quem manda matar, quem faz o quê. Uma sociedade civilizada que se preze pode conviver com 20, 30, 40 assassinatos diários? Jovens mortos com balas de guerra, muitas vezes pelas costas, e ninguém nem sabe de nada? As notícias sensacionalistas sequer citam nomes e os corpos são jogados em valas ou lixeiras, enquanto famílias não reclamam, temendo os executores. O que é isto, quem mata? Quem morre? Esta é a vida da floresta do Samora Machel?

Aqui, geralmente, tudo se resolve com a explicação: "Ah, isto é disputa por ponto de droga, o traficante tal contra fulano". O problema é que esta explicação resiste à lógica mais elementar. Que diabo de cidade é essa que se impregnou dessa forma? Qual é o lugar do mundo onde se mata dessa maneira? Existe tanto tráfico, tanta gente assim envolvida com banditismo? Podemos aceitar isso para um país como o nosso? Devemos conviver com a floresta de Samora Machel?

Francamente, acho que temos que ir em águas mais profundas. E os vícios? Nó estamos acostumados com os vícios dos próprios serviços de segurança. Num quadro desses, até os bons policiais estão sendo mortos. Isso precisa ser drasticamente saneado! Olhem, não sei de onde sai tanta arma, não sei que tráfico é este, mas sei que procuram criar a idéia de que as favelas são um ambiente de vício! (14-05-91)

As elites fizeram os guetos

Aí está uma questão importante para os amigos repórteres internacionais. Isto que podíamos considerar uma espécie de cultura praticada pelas classes dirigentes de nosso país, levou as favelas, as comunidades pobres, a serem consideradas guetos origem de todos os males. O fato justifica todas as tropelias, todas as demonstrações de força do aparelho policial nas favelas.

Essas ocorrências, conforme a época, têm uma explicação. Agora estamos na fase da droga, do tráfico. Claro que o problema existe, não só a droga, como o tráfico, como a utilização das favelas e até de crianças, nessas atividades criminosas. Mas procuram aproveitar-se dessas ocorrências, exagerando-as, criando iniciativas para demonstração de poder. Para punir e intimidar as pessoas que vivem uma situação que, sob muitos aspectos, é intolerável e dá a elas até o direito de reivindicar.

Eu me criei em bairros pobres, onde as pessoas eram boas, viviam se visitando, conversando, solidárias, ninguém pensava em fazer violência. Eu me criei de pé no chão, como essas crianças que estão aí. Até tenho o pé grande demais porque me criei com o pé à vontade, pisando. O meu dedão é aberto, como de todas as crianças que se criam de pé no chão. Será que mudou tudo isto?! Ou estão mudando tudo isto? Estão oprimindo essas populações? Como é isto? Será que não estamos aqui envoltos por um véu, por um nevoeiro de obscurantismo e não estamos nos dando conta do que está acontecendo? (30-06-93).

Natureza juvenil dos crimes

Na minha opinião, pelo menos 80% da criminalidade existente no Rio de Janeiro são de natureza juvenil. Isso não quer dizer que adultos de 18, 20 ou 22 anos estejam excluídos da estatística. Muitos deles fazem parte de quadrilhas, assaltando residências, assaltando bancos e praticando crimes. Mas esta camada, especificamente, é a camada do Moreira (Moreira Franco, governador que sucedeu a Brizola, em 1983): eram crianças e muitos estudavam em CIEPs que foram fechados, abandonados. Essas crianças e muitos estudavam em CIEPs que foram fechados, abandonados. Essas crianças todas saíram e quem sabe quantas delas estão por aí, perdidas na bandidagem.

O quadro que existe é de violência juvenil, de criminalidade juvenil. As crianças partem da periferia para o centro porque lá há uma população imensa e a situação difícil as empurra para cá. Elas não param de vir e acabam passando pelo meio de nossas pernas, tantas são. Não é arrastão, um garoto desses ataca um chefe de família qualquer, rouba uma bolsa de mulher, o problema é rotineiro. E se tiver por ali um pedaço de madeira, um porrete qualquer, chefe de família vai dar na cabeça da criança?

É uma situação terrível e não tenhamos esperanças de que o problema um dia diminua. Ele não vai diminuir, só vai crescer. Vai aumentar porque é cada vez maior o número de crianças vindas da periferia. A única saída é criarmos colégios tipo CIEPs que atraiam, que absorvam, que eduquem essas crianças. Fazer o que os povos dignos fazem: proteger as crianças, colocando-as em escolas dignas, não permitindo que elas andem pelas ruas.

Na França, criança não pode ficar na rua

Na França, nos dias de semana, criança em idade escolar é proibida de andar nas ruas. Se andar, o juiz pega e quer logo saber: por que está na rua? "Não, eu não fui ao colégio." E ele, de imediato, encaminha a criança para o pai ou a mãe, ou direto para o colégio. E se a criança não está matriculada em escola alguma, ele providencia para que isso seja feito.

Aconteceu isso com o José Maria Rabello, nosso companheiro, no exílio na França. Recém tinha chegado com os filhos, quando um deles foi pego pela polícia e encaminhado ao juiz, que o convocou. Lá, soube que na França, criança em idade escolar, não pode andar solta pelas ruas. O mesmo acontece na Alemanha, na Inglaterra e nos Estados Unidos.

Agora, aqui não! É isso que vemos. Porque na periferia onde vivem, não há escola, não há nada. Outro dia, uma pessoa me construiu o seguinte quadro, que na verdade dá idéia aproximada do que está acontecendo: vamos admitir que estejamos vivendo numa grande cidade que, ao lado, tem uma área úmida, com bastante água parada. E ali se criam muitos mosquitos. A cidade está aqui, os mosquitos estão lá. De repente começa a ventar de lá para cá. Um vento cada vez mais forte, que progressivamente vai inundando a cidade de mosquitos.

As pessoas então começam a se defender dos mosquitos com uma reação primária, até irracional. Usando aquelas bombinhas de flits. Lembram, aquelas manuais? Tchii, tchii, tchii... Só que não conseguem vencer os mosquitos. E aí resolvem apelar para os sprays, mais modernos, mas só podem usá-los dentro de casa. Como combater aquela quantidade de mosquitos lá fora com spray? Aí a única saída é as pessoas passarem a viver confinadas, dentro de suas casas, para se defenderem dos mosquitos.

Isto dá uma idéia da periferia das grandes cidades brasileiras onde nascem tantas crianças. E essas crianças precisam ter um destino digno. Se nasceram, foram produto do amor. Por que não dar a elas um destino digno? Como é que um país como o nosso pode gastar 38 milhões de dólares para o Sr. Roberto Marinho construir um estúdio fantástico de televisão e, ao mesmo tempo, deixar as crianças permanecerem no pântano?

É por isso que elas estão vindo em nossa direção, em número cada vez maior. E sabem quem, na vida real, faz o papel de vento? A televisão. O vento é a televisão. Estamos praticando um haraquiri social, um suicídio coletivo. (05-05-92)

Pior do que o apartheid

Olhem, quando esteve aqui o Nelson Mandela, esta personalidade admirável, falei com ele: "Sr. Mandela, me diga uma coisa, o senhor poderia me dizer se lá na África do Sul, onde está o apartheid, onde está a mais horrenda repressão contra os humildes, contra os pobres em nome do racismo, inadmissível, me diga uma coisa: quando matam, como é que fazem? As famílias recebem os corpos? Há velório? Há enterro cristão para esses mortos? As pessoas sabem os nomes dos mortos?"

Ele me disse: "Sim, senhor". Insisti: "As pessoas sabem dizer que o morto é o fulano, filho da dona fulana que mora ali?" Ele confirmou: "Sim, senhor". Acrescentei: "Então vocês identificam todos os que matam?" Também confirmou isso: "Sim, senhor, até fazemos protestos: esses enterros, esses velórios são todos momentos de protesto, de luta para nós". Aí quem ficou curioso foi ele: "Mas por que me pergunta isso?" Tive que responder" "É por aqui matam-se aos milhares, todos rapazes, jovens, escurinhos, miscigenados, ou negros, e as famílias sabem que mataram, não são identificados, não têm enterro cristão compatível". Ele ficou surpreso: "Mas é verdade?". Chamou um secretário para tomar nota. Eu, por minha parte, pedi para chamarem o senado Abdias do Nascimento, um líder brasileiro das popul ações negras, e pedi que confirmasse o que dizia.

Então digo o seguinte: nós íamos nos conformando porque líamos todos os dias isto nos jornais, além de ouvirmos no rádio e vermos na televisão. A maioria se acostumou. Sem falar nos programas de rádio e televisão específicos tipo "Toma, isto é para o traficante tal, a boca cheia de formiga". Coisas assim... Programas brutais que, de certa forma, criam um oba, oba. E as pessoas vão morrendo, vão caindo, vão desaparecendo...

Ontem mesmo tomamos conhecimento, está nos jornais de hoje, de que até mesmo uma autoridade, uma promotora, teria usado essas palavras: "Ah, bandido é na cadeia ou na valeta!" Na cadeia ou na valeta, ainda repetiu. O que é isto? Estamos despertando para isto, que não pode continuar. Acho que agora nós vamos fazer as famílias aparecerem. Volta e meia quando ando aí pelos bairros, tem uma pobre mãe que se agarra em meus braços e me diz: "Governador, não tenho notícias do meu filho, não sei o que foi feito do meu filho, eu sei que tem mortes lá todos os dias, que eu podia ir lá olhar, mas também não vou porque eu tenho medo. Tenho o Joãozinho, o Antoninho, o fulano, o beltrano, tenho medo que levem os outros"

O que é isto? E quantos assassinatos múltiplos desse tipo foram cometidos? Vocês se lembram daquele ali no caminho que conduz à residência de D. Eugênio? Foram sete! Sete jovens negros... Chego a perguntar: como é que podem matar sete jovens de 16, 17 e 20 anos, fortes? Quantos precisaram para agarrar, para matar? Como é que foram mortos? Será que ninguém viu, nem ouviu os tiros? Chego a pensar até na existência, como disse aqui, de uma câmara à prova de som onde matam e depois carregam para jogar por aí. E como é que podem matar sete jovens, se eles, sabendo que vão morrer, adquirem força de três? É preciso quatro, cinco para agarrar alguém que sabe que vai morrer (30-06-92)

Extermínios e seqüestros andam juntos

Permitam que diga: em minha opinião, esses seqüestros são uma atividade paralela promovida pelos integrantes dos grupos de extermínio. Para essas atividades criminosas torna-se necessária a associação, a estruturação para cometer atos. No caso da matança, é preciso seqüestrar em algum lugar, conduzir, matar, abandonar cadáveres e, sobretudo, fazê-los desaparecer. É necessária uma ação rápida, de tal modo que nenhuma criança consiga ver.

Evoluir dessa ação criminosa para o seqüestro propriamente dito, para o assalto a banco, a residências, a estabelecimentos empresariais, a carros-forte, é um simples passo. Para mim, é a mesma gente: a do seqüestro, a dos assaltos a banco, dos grupos de extermínio, esquadrões da morte, responsáveis por esta matança e também dos assaltos organizados que surgem aqui e ali contra estabelecimentos empresariais, contra empresas ou contra residências. Antigamente as polícias eram patronais e locais: com o governo Vargas e com a revolução de 30 é que a policia foi se transformando numa instituição, não dominada pelos patrões e não de natureza local e municipal. Foi adquirindo realmente uma expressão institucional. E retornar para a polícia patronal como ocorreu durante a ditadura, criando ess a quantidade imensa de serviços de segurança, ao ponto que hoje no Rio de Janeiro, existe o maior número de seguranças particulares, polícias particulares, do que integrantes das instituições policiais. E como surgiu tudo isto? Isto tudo surgiu da intenção de aniquilar as pessoas. Primeiro surgiram os grupos de extermínio. Isto vem de muito longe, e há muito tempo que se fala: eu era jovem, vinha ao Rio de Janeiro de vez em quando, morava no Rio Grande do Sul, e aqui já se falava em esquadrão da morte. Houve aquela tentativa de matar mendigos, sempre uma doutrina no sentido de eliminar – em vez de cuidar dos mendigos, em vez de cuidar dos mendigos, em vez de encarcerar os jovens delinqüentes, ou mesmo criminosos, matar! Foi esta doutrina que formou, que incentivou, que criou, que acabou desenvolvendo esta atividade criminosa. (17-07-91)

(Trechos do livro "Com a palavra Leonel Brizola" - Páginas 199-206 - Autor: Osvaldo Maneschy, Madalena Sapucaia e Paulo Becker

Hoje por acaso encontrei essa minha entrevista de 2004...

Interessante como pouca coisa mudou e as mesmas moscas continuam por aí...

Entrevista com Aurélio Fernandes Página da JS/PDT DE São Gonçalo
Em defesa do projeto histórico do PDT

Questionar a índole de Anthony Garotinho nos dias atuais, depois da traição, é fácil. Mas Aurélio Fernandes o fez em 1988, já antevendo o perigo que o então prefeito de Campos significava.

Membro do PDT desde 1982, Fernandes relembra sua passagem pela Juventude do PDT – que até então era chamada de Juventude Trabalhista, vindo a chamar-se Socialista em 1984 – inclusive o episódio em que a direção nacional do PDT interveio para que Garotinho se tornasse o seu presidente nacional. "O argumento é que a autonomia política existente na JS/PDT, que já havia discordado da aliança com o PDS nas eleições gaúchas, poderia causar problemas nas eleições presidenciais de 89", conta ele.

A relação com a "famiglia Garotinho" era difícil: "Eles se aliaram com a minoria de militantes fluminenses que viam a política partidária como um espaço de realização financeira pessoal e profissional e não de transformação da realidade". Pré-candidato a vereador pelo município do Rio de Janeiro, Fernandes propõe um mandato "pela defesa intransigente do projeto histórico de nosso partido". Em entrevista exclusiva concedida à JS/PDT de São Gonçalo Aurélio Fernandes falou sobre eleições municipais, sobre o governo Lula e sobre a famigerada reforma sindical e trabalhista.

"Não há nada mais tucano do que um petista no poder"

"A conjuntura política de crise da década de 80 estimulava a rebeldia"

"Uma candidatura dentro desta perspectiva revolucionária é um desafio de proporções consideráveis"

JS/PDT São Gonçalo: Você tem uma longa trajetória no PDT, com uma longa passagem pela Juventude Socialista - inclusive no tempo em que era Juventude Trabalhista. Conte um pouco sobre isso.

Aurélio Fernandes: Na realidade estive filiado mais tempo na JS PDT do que o tempo que milito exclusivamente no PDT. Foram 12 anos. E posso afirmar que, sem sombra de duvida, devo a minha formação aos anos que me dediquei integralmente à construção de nossa organização juvenil. Conheci o PDT na campanha eleitoral de 1982. Nessas eleições Brizola representou no imaginário popular carioca e fluminense a retomada do fio da história das lutas populares e a
resposta mais radicalmente possível à ditadura militar. Influenciados por essa realidade, uma quantidade enorme de jovens trabalhadores e estudantes, sem experiências partidárias anteriores, participaram pela primeira vez da vida democrática e acabaram por se filiar ao "partido do Brizola". Assim o PDT aglutinou uma maioria de jovens sem nenhuma formação política, jovens trabalhistas e nacionalistas de diversos matizes e jovens social democratas e marxistas identificados com as experiências históricas da década de 60. Todos defendendo o projeto histórico do PDT: trabalhismo como caminho brasileiro para o Socialismo.

Como foi a mudança de nome para Juventude Socialista?

Foi em 1984. Os jovens do PDT participaram ativamente da campanha das Diretas-Já e a Juventude Trabalhista, em seu III Congresso Nacional, após muitas discussões, aprovou por unanimidade a modificação de seu nome para Juventude Socialista. Nesse Congresso fui eleito membro do diretório e da executiva nacional da JSPDT.

Houve também uma tentativa de reorganizar a Juventude para encarar as eleições presidenciais que viriam?

Sim, houve. Tínhamos de assumir uma estrutura organizacional de frontal ruptura com a lógica imposta pela ditatorial Lei Orgânica dos Partidos, não apenas ao PDT, que naquele momento era o maior partido de massas da esquerda brasileira e potencial vitorioso nas eleições presidenciais de 89, como a todos os outros partidos independente de sua linha ideológica. A JS PDT estava diante de um impasse: ou avançávamos ou teríamos um refluxo organizativo de dimensões
consideráveis. Nesse sentido era consensual a aprovação de um novo estatuto no Congresso Nacional que ocorreria em 88. Uma nova forma de organização que o militante teria de se filiar diretamente e apenas ao núcleo de base, onde não existiriam diretórios municipais, substituídos por assembléias de núcleos de base, ou diretórios estaduais substituídos por assembléias de delegados eleitos nos núcleos de base nos municípios. Além disso, os dirigentes podiam ser substituídos a qualquer momento pela reunião que os elegiam e a forma de direção era colegiada sem cargos apenas com as funções de direção pré-definidas. Curiosamente uma forma de organização com características muito próximas de uma organização política que se consolidava naquele momento histórico e que nos desconhecíamos organizacionalmente: o MST.


E por que isso não aconteceu?

Porque, lamentavelmente, a direção nacional do PDT interveio e impediu a realização do Congresso, com o objetivo de nomear o Prefeito de Campos Antony Garotinho presidente da JS/PDT. O argumento é que a autonomia política existente na JS/PDT, que já havia discordado da aliança com o PDS nas eleições gaúchas, poderia causar problemas nas eleições presidenciais de 89. Na época eu era um dos nomes propostos pela maioria para a presidência nacional da JS PDT em um processo de transição para o novo estatuto. Após a intervenção, nossa organização juvenil esvaziou-se nacionalmente, muitos abandonaram a militância e até mesmo o partido, restando alguns jovens resistindo nos estados.
Aproximadamente dois anos depois a direção nacional do PDT convocou-me para que assumisse interinamente a direção da JS PDT. Imediatamente recusei a lógica do proposto e discuti a necessidade de apoio político da direção ao processo de reconstrução que já vinha ocorrendo nos estados. Essa proposta culminou na eleição de uma comissão organizadora e a realização do 7º Congresso da JS PDT em Vitória com a aprovação do novo estatuto com todas as características
descritas anteriormente. Aproximadamente dois anos depois realizávamos o 8º Congresso Nacional da JSPDT em Cuiabá onde fui eleito membro-honorário da JS PDT.

Em termos de atuação política, o que mudou no jovem de hoje para o
jovem do período em que vc presidiu a JS?

Fica difícil trabalhar essas questões em termos meramente geracionais. A conjuntura política de crise da década de 80 estimulava a rebeldia e a ousadia de todos os setores oprimidos da sociedade brasileira. Em vários momentos nossa organização juvenil questionou posicionamentos que considerávamos equivocados por parte das direções do PDT nos municípios, nos estados e
nacionalmente. Havia uma lógica radicalizada de autonomia organizacional da juventude em relação a estrutura partidária.
Mesmo quando ocorre a intervenção em 1988, a resistência da juventude faz com que a direção nacional do PDT recue e aceite um acordo. Ao invés da mera nomeação de Garotinho na "presidência", ocorreria um processo de "eleição" de umrepresentante por estado em cada bancada para, com a aprovação da direção nacional do PDT, eleger uma coordenação
de três nomes para coordenar nacionalmente a JS PDT.
É claro que no caso do Rio de Janeiro esse processo foi dirigido pelo secretario nacional de movimentos sociais do PDT, deputado federal Luis Salomão, que garantiu a eleição do personagem com participação de toda a bancada campista, independente da idade de seus membros, presente ao congresso partidário que ocorria paralelamente ao evento da juventude. Mesmo assim, dos três eleitos para a direção colegiada dois pertenciam à maioria. Porém sem estrutura financeira para acompanhar as atividades e, obviamente boicotados, não conseguiram impedir que a direção nacional tratasse, publicamente, Antony Garotinho como presidente nacional da JS PDT.
Minha formação política ocorreu nesse período e faz com que eu continue acreditando que o tempo das grandes aventuras e das grandes utopias do ser humano não acabaram, e que o impossível só existe no dicionário daqueles que, para sobreviverem, necessitam da miséria dos homens. Enfim outras conjunturas como a da década de 80 virão...

Fale um pouco mais da convivência com o casal Garotinho nos tempos da sua militância na JS.

Foi uma convivência muito difícil. A prática do casal garotinho era a antítese do que realizávamos na juventude. Garotinho e famiglia chegam na JSPDT como interventores nomeados pela direção nacional do partido e se aliam com a minoria de militantes fluminenses que viam a política partidária como um espaço de realização financeira pessoal e profissional e não de transformação da realidade. Logo após 1988, na tentativa de resguardar nossa organização juvenil tentamos trabalhar
em conjunto na coordenação nacional eleita com a intervenção.
Logo percebemos a impossibilidade dessa alternativa, pois o egocentrismo e o oportunismo político de Garotinho impediam qualquer tipo de relacionamento político baseado em uma lógica de compromisso militante com o projeto histórico do PDT.
Por varias vezes decisões tomadas coletivamente eram modificadas nos encaminhamentos para dar destaque pessoal à "liderança" juvenil emergente do futuro "dono do PDT" e virtual candidato futuro a "presidente da república" na era PDT pós-Brizola. Mesmo depois do processo de reorganização da JS/PDT a política de Garotinho em relação à JS/PDT no Rio de Janeiro foi de transformá-la em correia de transmissão de seus projetos pessoais e eleitoreiros. Em todos esses momentos nossa convivência, por motivos óbvios, foi muito tumultuada e repleta de enfrentamentos.

Vamos falar sobre eleições municipais. Como surgiu a sua pré-candidatura a vereador?

Nas eleições de 2000 e 2002 um coletivo de militantes e dirigentes do PDT estimulou e apoiou as candidaturas à vereadora da companheira Francineide Salles no município do Rio e a deputado estadual do companheiro Cid Reis. Na minha opinião foram duas candidaturas vitoriosas, pois caracterizaram-se como um espaço de educação popular, denunciaram as ilusões eleitorais de uma democracia restrita determinada por interesses econômicos, foram acompanhadas por um esforço
paralelo de fortalecimento da organização e participação do povo no partido e nas organizações sociais; assumiram o papel histórico do trabalhismo como caminho brasileiro para o socialismo, sendo reconhecidas por sua identificação política com os excluídos, os trabalhadores e a juventude.
Acima de tudo foram candidaturas coletivas que tinham claro que o nível de consciência do povo sobre as soluções econômicas, sociais e políticas necessárias para o país não se elevará exclusivamente, ou de forma linear, através de prazos ou atos eleitorais e terá de ser construída nas lutas e nas mobilizações do povo trabalhador.
Já há algum tempo esse mesmo coletivo vinha discutindo sua atuação nas eleições de 2004. Nesse processo de discussão surgiu, dentre outras, a proposta de construir coletivamente uma candidatura a vereador nas eleições do município do Rio e um futuro mandato que fosse identificado com essa forma de fazer política e pela defesa intransigente do projeto histórico de nosso partido.
Quais serão as principais bandeiras de sua campanha (se houver)?

O primeiro é o compromisso que, se eleito, não irei receber salário superior ao que recebo em minhas atividades profissionais atuais, e que os futuros assessores reproduzirão esta postura em relação a seus
salários, e que a diferença destes salários será utilizada na implementação dos compromissos políticos do mandato. Uma candidatura dentro desta perspectiva revolucionária é um desafio de proporções consideráveis, mas entendo que é uma das formas de contribuir na luta por um projeto de
sociedade socialista identificado com a história de lutas de nosso povo.

Você tem defendido a candidatura própria para prefeito na capital. Por quê?

O que está em jogo nessas eleições municipais é a necessidade de o PDT apresentar, ao povo trabalhador em todas as grandes cidades, razões para continuar existindo enquanto projeto histórico identificado com os que estão as margens de tudo.
Abrir mão de candidaturas próprias na atual conjuntura da nação brasileira, onde o projeto e a visão estratégica do PDT não se identifica com a oposição de bravatas e alianças por baixo do pano do PFL e PSDB, e menos ainda com o governo neoliberal de Lula e seus aliados, significaria alinhamento e adesão automática com visões de mundo e de governos incompatíveis com a trajetória histórica e política do PDT.
Temos de reconquistar no imaginário popular a identificação que tínhamos na década de 80, onde éramos vistos como a retomada do fio da história das lutas populares e a resposta mais radicalmente possível à crise econômica, política e social. Eu ainda acredito que ainda podemos ser uma alternativa política para o povo trabalhador brasileiro fazer as transformações sociais necessárias para mudar de verdade nosso país. Para isso temos de ter a coragem de ousar, de mostrar nas eleições que nosso projeto histórico está vivo, lançando candidaturas próprias com a cara de nosso
projeto histórico.

Você achou correta a ruptura do PDT com o governo Lula?

Che Guevara tem uma frase que exemplifica muito bem a atual política do governo Lula e seus aliados: "A 'moderação' é outra das palavras que os agentes da colônia gostam de usar. São moderados todos os que têm medo ou todos os que pensam em trair de alguma forma. O povo não é de forma alguma moderado." O PT de Lula, aliado ao PC do B, PSB, PL, PTB, PPS e com apoio critico do PDT completou um ano no governo federal, sem ter dado sinais de reversão do grave quadro de violação do direito humano ao trabalho, à terra e moradia, à educação e à soberania alimentar.

Então, é um governo de continuidade?

Claro! Nesse período o governo Lula se organizou para dar continuidade a administração da crise e concluir a agenda neoliberal de contra-reformas que FHC não conseguiu finalizar devido a resistência dos movimentos populares e classistas. Há séculos atrás, durante o período imperial brasileiro, se dizia que não existia "nada mais conservador do que um liberal no poder". Hoje, muitos afirmam que em seu primeiro ano de governo, nada foi mais tucano do que um petista no poder, senão vejamos: o
o Governo está submetido à cartilha do FMI e do Banco Mundial, o Governo faz todo tipo de acordo e barganha política para aprovar as reformas, o Presidente vive viajando para o exterior, o desemprego mantém-se em níveis alarmantes, o país continua campeão em desigualdades e não se vê como isso possa melhorar, o contingenciamento de gastos tem prejudicado os projetos sociais, a carga tributária supera os 36% do PIB e tende a aumentar com as reformas, a tabela do imposto de renda não vai ser corrigida, a CPMF que era temporária torna-se permanente, a taxa de juros continua
insuportável e prejudica o investimento produtivo.

O modelo econômico continua o mesmo...

Os economistas do governo afirmam que na economia, o dever de casa foi feito, mas a situação do povo vai de pior a pior. A equipe econômica e o Presidente Lula afirmam que a economia brasileira ainda precisa dos remédios neoliberais do ex-ministro Malan e defendem a autonomia do Banco Central. O emprego, o crescimento e a péssima distribuição de renda não fecham a equação. A cidadania é violentada dia após dia. Em 2003 o contingente de desempregados no Brasil foi engrossado em 700 mil pessoas, e a perda do poder aquisitivo real do trabalhador brasileiro se aproximou dos
15%. Além de se recusar a corrigir a tabela de imposto de renda, o governo Lula retomou, aprofundou e aprovou no Congresso o projeto de privatização da previdência do governo FHC. A reforma da previdência demonstra o quanto o governo Lula é serviçal ao capital financeiro. Não é a toa que apenas os 50 maiores bancos tiveram apenas nos primeiros nove meses de 2003 um lucro de R$ 12,733 bilhões. Em nenhum momento o governo Lula aponta para uma solução que afirme a nossa soberania questionando de alguma maneira o pagamento da dívida externa. Uma auditoria parcialmente realizada já demonstrou que a maior parte dos contratos da dívida firmados entre 1964 e 1971 é, de fato,
inexistente. O Brasil tem de fazer uma moratória e realizar uma ampla auditoria. Já pagamos aos supostos credores US$ 183 bilhões de uma dívida que não é nossa. Nós é que somos os verdadeiros credores políticos, sociais e ambientais. O Governo Lula, ao contrário, prática uma "moratória social". No ano de 2003 o governo brasileiro pagou US$ 10 bilhões de juros da dívida externa.


Como sindicalista, o que você espera do novo ministro do Trabalho?

Não é nenhuma surpresa que o presidente da CUT, Luiz Marinho declare ser a favor da indicação do Sr Berzoini ministro do Trabalho. Os dois defendem o pluralismo sindical pleno, inclusive com a possibilidade de organização de sindicatos por local de trabalho. A corrente sindical desses dois senhores - Articulação Sindical - que no momento tem maioria nas várias instâncias da CUT e no Governo Federal, utiliza-se de uma "linguagem classista" e um discurso politizado, no entanto, na prática, implementa um sindicalismo social-liberal de resultados que se resume em reivindicar
uma "cidadania", dentro dos marcos do sistema capitalista, nos limites da luta por melhores salários e da lógica de "parceria" entre capital e trabalho. Nos últimos anos, utilizando-se do argumento da crise econômica, do desemprego estrutural, realizaram varias negociações desvantajosas para os trabalhadores, sob o argumento de que estão garantindo o emprego. O que temos visto em várias negociações é a utilização dos instrumentos de negociação coletiva não para ampliar os direitos assegurados pela CLT, mas para desconstituí-los, reduzi-los, flexibilizá-los, até mesmo por parte de sindicatos considerados mais fortes e aguerridos. Direitos são flexibilizados, regulamentando os interesses da classe patronal nos acordos e convenções coletivas. Basta analisar os instrumentos coletivos firmados por sindicatos cutistas dominados pela Articulação Sindical: em muitos deles, há o desmonte dos direitos trabalhistas conquistados na luta e até na Justiça do Trabalho. A aposta de Marinho e sua corrente significará o fortalecimento de uma estrutura sindical onde cada partido ou corrente política e ideológica terá seus sindicatos e sua central. Essa nova estrutura sindical levará a uma maior desorganização do sistema atual de relações de trabalho permitindo - daí a sua perversidade - a ingerência patronal (empresarial) na organização dos trabalhadores. O lamentável é perceber a ação das cúpulas das centrais sindicais - CUT, FS e CGT - que no Fórum Nacional do Trabalho priorizam debater essa Reforma Sindical, que abre o caminho para uma futura Reforma de "flexibilização" Trabalhista que significará a retirada de direitos ao invés de propor a discussão de mecanismos de distribuição da riqueza e renda num país que é campeão em desigualdades sociais.

E qual seria o modelo ideal de reforma sindical, na sua opinião?

Deveriam propor ao governo medidas de caráter emergencial de combate à informalidade, à terceirização, às falsas cooperativas, ao trabalho escravo e à prorrogação da jornada. Deveriam defender sistemas de relações de trabalho que permitissem um maior controle dos trabalhadores sobre o uso de sua força de trabalho e não mudanças que contribuam para aprofundar a desregulamentação de direitos sociais e para ampliar o grau de flexibilidade das relações de trabalho no Brasil, que sempre foram bastante flexíveis apesar de uma legislação extensa e bem detalhada. Necessitamos de mudanças que prioritariamente apontem para a necessidade de sanções para que o empregador seja
compelido a negociar, a fornecer aos sindicatos de trabalhadores a transparência na sua situação econômico-financeira, para só daí poder recusar a conceder melhores condições de vida, de trabalho e de salário. Os trabalhadores foram as principais vítimas do modelo neoliberal e não devem "ceder" mais nada. Devemos defender intransigentemente a manutenção da CLT, que deve permanecer intocada em seus pontos essenciais e funcionar como legislação de sustento, garantindo-se um mínimo de proteção e uma trincheira de resistência contra a precarização dos contratos, obstando a terceirização desenfreada, o tráfico de mão-de-obra, a "coooperfraudização" do trabalho etc.

Mas o atual sistema é ruim?

O atual sistema garantiu ao longo de décadas, a organização e a representação dos trabalhadores, inclusive com entidades de grande expressão, tradição de luta e importantes dirigentes sindicais e deve ser mantido, com algumas alterações: reconhecimento da organização sindical por local de trabalho vinculada ao sindicato da categoria;
aprovação de um estatuto de garantias sindicais com prioridade para as OLTs; reconhecimento constitucional das centrais sindicais, apesar de entendermos a necessidade de uma central única que seja plural e abrigue todas as forças que atuam no movimento sindical; manutenção da contribuição sindical compulsória apenas dos não associados, alterando a sua destinação para as centrais sindicais; e regulamentação da contribuição federativa, inclusive a favor da central sindical. As possibilidades de melhorias substanciais no atual sistema de relações de trabalho estão bloqueadas pela debilidade dos sindicatos e das centrais e pela hegemonia das concepções neoliberais no governo Lula e nos
debates do Fórum Nacional do Trabalho. Assim, o papel do movimento sindical deve ser o de impedir e/ou dificultar ao máximo a proposta de Reforma Sindical do governo Lula e preservar as posições duramente conquistadas em mais de 60 anos de lutas sindicais. A entrada do Sr Berzoini no Ministério do Trabalho converge com a estratégia do Governo Lula de implantar uma concepção neoliberal nas relações de trabalho e será, com certeza, desastrosa para a classe trabalhadora brasileira.

12 x 12, com Aurélio Fernandes
Filme: Os companheiros de Mario Monicelli, uma obra inesquecível e que marcou minha vida.
Recentemente Adeus Lênin.

Música: MPB, Rock, Jazz, Blues, Clássica, Samba qualquer gênero desde que tenha qualidade.

Jornal: Aquele que nós devíamos estar fazendo...

Livro: "Veias AberTas da América Latina", de Eduardo Galeano; e "Dialética da Dependência", de
Ruy Mauro Marini

Hobby: Ler e assistir bons filmes

Dinheiro: O necessário para viver e lutar

Mito: Lênin, Mariategui e Che

Líder: O povo trabalhador

Sonho: Um mundo onde não exista a exploração do homem pelo homem e no qual nos respeitemos pelo que somos, e não pelo que temos.

Decepção: Não termos construído ainda o instrumento partidário que o povo trabalhador necessita para conquistar sua liberdade.

Brizola: No futuro será reconhecido como uma das maiores lideranças de esquerda da América Latina

Brasil: Como diria Darcy, depende de nossa luta para que ele se torne a semente de uma nova civilização solidária.

CRISE, LUTA E ESPERANÇA

Por Miguel Urbano Rodrigues

O fim da actual crise de civilização é imprevisível. Inevitável, conduzirá ao desmoronar do capitalismo ou a uma era de barbárie.
Prever datas para o desfecho seria, porém, um exercício de futurologia.
Mas uma certeza se esboça já no horizonte: a derrota espera o imperialismo nas guerras criminosas que os EUA desencadearam para manter e ampliar o sistema de dominação mundial do capital.
OS EUA estão atolados em guerras perdidas no Afeganistão e no Iraque e a sua aliança com o Estado neofascista de Israel é um factor de tensão permanente no Médio Oriente. As estratégias agressivas que desenvolvem na América Latina, na África e na Ásia Oriental são também incompatíveis com as aspirações dos povos ameaçados, contribuindo para o subir da maré anti-americana
Nesta fase, iniciada com as agressões no Médio Oriente e Ásia Central, o imperialismo estadounidense encontrou situações históricas muito diferentes da que precedeu o seu envolvimento no Vietname e a humilhante derrota que ali sofreu. Nos EUA somente uma minoria percebeu que a guerra estava perdida quando Giap desfechou a ofensiva do Tet. A resposta de Johnson e Kissinger, cedendo aos generais do Pentágono, foi a ampliação da escalada. A agressão alastrou para o Laos e Washington e enviou mais tropas para a fornalha vietnamita, semeando a morte a devastação no Sudeste Asiático. Transcorreram anos até à retirada dos EUA. Os povos foram lentos a compreender que o desfecho da trágica agressão ao Vietname era o prólogo de uma crise que significou a perda da hegemonia que Washington exercia sobre a economia do Ocidente desde o final da II Guerra. Nada foi igual desde então.
Mas o establishment norte-americano não extraiu as lições implícitas no fracasso das guerras da Coreia e do Vietname. A estratégia foi reformulada, mas a ambição imperial permaneceu, assumindo novas formas.
O cenário das agressões adquiriu proporções planetárias a partir do desaparecimento da União Soviética.
A primeira guerra do Golfo foi decidida no final da presidência de George Bush pai perante a passividade da URSS, prestes a desintegrar-se. Washington proclamou então que a humanidade havia entrado numa era de paz permanente, sob a égide dos EUA, garantes da Nova Ordem Mundial. Um obscuro epígono do capitalismo, Francis Fukuyama, saudou a morte do comunismo e anunciou o «Fim da História», apontando o neoliberalismo como a ideologia para a eternidade.
O desmentido aos profetas imperiais não tardou.
Quando as torres do Word Trade Center desabaram, o mundo entrou numa fase de turbulências anunciatórias de uma profunda crise de civilização. Após o 11 de Setembro de 2001, Bush filho, alegando necessidade de uma «cruzada contra o terrorismo», e afirmando que Deus estava com os EUA, invadiu o Afeganistão, semeando a morte a destruição naquele remoto pais da Ásia Central.
Depois chegou a segunda guerra iraquiana, iniciada à revelia do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A terra milenária da Mesopotâmia foi ocupada, os seus museus saqueados, o seu petróleo e gás entregues às petrolíferas dos EUA, dezenas de milhares de iraquianos chacinados.
Autoproclamando-se nação predestinada, com vocação para redimir a humanidade dos seus pecados, os EUA, sob a batuta da extrema-direita republicana, passaram a actuar como um Estado terrorista, disseminando o terrorismo pelo planeta.
Essa trágica situação somente foi possível pela cumplicidade da União Europeia, do Japão e do Canadá, estados ditos civilizados. Com o seu aval ao establishment bushiano abriram as portas à barbárie.
A eleição de um negro para a Presidência dos EUA gerou a ilusão de que o pesadelo iria findar. Mas Barack Obama, que chegou à Casa Branca com o apoio entusiástico do grande capital, mudou o discurso, mas manteve a politica imperialista. Pior, agravou-a.

O PÂNTANO AFEGÃO
Admiradores do Presidente norte-americano afirmam que ele é um humanista, vítima de uma engrenagem que o instrumentaliza. Mas a defesa que dele fazem não convence.
O Prémio Nobel da Paz tomou decisões que contribuíram para aprofundar a crise mundial. No plano interno a sua política tem sido, no fundamental, de capitulação perante as exigências do grande capital. Significativamente, o seu secretário do Tesouro, Geithner é um político que goza da confiança total de Wall Street.
No terreno internacional, o Presidente aumentou muito o orçamento do Pentágono, pediu ao Congresso verbas colossais para as guerras asiáticas, enviou mais 30 000 militares para o Afeganistão, e faz da vitória nessa guerra uma prioridade da sua politica exterior.
Entretanto, acumula derrotas no teatro afegão. A ofensiva no Helmand foi um fracasso; a de Kandahar foi sucessivamente adiada.
A divulgação dos documentos secretos oferecidos pela WikiLeaks ao NY Times, ao Guardian e ao Der Spiegel instalou o pânico na Casa Branca, e o inquérito do sobre a fuga de informações classificadas abalou fortemente a confiança dos americanos no sistema de segurança do Pentágono.
Em declarações recentes, Julian Assange, o australiano que criou o WikiLeaks, afirmou que crimes cometidos pelo exército dos EUA excedem em horror os massacres do Vietname. A chamada Força Tarefa Conjunta 373 tem por missão abater secretamente chefes talibãs e elementos suspeitos de pertencer à Al Qaeda.
Grupos de matadores especiais intitulados Kia são responsáveis pelo assassínio de centenas de civis em ataques cujas vítimas são designadas nos relatórios como «mortos em acções».
O rol dos crimes das tropas de ocupação da NATO também ocuparia muitas páginas. A chacina de Kunduz, da responsabilidade do contingente alemão, abalou o governo da chanceler Merkel, mas foi apenas uma das muitas matanças de civis cometidas pelas tropas de ocupação.
Julian Assange cita como exemplo das atrocidades dos aliados o bombardeamento de uma aldeia por uma força polaca. Dezenas de pessoas ali reunidas para festejar um casamento morreram num acto de retaliação concebido com crueldade.
Rotineiramente, o alto comando norte-americano promove inquéritos nesses casos para «apurar responsabilidades». Mas ninguém é punido.
Hamid Karzai, o presidente fantoche, protesta e pede providências, mas a indignação é simulada.
Milhares de civis nas aldeias da fronteira paquistanesa foram mortos pelos bombardeamentos realizados pelos drones- os aviões sem piloto. O actual comandante Supremo, o general Petraeus, define essas «missões» assassinas como indispensáveis ao êxito da nova estratégia de luta «contra o terrorismo»

FARSA DRAMÁTICA
Hillary Clinton, o vice-presidente Joe Binden e James Baker, o secretário da Defesa, têm visitado frequentemente o Afeganistão.
A encenação pouco varia. Deslocam-se para levantar o moral das tropas, dizer lhes que estão a lutar pela pátria, pela liberdade e a democracia contra o terrorismo, que a luta exige grandes sacrifícios, mas que a vitória na guerra afegã é uma certeza.
Todos aproveitam para pedir ao Presidente Karzai que «governe democraticamente», afaste colaboradores que não merecem a confiança dos EUA, e ponha termo à corrupção implantada no país.
Karzai faz promessas, reune assembleias tribais que lhe aprovam a política e repete que é fundamental negociar com os «talibãs recuperáveis». É ele, chefe da mafia, o primeiro responsável pelo sumiço de milhares de milhões de dólares doados em conferências internacionais para o desenvolvimento e reconstrução do país, destruído pela invasão americana. A realidade não alterou o método. Em Kabul, a última dessas conferências acaba de aprovar mais uns milhares de milhões para «ajudar» o Afeganistão.
Entretanto, a produção de ópio, insignificante à data da invasão, aumentou 90% na última década.
É do domínio público que familiares do presidente mantêm íntimas ligações com o negócio da droga.
Nas suas periódicas visitas ao Paquistão, Hillary Clinton admoesta o presidente Asif Zardari pela insuficiência do esforço de guerra nas áreas tribais do Waziristão na fronteira do Afeganistão. Joe Binden repete-lhe o discurso. Ambos insinuam cumplicidade do Exército com as chefias talibãs.
O Primeiro-ministro britânico Cameron ao visitar o país foi tão longe nas suas críticas que o governo de Islamabad cancelou uma visita a Londres do chefe dos serviços de inteligência paquistaneses convidado pelo Intelligence Service.
Crónicas de correspondente europeus em Kabul e declarações de soldados dos EUA regressados da guerra afegã esclarecem que a moral das tropas de combate caiu para um nível muito baixo.
A demissão do general Stanley McChrystal, que criticara numa entrevista o presidente Obama, contribuiu para acentuar o mal-estar no Alto Comando. O general tem um currículo de criminoso, mas as suas opiniões sobre a condução da guerra são partilhadas por muitos oficiais.
Assim vão as coisas na guerra podre do Afeganistão.
No Iraque, a «pacificação» é um mito como demonstra o aumento de mortos em atentados bombistas em Bagdad e na região Norte, controlada pelos kurdos. O discurso de Obama aos veteranos deficientes, no dia 1 de Agosto, sobre a retirada das tropas foi um exercício de hipocrisia, semeado de mentiras e estatísticas falsas.
Na Palestina, Israel continua a bloquear Gaza, bombardeada com frequência, e amplia a construção de casas na Jerusalém árabe e em colonatos na Cisjordânia.
O Irão é atingido por novas sanções, aprovadas pelo Conselho de Segurança, e a CIA promove atentados terroristas no Kuzistao, fronteiro do Iraque, e na província baluche, vizinha do Paquistão.
Na América Latina, Uribe, nas vésperas de ceder a presidência a Juan Manuel Santos, seu filhote político, criou uma crise com a Venezuela bolivariana ao forjar acusações sobre a presença das FARC em território daquele país. Os EUA, que vão instalar 7 novas bases militares na Colômbia, aprovaram imediatamente a provocação.
XXX
Neste contexto de escalada militar em múltiplas frentes, a crise interna prossegue. O magro crescimento do PIB esconde a realidade.
O número de casas vendidas é o mais baixo dos últimos anos. Milhares de empresas fecham todos os meses. Em cidades outrora famosas pela riqueza, como Detroit e Pittsburg, bairros inteiros estão hoje desabitados. O desemprego alastra. Nas universidades aumenta o ensino elitista. A tão elogiada reforma dos «cuidados de saúde» dificultou mais o acesso de milhões de imigrantes ilegais aos hospitais (v.Fred Goldstein, odiario.info, 22.04.2010).
A Finança, essa prospera. Os gestores dos grandes bancos continuam a receber reformas e prémios fabulosos. Um desses gigantes, o Wells Fargo, acumulou lucros de milhares de milhões de dólares com a lavagem do dinheiro da droga (v.Cadima, «avante!», 29.07.2010).
O controlo hegemónico do sistema mediático pelo grande capital impede, porem, a humanidade de tomar consciência da profundidade da crise. Nos EUA, pólo do sistema, o discurso do Presidente transmite um panorama optimista da situação, anunciando melhores tempos e vitórias imaginárias.
Somente uma minoria de cidadãos, nos EUA, na Europa, e nos demais continentes estão em condições de descodificar o discurso da mentira irradiado pelo grande capital.
Para as forças progressistas ajudar os povos a compreender a complexidade e a extrema gravidade da crise do sistema é, por isso mesmo, uma tarefa revolucionária. Porque essa compreensão é fundamental para o incremento e dinamização da luta dos trabalhadores em cada país contra o projecto de dominação imposto pelo sistema que ameaça mergulhar a humanidade na barbárie.

Vila Nova de Gaia, 2 de Agosto de 2010

Sobre minhas aulas na ULB

É lamentável ao rever minhas aulas na ULB constatar que o que se tornou o PDT. Mas essa luta continua e continuo acreditando e lutando para que o povo trabalhador retome esse fio da história e liberte o nosso país.

História do Trabalhismo - Aula 04

História do Trabalhismo - Aula 03 - Parte 02

História do Trabalhismo - Aula 03 - Parte 01

História do Trabalhismo - Aula 02

História do Trabalhismo - Aula 01 - Parte 02

História do Trabalhismo - Aula 01 - Parte 01

Pensamentos impertinentes...

"Lo fundamental no son las próximas elecciones sino las próximas generaciones"
Omar Torrijos

Pensamentos impertinentes...

"Lo fundamental no son las próximas elecciones sino las próximas generaciones"

Omar Torrijos

Entrevista de Theotonio dos Santos ao CORECON-RJ

Abaixo disponibilizamos o vídeo da recente entrevista do Professor Theotonio dos Santos ao CORECON-RJ, abordando a questão da crise mundial atual e sobre a Teoria da Dependência.


En Defensa de Cuba

Eu assino embaixo...

A propósito de la resolución del 11 de marzo del Parlamento Europeo
sobre Cuba, los intelectuales, académicos, luchadores sociales,
pensadores críticos y artistas de la Red En Defensa de la Humanidad
manifestamos:

1.- Que compartimos la sensibilidad mostrada por los parlamentarios
europeos acerca de los prisioneros políticos. Como ellos, nos
pronunciamos por la inmediata e incondicional liberación de todos los
presos políticos, en todos los países del mundo, incluidos los de la
Unión Europea.

2.- Que lamentamos profundamente, como ellos, el fallecimiento del
preso común Orlando Zapata, pero no admitimos que su muerte, primera
“…en casi cuarenta años” según el propio Parlamento, sea tergiversada
con fines políticos muy distintos y contrarios a los de la defensa de
los derechos humanos.

3.- Que instar “…a las instituciones europeas a que den apoyo
incondicional y alienten sin reservas el inicio de un proceso pacífico
de transición política hacia una democracia pluripartidista en Cuba”
no sólo es un acto injerencista, que reprobamos en virtud de nuestro
compromiso con los principios de no intervención y de
autodeterminación de los pueblos -defendidos también por la ONU-, y en
contra de la colonialidad, sino que supone un modelo único de
democracia que, por cierto, cada vez se muestra más insuficiente y
cuestionable. La búsqueda y profundización de la democracia supone,
entre otras cosas, trascender sus niveles formales e inventar nuevas
formas auténticamente representativas que no necesariamente están
ceñidas al pluripartidismo que, como bien se sabe, encubre
frecuentemente el hecho de que las decisiones sobre los grandes
problemas mundiales son tomadas unilateralmente por pequeños grupos de
interés con inmenso poder, por encima del régimen de partidos.

4.- Que pretender justificar una intromisión en los asuntos políticos
internos del pueblo cubano manipulando mediáticamente el caso de
Orlando Zapata -delincuente común y de ninguna manera preso político-,
coincide con las políticas contrainsurgentes que han estado
aplicándose en América Latina para detener o distorsionar los procesos
de transformación emancipadora que están en curso y se suma al
criminal bloqueo al que ha sido sometido el pueblo cubano, por el
simple hecho de no aceptar imposiciones y defender su derecho a
decidir su destino con dignidad e independencia.

5.- Que compartimos la preocupación mostrada por los parlamentarios
sobre el respeto a los derechos humanos en Cuba pero la extendemos al
mundo en su totalidad. Así como les preocupa el caso del delincuente
fallecido (que en 40 años no tiene ningún antecedente similar), los
invitamos a exigir el fin de la ocupación de Gaza y del hostigamiento
al pueblo Palestino, que ha provocado no una sino miles de muertes; de
la intervención en Irak y Afganistán sembrando muerte y terror en
pueblos y ciudades; de los bombardeos en esos lugares con el argumento
de defender la democracia; el fin de la doble ocupación de Haití; el
cierre de la prisión de Guantánamo y la entrega de ese territorio a
Cuba, a quien le pertenece; la devolución de las islas Malvinas a
Argentina; y, por supuesto, el fin de un bloqueo que viola los
derechos humanos del pueblo cubano y que puede poner en duda la
calidad moral de quien exige trato humano para un delincuente cuando
se lo niega a un pueblo entero.

El acoso económico y mediático al que está siendo sometida Cuba, aun
antes del deceso del preso común Orlando Zapata, constituye un
atentado contra los derechos humanos y políticos de un pueblo que
decidió hacer un camino diferente.

Exigimos respeto a los procesos internos del pueblo cubano para
definir y ejercer su democracia, y consecuencia con los principios
universales de no intervención acordados por las Naciones Unidas.

Red En defensa de la Humanidad

Pablo González Casanova, Víctor Flores Olea, Ana Esther Ceceña
Sitio donde aparece la declaración:
http://www.defensahumanidad.cult.cu/artic.php?item=9196