Entre o centralismo democrático e o burocratismo: razões do meu desligamento do PCBR
Aurelio Fernandes/ PCBR Capital Rio de Janeiro
“O amor é como uma xícara de chá que todos os dias cai
no chão e se quebra em pedaços. Os verdadeiros apaixonados permanentemente
juntam os pedaços, colam e reconstroem a xícara, porém sempre ficam com o
receio de que chegue o dia em que a xícara esteja tão quebrada que não seja
mais possível reconstruí-la”.
(Subcomandante Marcos do Exército Zapatista de
Libertação Nacional)
Há algum tempo
venho acumulando incômodos com a forma como determinadas decisões são tomadas
no PCBR. Não se trata de uma divergência pontual, nem de discordar desta ou
daquela resolução do Comitê Central. Nesse período, concordei com algumas
decisões, discordei de outras e procurei compreender as razões apresentadas
pela direção. Aos poucos, porém, fui percebendo que o mesmo problema aparecia
em situações diferentes: o enfraquecimento do centralismo democrático e, junto
com ele, do método de crítica e autocrítica.
Essa percepção
não nasceu de um episódio isolado. Foi sendo construída a partir da forma como
diferentes questões foram encaminhadas: as consequências da integração orgânica
da UJC ao Partido; o tratamento demorado dado a denúncias de assédio sexual,
racismo, etarismo e outras práticas opressivas, inclusive de um membro do CC
durante a crise do Comitê Regional do Rio de Janeiro no fim de 2024 e que nunca
foram encaminhados até hoje; as divergências sobre a atuação da UJC no
movimento estudantil e no Congresso da UNE, inclusive em relação aos recursos
destinados a esse trabalho e à relação estabelecida com o PCR/UP.
Depois vieram
outras questões: o debate sobre a relação do Partido com o Farol Brasil; a
candidatura de Jones Manoel; a possibilidade de sua filiação democrática ao
PSOL ou a outra organização revolucionária legalizada; a negativa desse mesmo
caminho para outras candidaturas de militantes do PCBR; o desligamento
posterior de Jones; a relação com a Bancada Radical e, finalmente, os
encaminhamentos sobre as eleições de 2026.
Durante algum
tempo tratei essas situações separadamente. Algumas me pareceram mais graves,
outras menos. Em determinados casos concordei até com a decisão final. Foi
justamente por isso que demorei a perceber que o problema não estava apenas no
conteúdo das decisões, mas também no modo como elas vinham sendo construídas.
O Comitê Central
tem autoridade e responsabilidade para dirigir o Partido entre congressos. Isso
faz parte do centralismo democrático. A minoria se subordina à maioria, os
organismos inferiores aos superiores, e o CC dirige o conjunto do Partido,
submetido às decisões congressuais. Não estou defendendo federalismo nem uma
organização em que cada organismo faça o que quiser.
Mas direção
política não pode significar apenas o direito formal de decidir. É preciso
disputar politicamente a militância, explicar as opções, organizar o debate e
construir convencimento. A centralização deveria nascer desse processo, e não o
substituir. O XVII Congresso foi bastante claro nesse ponto. O centralismo
democrático não se reduz à obediência às instâncias. A unidade de ação depende
de uma vida partidária em que as divergências possam ser apresentadas e os
erros enfrentados, e não apenas dos momentos congressuais ou de balanço.
Meu incômodo
aumentou porque questões que poderiam ter sido discutidas com antecedência
começaram a chegar aos organismos quando a decisão já estava praticamente
tomada ou quando o prazo era curto demais para uma intervenção real. Foi assim
que passei a enxergar uma política do fato consumado: formalmente existe
debate, mas muitas vezes já quase não existe espaço para alterar o curso das
decisões.
Não digo que isso
aconteça em tudo ou em todos os organismos. Mas aconteceu vezes suficientes
para deixar de parecer episódico. Os encaminhamentos eleitorais de 2026
tornaram isso particularmente evidente para mim.
No dia 5 de maio
de 2026, durante a passagem de Hertz Dias pelo Rio de Janeiro, uma camarada do
PCBR perguntou diretamente a ele sobre a possibilidade de apoio do nosso
Partido à sua candidatura presidencial. Hertz respondeu que a questão estava
sendo debatida e que o apoio era possível. Minutos depois, outro dirigente do
PSTU disse à mesma camarada que as negociações com o PCBR sobre o apoio à
candidatura de Hertz já estavam muito adiantadas.
Três meses
depois, em 8 de agosto, o Comitê Central publicou no jornal do Partido o
documento O desenvolvimento da luta eleitoral em 2026 e os rumos que o PCBR
aponta. Ali a definição ainda era apresentada como aberta. O documento
dizia ser necessário “redebater a tática dos comunistas”, anunciava reuniões
durante agosto, das bases à direção, e afirmava que nenhuma das três
candidaturas presidenciais da esquerda revolucionária possuía um diferencial
que justificasse preferência. O voto em qualquer uma delas era considerado
igualmente válido.
Não afirmo que a
decisão formal de apoiar Hertz Dias já estivesse tomada em maio. O problema é
outro. Se as negociações com uma das candidaturas já estavam muito adiantadas,
isso fazia parte das condições concretas do debate. A militância deveria saber.
A contradição
aparece também nos documentos do próprio CC. Em 8 de agosto, o PSTU era
criticado mais duramente que as demais organizações por sua “irresponsabilidade
para com a unidade dos revolucionários”. Um mês depois, em 8 de setembro, após
uma alegada “profunda análise programática”, passou a ser apresentado como a
organização com o programa “mais coerente e próximo” do nosso e como a “base
mais sólida” para construir essa mesma unidade.
Uma direção pode
mudar de posição. Isso faz parte da política. O que me incomodou foi não ser
informado a militância o que havia produzido uma mudança desse tamanho. Quais
elementos novos foram considerados? Que documentos foram analisados? Que
relação existia entre a conclusão de setembro e as negociações que já estavam
avançadas em maio?
Essas respostas
não apareceram. E isso pesou muito na minha avaliação.
A decisão de não
apoiar Glauber Braga aprofundou esse problema. Desde julho de 2025, a UCL
Metropolitana insistia na necessidade de discutir as eleições de 2026. A
resposta do Comitê Central era que deveríamos esperar.
Em 13 de dezembro
de 2025, uma plenária organizada pela UCL, com cinquenta militantes, aprovou
por unanimidade o apoio orgânico a Glauber. Quando o debate voltou à base, em
23 de agosto de 2026, numa plenária convocada pelo próprio CC, o apoio a
Glauber e Clarice Chacon venceu por 20 votos a 4. A plenária também repudiou a
forma excessivamente centralizada como as definições eleitorais vinham sendo
tomadas.
A interlocução
com Glauber não surgiu do nada. Ela havia sido construída nas lutas do Rio e
vinha sendo conduzida pela UCL com autorização do CC. Em maio o CC solicitou uma
reunião com Glauber e UCL Metropolitana. Sem discussão conosco, a reunião foi
transferida para São Paulo e realizada apenas com o Secretário-Geral. Depois
disso, os organismos que vinham conduzindo essa relação não receberam sequer um
balanço do que havia sido tratado.
O problema não
era o CC ser obrigado a acompanhar a maioria das plenárias do Rio. Não era isso
que estava em discussão. Depois de mais de um ano de solicitações, de duas
votações com resultados claros e de uma relação política construída nas lutas
do estado, esperava-se ao menos uma resposta política aos argumentos
apresentados.
Ela não veio e a
posição construída no Rio foi superada sem um processo de convencimento.
Também me chamou
atenção o critério utilizado. A relação com Lula, que deveria integrar uma
avaliação política mais ampla, acabou assumindo um peso praticamente
eliminatório. A atuação de Glauber nas lutas do Rio, suas divergências com o
governismo majoritário do PSOL e as condições oferecidas para que o PCBR
mantivesse seu programa, seus materiais e sua liberdade de posicionamento
ficaram em segundo plano.
Quando comparo
isso com o apoio ao PSTU, a contradição aparece com mais força. Divergências
estratégicas importantes foram relativizadas no caso de uma organização que se
opõe a Lula. Com Glauber, uma experiência concreta de luta comum acabou tendo
menos peso porque ele apoia Lula no primeiro turno.
Foi nesse momento
que comecei a sentir que a independência de classe deixava de servir como
critério para uma análise concreta e passava a funcionar como uma regra quase
abstrata.
A questão de
Jones Manoel teve outro percurso, mas me levou a uma inquietação semelhante. O
próprio CC havia aprovado sua candidatura como prioridade nacional e admitido,
para viabilizá-la, uma filiação democrática ao PSOL ou a outra organização
legalizada. Esse caminho foi considerado compatível com a independência
política do Partido, embora tivesse sido negado a outros militantes que
propunham candidaturas vinculadas à sua inserção nas lutas. Depois do
desligamento de Jones, o CC decidiu não o apoiar.
É evidente que
seu desligamento e suas divergências com o Partido mudavam as condições da
discussão. O apoio não poderia ser automático. Mas justamente por isso eu
esperava um balanço: o que havia mudado politicamente naquela candidatura? Que
critérios passaram a orientar a nova posição? Por que uma unidade eleitoral
crítica, antes concebida pelo próprio Partido, deixava de ser possível?
Esse balanço
nunca chegou à militância. Foi então que parei de enxergar PSTU, Glauber e
Jones como episódios completamente separados. Os conteúdos eram diferentes, as
circunstâncias também. O que comecei a perceber em comum era o método:
informações importantes que não chegavam à base, mudanças de orientação pouco
explicadas e debates que aconteciam quando o espaço de intervenção da
militância já estava reduzido.
A partir daí,
deixou de estar em questão apenas minha discordância com determinados
encaminhamentos. Passei a me perguntar se ainda havia condições políticas para
permanecer no Partido.
O uso do sigilo
também entrou nessa conta. Um partido revolucionário precisa proteger seus
militantes, informações sensíveis e determinadas iniciativas políticas, mas
segurança não pode significar que questões que exigem elaboração coletiva
fiquem permanentemente restritas à direção. Há uma diferença entre proteger uma
informação e retirar dos organismos elementos necessários para que a militância
compreenda e intervenha conscientemente nas decisões.
Há ainda uma
dificuldade crescente em lidar com a divergência. Discordância não é
automaticamente indisciplina, assim como uma posição minoritária pode estar
errada e continuar sendo legítima no interior do Partido. Quando levantar
determinadas questões começa a colocar sob suspeita a lealdade de quem as
apresenta, temos um problema.
Isso repercute
diretamente na vida das células e dos demais organismos. Muitas vezes falta
tempo para estudar documentos importantes, formular posições ou fazer o debate
retornar às instâncias superiores. Os boletins internos terminam funcionando
mais como meios de informação e orientação do que como instrumentos capazes de
organizar as polêmicas existentes no Partido. Também são poucos os balanços que
permitem compreender erros, mudanças de orientação e divergências reais.
Para mim, crítica
e autocrítica só fazem sentido quando permitem enfrentar esses problemas,
explicar mudanças de rumo e reconhecer erros quando necessário. A disciplina
comunista não é obediência silenciosa. Um militante disciplinado participa do
debate, apresenta sua posição, aceita quando é derrotado e cumpre coletivamente
o que foi decidido. A disciplina nasce desse compromisso consciente.
Quando as
divergências deixam de encontrar espaço nos organismos, elas não desaparecem.
Vão para outros lugares. Camaradas deixam de dizer nas reuniões aquilo que
comentam depois, informalmente. Problemas conhecidos são empurrados para a
frente para evitar atritos. Erros deixam de ser enfrentados. Preservam-se
relações pessoais e os problemas políticos continuam ali.
Isso é
liberalismo e não nasce apenas da falta de firmeza de um ou outro militante.
Também cresce quando os espaços coletivos deixam de ser percebidos como lugares
onde as divergências podem ser enfrentadas de forma efetiva. O resultado é ruim
para todos. Aparecem ressentimentos, julgamentos pessoais e conversas
paralelas. As relações entre camaradas se desgastam.
Quanto mais a
centralização é percebida como algo distante da base, maior a possibilidade de
surgir a reação oposta: a rejeição não apenas daquele método de direção, mas da
própria necessidade de direção e centralização. Burocratismo e ultra
democratismo podem, assim, alimentar um ao outro.
Por isso continuo
pensando que centralismo democrático não pode ser uma expressão usada apenas
quando se cobra disciplina da base. Sem democracia interna real e participação
consciente da militância, sobra o centralismo. E um centralismo esvaziado de
democracia tende ao burocratismo.
Esse ponto me
incomoda particularmente porque o XVII Congresso fez uma crítica dura ao antigo
PCB justamente pela aplicação seletiva do centralismo democrático, pelo
tratamento desigual das divergências e pelo bloqueio da participação política
da militância. Não penso que estejamos simplesmente repetindo aquele processo.
Seria uma comparação fácil demais. Mas também não consigo ignorar quando alguns
métodos que criticávamos começam a reaparecer.
Durante bastante
tempo acreditei que essas contradições poderiam ser enfrentadas no interior do
Partido. Fui eleito para o Comitê Regional do Estado do Rio de Janeiro,
participei da fundação da célula de trabalhadoras e trabalhadores da educação
pública filiados ao SEPE, fui eleito para o Comitê Local da Capital e cooptado
pelo CC para a União de Comitês Locais da Região Metropolitana do Rio, onde fui
assistente do Comitê Local do Leste Metropolitano.
Não relato isso
para apresentar uma espécie de currículo partidário. Registro porque tentei
participar desse processo por dentro. Procurei compreender os problemas,
participei dos debates que estavam ao meu alcance e mantive, durante bastante
tempo, a expectativa de que seria possível corrigir os rumos.
A forma como
foram construídos o apoio ao PSTU e o não apoio a Glauber Braga e Jones Manoel
foi decisiva para isso. Não apenas pelas decisões tomadas, mas pelo método que
passei a enxergar nelas e em outros episódios da vida partidária.
Não existe
partido marxista-leninista sem direção, disciplina e unidade de ação. Foi
justamente a possibilidade de combinar tudo isso com participação consciente da
militância e uma vida interna capaz de enfrentar suas próprias contradições que
me levou a apostar no PCBR. Foi também por acreditar nessa possibilidade que
permaneci enquanto ainda considerei possível disputar esses rumos internamente.
Cheguei a um
limite político, não posso sustentar uma militância comunista baseada numa
disciplina que, para mim, perdeu as condições políticas necessárias para ser
consciente. Sem essa combinação entre centralização e democracia interna, o
centralismo democrático se esvazia e abre caminho para aquilo que sempre
procurei combater: o burocratismo, a formação de seitas ou a adaptação à lógica
de uma máquina eleitoral.
Não cheguei a
esse desligamento diante da primeira divergência. Como apontei, durante
bastante tempo procurei compreender, disputar e reconstruir politicamente as
condições que ainda tornavam possível minha permanência no Partido. É
justamente porque fiz esse esforço que hoje reconheço o limite: não vejo mais
condições de sustentar essa militância nos termos em que acredito que ela deve
existir.
Diante disso,
solicito formalmente meu desligamento do Partido Comunista Brasileiro
Revolucionário — PCBR, bem como o encerramento das responsabilidades orgânicas
que exerço.
Rio de
Janeiro, 19 de setembro de 2026.

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