Independência de classe
não é isolamento:
sobre a decisão de não
apoiar Glauber Braga no Rio de Janeiro
Aurelio
Fernandes/ PCBR Capital Rio de Janeiro
Na nota em que
critiquei a decisão do Comitê Central de apoiar a candidatura presidencial do
PSTU, procurei deixar claro que minha divergência não dizia respeito à
necessidade de o PCBR preservar sua independência diante do governo Lula e da
Frente Ampla. Essa independência é indispensável e constitui uma das conquistas
políticas do XVII Congresso. Minha crítica estava no método: não considero
correto transformar a distância em relação ao lulismo numa medida quase
absoluta da coerência revolucionária de uma organização, deixando em segundo
plano divergências estratégicas e táticas importantes.
A decisão de não
apoiar Glauber Braga no Rio de Janeiro recoloca o mesmo problema, agora pelo
ângulo inverso.
A nota eleitoral
aprovada pelo Comitê Central em 30 de agosto estabelece que o PCBR não apoiará
nenhuma candidatura proporcional que faça campanha para Lula no primeiro turno.
Com isso, uma questão politicamente importante — a relação com o governo e com
a Frente Ampla — deixa de ser parte da análise e passa, na prática, a funcionar
como critério eliminatório. Minha divergência está exatamente aí.
Não considero que
o PCBR deva abrandar sua crítica à chamada Bancada da Esquerda Radical. Há
problemas programáticos e estratégicos sérios nesse campo. Seu manifesto reúne
reivindicações importantes, algumas coincidentes com lutas fundamentais da
classe trabalhadora: revogação do arcabouço fiscal e das contrarreformas, fim
da escala 6x1, reestatizações, tributação dos mais ricos, defesa dos serviços
públicos e enfrentamento à financeirização. Isso não pode ser desprezado.
O problema
aparece quando essas medidas se articulam a uma perspectiva de reconstrução da
capacidade do Estado, reindustrialização, soberania econômica e desenvolvimento
nacional sem uma ruptura clara com as relações capitalistas de propriedade. O
risco é substituir a estratégia socialista por um programa de reorganização do
capitalismo brasileiro em bases mais distributivas, reguladas e soberanas.
A crítica do PCBR
ao etapismo continua necessária. Desde a década de 1960, a Organização
Revolucionária Marxista: Política Operária já denunciava esse equívoco, então
hegemônico no PCB, ao apontar que não existe uma burguesia nacional
progressista esperando para cumprir conosco uma etapa de desenvolvimento
soberano. Crédito público, compras governamentais e política industrial podem
ampliar as forças produtivas, mas, subordinados à propriedade privada, também
podem significar transferência de recursos sociais para setores da própria
burguesia. Recuperar a capacidade de intervenção do Estado não elimina sua
natureza de classe. Reindustrializar, por si só, não responde à pergunta
decisiva: quem controla a produção e para qual classe ela é organizada?
Também não
considero secundária a relação da Bancada Radical com Lula. Apoiar
eleitoralmente um governo que manteve o arcabouço fiscal, as contrarreformas e
diferentes formas de privatização, enquanto se pretende construir uma
alternativa à sua esquerda, produz uma contradição política real. O PCBR tem
razão ao combatê-la. A independência da classe trabalhadora diante dos governos
de conciliação é um princípio estratégico estabelecido pelo XVII Congresso.
Nada disso,
porém, resolve automaticamente a questão de Glauber Braga.
Glauber não pode
ser dissolvido na posição do campo majoritário do PSOL. Sua trajetória precisa
entrar na análise. Defendeu que o PSOL não ocupasse ministérios e cargos no
governo Lula, criticou duramente a política econômica conduzida pelo Ministério
da Fazenda, denunciou o reboquismo de setores da esquerda em relação ao PT,
enfrentou as alianças com o Centrão e se colocou contra uma federação entre
PSOL e PT por considerar que ela aprofundaria a perda de independência política
do partido.
Isso não apaga
sua opção de apoiar Lula. Muito menos o transforma em comunista ou elimina
nossas divergências com a Bancada Radical. Mas torna insuficiente tratá-lo
simplesmente como mais um candidato submetido ao governismo.
Essa avaliação
também não parte apenas de suas posições públicas. Existe uma experiência de
atuação comum no Rio de Janeiro que precisa entrar no balanço. Já em 2025, na
Região Metropolitana, o PCBR e o deputado estiveram lado a lado em várias lutas
populares e classistas. Durante a greve da UERJ, Glauber foi chamado por nossos
camaradas para acompanhar o enfrentamento à repressão promovida pela reitoria e
pelo governo estadual e acabou preso ao lado de militantes do Partido. Depois,
estivemos também na linha de frente contra a tentativa de cassação de seu
mandato.
Essa experiência
produziu uma aproximação política real construída na luta. Foi nesse contexto
que Glauber procurou o PCBR para discutir as alternativas colocadas para sua
participação nas eleições de 2026, perguntando como avaliávamos uma eventual
candidatura ao governo do estado ou sua permanência na disputa para a Câmara
dos Deputados. Nossa resposta foi correta: por pertencermos a outra organização
política, não caberia ao PCBR interferir nas decisões internas do PSOL.
Quando afirmo que
uma candidatura precisa ser analisada pela posição que ocupa na luta de
classes, pela relação que estabelece com movimentos dos trabalhadores e pelo
papel que seu mandato desempenha nesses enfrentamentos, não estou falando de
uma hipótese abstrata. No caso de Glauber, houve experiência comum de luta,
enfrentamento à repressão e defesa de seu mandato em âmbito nacional diante de
uma ofensiva da direita. Isso não elimina nossas divergências, mas precisa
entrar em qualquer avaliação séria de sua candidatura.
Há também uma
história anterior à decisão de agosto que precisa ser recuperada. Desde julho
de 2025, a então UCL Metropolitana vinha chamando a atenção do Comitê Central
para a necessidade de discutir a intervenção do Partido nas eleições de 2026.
Durante meses, a orientação recebida foi esperar.
Quando a direção
nacional apresentou sua resolução eleitoral, em novembro, boa parte dessas
questões ainda não havia passado por um processo de discussão com as bases
regionais. Foi nesse contexto que, em 13 de dezembro de 2025, a UCL
Metropolitana convocou uma plenária eleitoral e convidou as demais regiões do
estado para debater a orientação encaminhada pelo CC e elaborar uma posição a
ser devolvida à direção nacional.
Essa plenária
aprovou por unanimidade o apoio orgânico à candidatura de Glauber Braga. No
mesmo debate, foi aprovada a tentativa de construção de uma filiação
democrática de um camarada ao PSOL para disputar uma vaga de deputado estadual,
levando em conta sua inserção na educação popular e no movimento de lutas da
classe na Baixada Fluminense e a avaliação feita pela própria base sobre as
condições políticas da região.
A direção
nacional não autorizou a construção dessa candidatura. Diante disso, em março,
a UCL encaminhou ao Comitê Central a proposta de apoio orgânico a Glauber Braga
e Clarice Chacon para a Câmara dos Deputados e a Alerj.
Esse processo
importa porque mostra que a posição construída no Rio não surgiu de improviso
nem de uma preferência pessoal por determinada candidatura. Houve discussão
regional, avaliação das alternativas existentes e tentativa de formular uma
política eleitoral ligada à realidade do estado.
A interlocução
com Glauber fazia parte desse processo e vinha sendo conduzida pela UCL
Metropolitana com autorização do Comitê Central. Quando o deputado solicitou
uma reunião formal em maio de 2026, comunicamos o CC e propusemos um encontro
no Rio de Janeiro, com representantes da direção regional e da direção
nacional.
O encaminhamento
mudou sem que participássemos dessa decisão. Pelo próprio Glauber soubemos que
a reunião havia sido remarcada para 15 de junho, em São Paulo, exclusivamente
com o Secretário-Geral do PCBR. Até o momento em que escrevo esta nota, os
organismos do Rio não receberam um balanço do conteúdo político discutido
naquele encontro.
Não se trata de
um detalhe administrativo. A relação com o mandato havia sido construída
localmente, a interlocução fora autorizada pelo CC e já existia uma posição
eleitoral aprovada pela base da região. Mesmo assim, uma etapa importante da
negociação foi retirada dos organismos que a conduziam, sem que depois lhes
fosse apresentado qualquer informe.
A questão voltou
à base em 23 de agosto de 2026, numa plenária eleitoral convocada pelo próprio
Comitê Central. O apoio a Glauber Braga e Clarice Chacon venceu por 20 votos a
4. A plenária aprovou também uma resolução de repúdio à forma excessivamente
centralizada pela qual as definições eleitorais nacionais vinham sendo tomadas.
Em duas ocasiões
diferentes, portanto, a posição favorável ao apoio a Glauber obteve maioria
clara no Rio de Janeiro: por unanimidade na plenária organizada pela UCL em
dezembro de 2025 com a presença de 50 militantes e por 20 votos a 4 na plenária
convocada pelo próprio CC em agosto de 2026.
Poucos dias
depois, já com a campanha em curso, o Comitê Central definiu que o Partido não
poderia apoiar Glauber. A vinculação eleitoral do deputado à candidatura de
Lula no primeiro turno tornou-se um dos elementos centrais dessa decisão.
O Comitê Central
tem responsabilidade de direção nacional e pode, inclusive, concluir de maneira
diferente da maioria presente numa plenária. Mas, nesse caso, precisa convencer
politicamente, responder aos argumentos levantados e explicar por que a orientação
nacional deve prevalecer. Durante mais de um ano, houve pedidos de discussão,
decisões regionais, negociações autorizadas, duas plenárias com resultados
claros e experiências comuns de luta com o deputado.
É aí que aparece
o problema. Não se trata de negar autoridade ao CC, mas de discutir como se
constrói a unidade. Quando a direção decide sem incorporar o debate produzido
pelos organismos envolvidos, informações importantes deixam de circular e
posições majoritárias são superadas sem um processo político de convencimento.
A centralização permanece, mas sua dimensão democrática se enfraquece.
O problema de
método se combina com o estreitamento da política aprovada no XVII Congresso.
As Resoluções não afirmam que a independência dos comunistas exige ausência de
compromissos com forças reformistas. Ao mesmo tempo que priorizam a unidade
entre forças anticapitalistas, admitem compromissos pontuais com forças
reformistas proletárias ou pequeno-burguesas, desde que não limitem a liberdade
de crítica nem a independência política do Partido. Cada aliança deve ser
justificada como manobra tática subordinada à perspectiva estratégica.
O apoio eleitoral
crítico deve ser discutido a partir desse quadro.
Esse critério não
pode ser a coincidência integral de programa. Se fosse assim, um partido
comunista só poderia apoiar seus próprios candidatos ou organizações que já
compartilhassem sua estratégia. Também não basta olhar a sigla partidária ou
transformar uma única posição eleitoral em critério absoluto. É preciso avaliar
se, numa situação determinada, o fortalecimento daquela candidatura favorece
posições da classe trabalhadora, cria melhores condições para suas lutas e
permite ao PCBR intervir sem sacrificar sua independência programática.
Isso exige
observar de que lado a candidatura se colocou nos principais enfrentamentos
políticos e sociais, sua ligação com greves e movimentos populares e o uso que
fez do mandato. Importa saber se combateu privatizações e o arcabouço fiscal,
defendeu direitos e fortaleceu mobilizações da classe trabalhadora.
A relação com o
governo importa, e muito, mas não pode ser analisada isoladamente. Há diferença
entre integrar organicamente um governo, ocupar seus cargos e defender sua
política econômica, e apoiar criticamente uma candidatura presidencial enquanto
se combate parte relevante da política desse mesmo governo. Para os comunistas,
ambas as posições são insuficientes diante da necessária independência
proletária. Mas não são politicamente idênticas.
A tática também
precisa considerar o campo eleitoral que existe de fato. Não se compara uma
candidatura real com um candidato comunista ideal que não está na disputa. Nas
condições do Rio de Janeiro, uma candidatura estrategicamente limitada pode
constituir uma trincheira importante contra a extrema direita, as
privatizações, o Centrão e os setores mais comprometidos com a conciliação de
classes. A questão é saber se o fortalecimento ou o enfraquecimento de Glauber
representa avanço ou retrocesso para as posições políticas e organizativas dos
trabalhadores.
O limite está na
subordinação política. Se o apoio exige abandonar críticas, silenciar
divergências, assumir o programa do candidato ou fazer campanha por Lula, ele é
incompatível com a independência comunista. Se é possível manter programa e
materiais próprios, declarar publicamente as divergências e utilizar a campanha
para disputar trabalhadores influenciados por aquele campo, a questão é outra.
No caso concreto,
as condições apresentadas por Glauber indicavam que essa autonomia poderia ser
preservada. Ele sinalizou liberdade para que o PCBR agitasse seu próprio
programa e suas candidaturas, a produção de material específico para nossa
intervenção, participação na coordenação das duas campanhas e disposição de
colaborar com o processo de legalização do Partido junto ao TSE. Essas
condições não eliminavam as divergências políticas, mas tornavam possível
discutir um apoio sem que o PCBR abandonasse sua identidade, seu programa ou
sua liberdade de crítica.
O apoio deveria
ser definido pela acumulação política que produz, e não apenas pela posição de
Glauber diante da candidatura Lula. É preciso avaliar se ele aproxima o Partido
de setores organizados da classe trabalhadora, amplia relações com categorias em
luta e abre espaço para apresentar o Programa Socialista, ou se transforma o
PCBR em força auxiliar de outro projeto. No caso do Rio de Janeiro, considero
que o mandato de Glauber fortalece lutas importantes e poderia ser apoiado sem
que o Partido renunciasse à sua independência programática.
Isso não
significa abandonar as críticas anteriores. Glauber deve ser criticado por
apoiar Lula no primeiro turno e pelos limites reformistas de sua política. A
Bancada Radical precisa ser confrontada quando articula a justa defesa da
reindustrialização, das empresas públicas e da soberania a uma perspectiva que
pode desembocar numa reorganização desenvolvimentista do capitalismo
brasileiro. E deve ser combatida qualquer ilusão de que transformar o Estado
burguês possa substituir a conquista do poder pelos trabalhadores.
Um apoio
eleitoral crítico não pressupõe que Glauber tenha uma estratégia correta para a
Revolução Brasileira. Evidentemente, não tem. Ainda assim, nas condições desta
eleição e da luta de classes no Rio de Janeiro, interessa aos trabalhadores
preservar e fortalecer seu mandato. Construir essa mediação tática não torna
nossa política menos revolucionária, desde que os comunistas mantenham
autonomia para disputar abertamente seus limites.
Um apoio crítico
a Glauber poderia, portanto, ter limites claros: voto e campanha por sua
reeleição como candidatura proporcional, sem campanha por Lula; materiais
próprios do PCBR; exposição pública das divergências com a Bancada Radical;
defesa do Programa Socialista; intervenção conjunta onde existam lutas comuns;
e plena liberdade para combater qualquer posição que subordine os trabalhadores
ao governo ou aos limites institucionais do capitalismo.
Há ainda uma
contradição difícil de ignorar. Poucos meses antes da decisão atual, a própria
crítica publicada pelo PCBR ao manifesto da Bancada Radical afirmava que alguns
de seus integrantes poderiam ser os melhores candidatos existentes em
determinados lugares e que o Partido poderia discutir seu apoio sem abandonar
as divergências programáticas e a independência política. Essa formulação
estava mais próxima do método do XVII Congresso do que a regra estabelecida
posteriormente, porque independência política não pode ser confundida com
isolamento.
A discussão sobre
Glauber retoma a crítica que fiz ao apoio presidencial ao PSTU. Naquela
ocasião, diferenças teóricas e táticas importantes foram relativizadas porque a
oposição do PSTU a Lula apareceu como elemento decisivo. Agora ocorre o
inverso: a atuação de Glauber nas lutas do Rio de Janeiro e suas divergências
com o governismo do PSOL perdem importância porque ele apoia Lula no primeiro
turno. Nos dois casos, essa relação recebe um peso desproporcional.
Defendo, por
isso, que o PCBR deveria ter apoiado criticamente Glauber Braga no Rio de
Janeiro. Não como adesão à Bancada Radical ou ao PSOL, mas como uma decisão
tática delimitada, com programa e materiais próprios, liberdade de crítica e
nenhuma obrigação de fazer campanha por Lula.
Isso não exige
esconder nossas diferenças. Continuo criticando o PSTU quando a necessária
demarcação diante do reformismo se converte em respostas esquerdistas incapazes
de construir mediações para disputar as massas. Também não abro mão de
enfrentar os limites da Bancada Radical quando reformas necessárias aparecem
articuladas a uma perspectiva que pode reorganizar o capitalismo brasileiro em
vez de apontar para sua superação. E critico o próprio PCBR quando a defesa
correta da independência diante do lulismo se transforma num critério rígido
que empobrece a análise política.
Não precisamos
escolher entre reboquismo e isolamento. Precisamos construir uma independência
revolucionária capaz de disputar a classe trabalhadora. Para isso que
precisamos de um Partido Comunista.
Rio de Janeiro, 16 de setembro
de 2026


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