Unidade revolucionária não se constrói por fato consumado: sobre o apoio do PCBR à candidatura do PSTU
Aurelio Fernandes/ PCBR Capital Rio de Janeiro
A decisão do
Comitê Central de apoiar e construir a candidatura presidencial de Hertz Dias,
do PSTU, precisa ser discutida em dois planos que, na prática, estão ligados.
Há uma questão política e programática: quais são, de fato, as convergências
entre PCBR e PSTU e qual o peso das divergências estratégicas que continuam
existindo entre as duas organizações? Mas há também uma questão de método, e
ela não é secundária. Uma decisão nacional dessa importância foi tomada pelo
Comitê Central sem que houvesse um processo real de debate nas bases e chegou
ao Partido praticamente como fato consumado, quando a campanha eleitoral já
estava em andamento.
A Nota Política
publicada em 8 de setembro afirma que, depois de uma “profunda análise
programática”, o Comitê Central concluiu que a candidatura do PSTU possui o
programa “mais coerente e próximo” do PCBR e oferece uma base mais sólida para
a unidade dos revolucionários. Uma conclusão desse peso exigiria uma discussão
partidária ampla. Não estamos falando de uma decisão administrativa ou de um
apoio local circunstancial. Trata-se da candidatura presidencial que o PCBR
decidiu construir nacionalmente e, mais do que isso, de uma orientação que a
própria Nota pretende levar “não apenas às eleições, mas a todos os espaços da
luta de classes”. Se essa decisão pretende ultrapassar o terreno eleitoral e
incidir sobre a construção da Frente Anticapitalista e Anti-Imperialista, suas
consequências políticas são muito maiores do que uma simples escolha de voto. É
justamente por isso que o modo como ela foi construída precisa ser discutido.
O Comitê Central
tem autoridade para dirigir o Partido entre os Congressos. O Estatuto, no
entanto, determina que essa direção deve se exercer “baseando-se rigorosamente
nas decisões do Congresso que o elegeu”. Centralismo democrático não significa
submeter toda decisão a uma espécie de plebiscito permanente das bases, mas
também não pode significar que a autoridade de direção substitua a elaboração
coletiva. A militância precisa conhecer as divergências, compreender seus
fundamentos e participar politicamente da construção da unidade.
As próprias
Resoluções do XVII Congresso são claras nesse ponto. O centralismo democrático
não pode ser reduzido à formalidade estatutária. Ele pressupõe uma “disciplina
revolucionária consciente”, construída pelo convencimento político e pela
formação dos militantes. O Congresso afirma ainda que o não questionamento de
tarefas definidas pelas instâncias superiores não é, por si só, sinal de
disciplina, assim como não é disciplina a recusa à crítica e à autocrítica. É
com base nessas definições, e não numa ideia abstrata de democracia interna,
que considero necessário analisar o processo de decisão sobre o apoio
presidencial ao PSTU.
A própria
cronologia ajuda a entender o problema. No dia 30 de agosto de 2026,
imediatamente após a realização do XXII Pleno do Comitê Central, foi enviado o
documento [XXII PLENO DO CC] DEFINIÇÃO DE APOIOS ELEITORAIS, comunicando as
decisões tomadas. Ao tomar conhecimento das definições, solicitei acesso às
atas do Pleno para compreender os argumentos que haviam levado o CC a uma
decisão política dessa importância. Essas atas só foram socializadas no dia 7
de setembro, às 22h13. Na manhã seguinte, 8 de setembro, a Nota Política já
estava publicada no site do Partido. Um dia depois veio o vídeo que formalizou
publicamente o apoio à candidatura presidencial do PSTU, com uma formulação que
projetava essa aproximação para além do próprio processo eleitoral.
A questão, então,
é bastante concreta. Onde esteve, nesse intervalo, o debate partidário capaz de
modificar a decisão? Em que momento as células, os Comitês Locais, as UCLs ou a
militância puderam conhecer as diferenças apresentadas no Pleno, confrontar os
argumentos, formular posições e fazê-las chegar novamente ao Comitê Central
antes que a política estivesse consolidada publicamente? As instâncias
inferiores receberam uma decisão já tomada, e as atas que permitiriam
compreender minimamente o debate chegaram quando a linha pública estava
praticamente pronta para ser lançada. Chamar isso de elaboração coletiva
seguida de centralização me parece difícil. O movimento foi outro: a
centralização veio antes do debate mais amplo.
O problema fica
ainda mais evidente quando se observa que o próprio Comitê Central só convocou,
na segunda quinzena de agosto de 2026, em plena campanha eleitoral, uma única
plenária por estado para “discutir, desenvolver perspectivas e construir a
unidade partidária” sobre a tática eleitoral. Mas a necessidade desse debate
não apareceu em agosto, muito menos de surpresa. A possibilidade de
candidaturas presidenciais no campo revolucionário era conhecida havia meses.
Também eram conhecidas as divergências em torno de Jones Manoel, PCB, UP, PSTU,
frente eleitoral, candidatura própria, apoio eleitoral e unidade da esquerda
revolucionária.
Na UCL
Metropolitana Rio — Leste, Baixada e Capital — houve, meses antes do início do
processo eleitoral, uma solicitação para que fosse realizada uma plenária
estadual dedicada justamente à questão eleitoral. Em vez de se aproveitar essa
possibilidade para antecipar a discussão, houve movimentação da direção no
sentido de impedir que a plenária se realizasse naquele momento. Mais tarde,
quando o calendário eleitoral já estava correndo, convocou-se uma única
plenária estadual.
A urgência,
portanto, não nasceu de uma situação imprevisível. Ela foi produzida pelo
próprio adiamento do debate. O calendário eleitoral, que poderia ter orientado
uma discussão antecipada, acabou funcionando como pressão para acelerar a
centralização. O debate foi retardado, a campanha começou, a plenária ocorreu
já sob a pressão do calendário, o CC deliberou em 30 de agosto e poucos dias
depois a posição havia se transformado em orientação pública nacional. Para a
base, o tempo deixou de ser principalmente um tempo de elaboração e passou a
ser um tempo de assimilação.
É por isso que
causa estranhamento a formulação da própria Nota Política quando afirma, ao
tratar dos apoios estaduais: “Conforme uma discussão de todo o Partido
referendada pelo Comitê Central...” Qual foi, concretamente, essa “discussão de
todo o Partido”? Se o principal espaço destinado ao debate eleitoral nos
estados só foi convocado na segunda quinzena de agosto; se uma tentativa
anterior de antecipar a discussão no Rio foi impedida; se o CC tomou sua
decisão em 30 de agosto; e se, em 8 de setembro, a posição já estava
publicamente consolidada, fica difícil sustentar que houve um processo nacional
de elaboração capaz de influenciar efetivamente aquela decisão.
Pode ter havido
informes, consultas e plenárias. Isso, por si só, não resolve a questão.
Informar a militância ou ouvi-la pontualmente em plenárias virtuais não é o
mesmo que construir politicamente uma decisão com o Partido. O ponto decisivo é
saber se as bases tiveram condições materiais e políticas de conhecer as
alternativas, debater as divergências e interferir na formação da linha antes
de sua centralização. Neste caso, considero que não.
Essa crítica,
para mim, já ultrapassa a decisão sobre o PSTU. Ao longo do tempo, deixou de
ser apenas uma discordância com o conteúdo desta ou daquela resolução e passou
a alcançar o método pelo qual certas decisões vêm sendo produzidas. Quando
posições importantes chegam aos organismos praticamente concluídas, quando os
prazos tornam impossível uma intervenção real e quando o debate ocorre depois
da centralização, instala-se uma política do fato consumado. As instâncias
continuam formalmente existindo e a possibilidade de crítica também permanece
formalmente aberta, mas a base participa cada vez menos da formação da
orientação e cada vez mais recebe uma orientação previamente definida.
Esse deslocamento
esvazia, pouco a pouco, o conteúdo do centralismo democrático. Sem debate,
circulação efetiva das divergências, crítica e autocrítica e participação
consciente da militância, o centralismo tende ao burocratismo. O contrário
também seria um problema: democracia interna sem direção, disciplina ou unidade
de ação levaria ao federalismo e ao liberalismo organizativo. A questão está
justamente na combinação entre direção centralizada e participação política
consciente das bases.
Foi
principalmente a possibilidade dessa combinação que me levou a acreditar no
projeto de reconstrução revolucionária. Quando ela se enfraquece, não estamos
mais diante de um simples problema de funcionamento interno. O problema passa a
ser político. E ganha ainda mais peso quando a decisão tomada entra em tensão
com aspectos importantes das próprias Resoluções do XVII Congresso.
O XVII Congresso
não coloca o PSTU no campo do reformismo. Pelo contrário, reconhece PSTU, PCB e
PCR/UP entre as organizações proletárias e revolucionárias. Mas as mesmas
Resoluções registram algo que praticamente desaparece da Nota: existem
profundas divergências políticas e ideológicas entre essas organizações. Ao
tratar da Frente Anticapitalista e Anti-Imperialista, o documento fala em
construir unidade de ação “naquilo que as une”, precisamente porque essas
divergências permanecem. Unidade de ação não exige identidade programática.
A Nota do Comitê
Central vai além disso quando afirma que o PSTU apresenta o programa “mais
coerente e próximo” do nosso. Para chegar a essa conclusão, destaca quatro
convergências: a função das eleições, a oposição ao governo Lula-Alckmin, a
análise das contradições capitalistas brasileiras e a identificação de setores
estratégicos do proletariado. O problema é que nenhuma comparação programática
séria pode se apoiar apenas no terreno em que há concordância, sobretudo quando
as divergências atingem questões de estratégia e concepção de mundo.
Cuba é um exemplo
evidente. O XVII Congresso caracteriza o país como o único Estado socialista da
América Latina, ainda que reconheça a existência de reformas de mercado em meio
às pressões impostas pela hegemonia capitalista mundial. As Resoluções defendem
explicitamente a soberania cubana, a oposição ao embargo estadunidense e a
defesa do processo revolucionário cubano. O PSTU, por sua vez, considera que
houve restauração capitalista em Cuba e sustenta a necessidade de uma nova
revolução socialista.
Isso não é uma
diferença lateral. Estamos falando do caráter de classe de um Estado surgido de
uma das principais revoluções do século XX. Se a conclusão é que existe grande
proximidade programática entre as duas organizações, seria necessário ao menos
explicar qual peso foi atribuído a uma divergência dessa natureza.
O mesmo problema
aparece na questão do imperialismo. O XVII Congresso busca recuperar a
compreensão leninista do imperialismo como estágio do capitalismo monopolista e
trabalha com a ideia de uma cadeia imperialista desigual, na qual podem existir
posições intermediárias. A partir daí, constrói determinadas caracterizações
sobre China, Rússia, BRICS e sobre o próprio capitalismo brasileiro. O PSTU
parte de outra tradição teórica, trabalha fortemente com as categorias de
países imperialistas e semicoloniais e chegou a posições diferentes sobre a
Rússia e sobre a guerra da Ucrânia, inclusive defendendo o envio de armas pela
OTAN e pelo Brasil ao governo Zelensky.
Reconhecer essas
diferenças não significa transformar qualquer divergência numa barreira para a
ação comum. Uma organização pode ser revolucionária e, ainda assim, sustentar
concepções estratégicas que consideramos equivocadas. É precisamente por isso
que existe luta ideológica entre revolucionários. As próprias Resoluções do
XVII Congresso, por exemplo, mencionam expressamente os “desvios esquerdistas”
cometidos pelo PSTU durante o processo do impeachment de Dilma Rousseff. A
crítica feita naquele momento não significava apoio ao governo Dilma. O
problema estava em transformar uma correta independência política diante do
petismo numa incapacidade de distinguir movimentos concretos da luta de
classes.
Por isso me chama
atenção que a Nota atual transforme a “firmeza na oposição a todos os governos
burgueses” numa das principais justificativas para o apoio ao PSTU sem dialogar
com essa experiência anterior. A questão continua válida: em que momento a independência
de classe produz uma correta demarcação revolucionária e em que momento pode
deslizar para uma equidistância que perde de vista mudanças reais na correlação
de forças? Dizer que o PSTU é mais firme não basta. É preciso saber se a
política defendida por ele é correta.
Há ainda um ponto
que precisa ser esclarecido. As Resoluções determinaram ao Comitê Central o
desenvolvimento de um estudo científico detalhado das principais organizações
políticas e movimentos populares brasileiros, seus programas, estratégias e
táticas. Esse estudo deveria servir de fundamento para a política de alianças e
para a construção da Frente Anticapitalista e Anti-Imperialista. A Nota diz que
houve uma “profunda análise programática”. Se essa análise foi feita, considero
necessário que o Partido a conheça.
Seria importante
saber quais documentos do PSTU foram analisados, qual foi o balanço realizado
sobre Revolução Permanente e Estratégia Socialista, de que forma foram
avaliados o Programa de Transição, a caracterização de Cuba, o balanço da União
Soviética, a categoria de stalinismo, a análise sobre Rússia e China, a
concepção de imperialismo e os próprios erros do PSTU apontados pelo XVII
Congresso. Também seria necessário explicar quais dessas divergências passaram
a ser consideradas secundárias, quais permanecem estratégicas e,
principalmente, o que mudou no PSTU ou na avaliação feita pelo PCBR para que
sua candidatura deixe de ser apenas passível de um apoio tático e passe a ser
apresentada como expressão do programa mais próximo ao nosso e de uma unidade
que deve avançar na luta de classes. Nada disso aparece na Nota.
É exatamente aqui
que considero necessária uma distinção. Não vejo o simples apoio eleitoral à
candidatura de Hertz Dias como algo necessariamente contraditório com as
Resoluções do XVII Congresso. As próprias Resoluções admitem unidades de ação
entre organizações revolucionárias distintas. Seria perfeitamente possível
sustentar que PCBR e PSTU mantêm divergências estratégicas profundas, mas que,
diante da situação concreta das eleições de 2026, uma unidade eleitoral
limitada contra a frente ampla e em defesa da independência política do
proletariado seria considerada correta. Poderíamos discordar dessa decisão, mas
a discussão estaria colocada em termos mais claros.
Não foi isso,
porém, que aconteceu. A Nota afirma proximidade programática com o PSTU, ao
mesmo tempo em que aponta divergências táticas e estratégicas profundas com os
programas do PCB e o PCR/UP, e termina projetando a unidade de ação com o PSTU
para a luta de classes além das eleições se distanciando do PCB e o PCR/UP. O
problema não está, portanto, em admitir uma unidade eleitoral. Está em
transformar essa unidade em expressão de uma proximidade programática que a
própria trajetória recente e as Resoluções do Congresso exigiriam demonstrar
com muito mais rigor.
A isso se soma o
modo como a decisão foi produzida. Uma orientação politicamente controversa,
com implicações para além da eleição, foi centralizada sem que a militância
tivesse espaço real para discutir previamente o significado dessa aproximação.
É difícil conciliar esse processo com a ideia de disciplina consciente
defendida pelo próprio XVII Congresso.
Reconhecer Hertz
Dias e o PSTU como parte do campo revolucionário, construir ações comuns ou
mesmo considerar, em determinada conjuntura, um apoio eleitoral tático não
elimina o problema colocado aqui. O que está em discussão é como a linha
política do Partido vem sendo formada e que tipo de relação queremos
estabelecer entre direção e militância.
Se decisões
importantes passam a ser produzidas essencialmente pelo Comitê Central e só
depois apresentadas às bases para convencimento; se a circulação prévia das
divergências vai se tornando excepcional; se as plenárias são convocadas quando
as decisões já estão próximas de ser centralizadas; e se iniciativas de debate
antecipado são bloqueadas para, mais tarde, a falta de tempo servir como
justificativa para decisões aceleradas, o centralismo democrático começa a
perder justamente aquilo que o distingue do centralismo burocrático.
Uma direção
comunista não existe apenas para tomar decisões que considera corretas. Também
precisa elevar politicamente o conjunto do Partido, organizar a luta
ideológica, permitir que as divergências circulem e construir uma unidade
consciente, formada pelo próprio confronto político. É nesse sentido que vejo o
apoio ao PSTU como expressão de dois problemas que, neste caso, acabaram se
combinando: uma justificativa programática que deixa de lado diferenças
estratégicas importantes para sustentar uma proximidade baseada em algumas
convergências e um processo de decisão que reduziu drasticamente a
possibilidade de intervenção efetiva da base antes de sua consolidação pública.
Por isso, a
discussão não pode terminar simplesmente na pergunta sobre apoiar ou não Hertz
Dias. O problema mais fundo é entender como uma decisão dessa dimensão,
envolvendo uma candidatura presidencial e uma aproximação política que o
próprio Comitê Central projeta para além das eleições, pôde ser tomada sem um
debate nacional prévio, amplo e efetivo da militância.
Enquanto isso não
for esclarecido, a questão continuará sendo maior do que o apoio à candidatura
do PSTU. Ela diz respeito ao tipo de partido que estamos construindo e ao
sentido concreto que queremos dar ao centralismo democrático dentro do PCBR.
Rio de
Janeiro, 14 de setembro de 2026


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