Nascem as Brigadas Populares: um movimento nacional no rumo do socialismo

Por Elaine Tavares – jornalista
07.10.2011 - Ela tinha menos de 20 anos quando saiu de Blumenau para fazer a faculdade na capital, assim como milhares de outros jovens saem do interior em busca de conhecimento e profissão. “Eu não cabia ali, mas não sabia por que”. Da vida conhecia pouco e das lutas das gentes menos ainda. Em Blumenau quase não se vê a pobreza, que fica escondida nos morros e na periferia. Mas, na faculdade, o véu foi se descortinando. Uma viagem para o Rio de Janeiro expôs as feridas abertas de uma nação capitalista dependente e a cabeça de Daniela Mayorca nunca mais seria a mesma. Dali para a luta estudantil foi um pulo. Uma nova viagem foi a pá de cal em qualquer possibilidade de ficar apática, ou restrita a pequenas batalhas. Argentina, Bolívia, Peru, Venezuela. O pé na vida real de um espaço esquecido. A caminhada com as gentes em luta, em processo de profunda transformação. Essa América baixa, profunda, cheia de feridas e repleta de possibilidades de revolução. “Descobri um mundo que tem cheiro, cor, lágrimas, esperança, luta. Foi um choque, mas um choque bom”.
De volta para a universidade Daniela mergulhou na organização estudantil, preferindo atuar no Coletivo 21 de junho, uma proposta diferente das velhas tendências sempre ligadas a partidos políticos, nascida na metade do ano de 2007, inspirada na luta dos estudantes que fizeram a histórica Reforma de Córdoba. O coletivo se organizava desde uma perspectiva teórica anti-colonialista, anti-eurocêntrica, baseada no pensamento próprio, latino-americano. Atuava e atua para além dos eventos e lutas internas, com a mirada sempre na transformação social. Nesse agrupamento foi possível fazer uma profunda reflexão da universidade, travar lutas singulares, garantir conquistas. Ali, Daniela pode compartilhar a batalha por uma universidade que fosse transformadora, mas também aprendeu que mudar só esse espaço não seria suficiente. “Sabíamos que era necessário um movimento de base, de massa”.
Depois de três anos da direção do DCE, o Coletivo 21, que já abrigava dezenas de jovens como Daniela, decidiu que era hora de ampliar os caminhos da mudança. Sozinho, é difícil mudar um mundo. E a realidade mostrava que, pelas veredas profundas do Brasil, também outras pessoas se movimentavam numa outra proposta de organização da vida, com pressupostos muito parecidos, de caráter nacional, popular e socialista. No Rio de Janeiro vicejava o grupo Movimento Revolucionário Nacionalista (Morena), pensando o mundo desde Ruy Marini, Darcy Ribeiro, Brizola. Juntava gente que entendia ser necessário mudar a cara do Brasil. Em Minas Gerais, na capital (Brigadas Populares) e nas montanhas das cidades históricas (Coletivo Autocrítica, de São João del Rei) também pululavam ações urbanas que tinham como horizonte a mudança geral. Essas concepções práticas e teóricas foram se conhecendo, dialogando, encontrando afinidades.
Durante um ano inteiro esses grupos se namoraram, conversando, debatendo, sonhando juntos. Até que em setembro deste ano resolveram se encontrar num campo neutro: São Paulo. Para lá partiram os representantes dos coletivos buscando estabelecer uma proposta de projeto histórico e uma linha conjunta de luta organizada. Daniela Mayorca estava lá, representando o Coletivo 21, da UFSC. “Foi um encontro muito rico, cada um ensinou e aprendeu. Havia um clima de companheirismo e curiosidade. As divergências só chamavam mais discussão e não disputas. A proposta é garantir a unidade em questões maiores, de interesse nacional”.
O encontro de setembro resultou numa unidade real. Os então coletivos se diluíram numa única organização, as Brigadas Populares, com um propósito ousado: construir uma pátria soberana e socialista. “Os fundamentos da nova organização são o socialismo, o nacionalismo revolucionário e a organização de uma nova maioria”. Conforme o manifesto lançado logo depois da fusão, o socialismo é a superação da irracionalidade capitalista que se apresenta como a aspiração mais elevada das gentes no seu processo de emancipação. O nacionalismo revolucionário busca a soberania e autodeterminação popular desde as raízes brasileiras, mas sem negar o internacionalismo. E a formação de uma nova maioria pressupõe como estratégia a revolução brasileira, constituindo um campo de forças sociais capaz de buscar a hegemonia em todas as dimensões da vida social.
Os coletivos que se encontraram em São Paulo assumiram como prioridade superar essa divisão que caracteriza hoje o campo popular no Brasil, provocada pela crise teórica, política e organizativa das últimas décadas. Assim, a proposta é de construir uma unidade aberta, ou seja, mesmo na diferença acumular força coletiva rumo ao socialismo. O objetivo é caminhar para a construção de uma força política forte, de natureza antiimperialista e antimonopolista que defenda um programa de libertação. Assim, a primeira tarefa é recompor esse tecido roto dos setores revolucionários da esquerda e a segunda é articular uma Frente Política unificada num programa mínimo e de materialização imediata. “A gente sabe que essa unidade não significa que é tudo igual, todo mundo pensando a mesma coisa. Temos diferenças, mas temos também maturidade para saber que só articulados podemos caminhar para a libertação”, analisa Daniela.
A nova organização nacional procura também dispor das diversas formas de atuação que cada um dos coletivos já desenvolvia. A ação junto aos estudantes, a luta nos movimentos urbanos, a discussão teórica, a ação político/popular. A idéia é formar uma militância revolucionária, capaz de compreender dialética e historicamente a realidade. Teoria e ação, tudo junto. Gente que possa ocupar os espaços da luta política real, nos movimentos sociais de toda ordem, mas sem a lógica do aparelhamento, tão nociva. Exemplos concretos dessa prática ousada e de massa que já estão em movimento é a luta pela manutenção das famílias na Ocupação Dandara, em Belo Horizonte, a batalha por mandatos revogáveis na UFSJ, em São João Del Rei, a organização dos sem teto e a casa Bolivariana, no Rio de Janeiro, e a ação entre os estudantes da UFSC, do Coletivo 21 de junho, em Santa Catarina.
As Brigadas Populares nascem assim, sem muito ruído, mas com um arcabouço teórico forte, com pilares seguros, com objetivos claros e factíveis. Seu manifesto de nascimento é intenso: “A revolução brasileira não é um dissídio coletivo entre trabalhadores e patrões. É a constituição de uma maioria política nas qual os trabalhadores se estabelecem como a força dirigente. A revolução não é um ato, um golpe, uma queda do governo, mas um conjunto de eventos históricos que reorganizam a sociedade em favor da classe trabalhadora, construindo uma nova visão de mundo”.
Essa proposta, constituída coletivamente pelos agrupamentos que se unificaram nas Brigadas Populares, é o que move hoje a vida de Daniela e tantos outros jovens nesse imenso Brasil. Divididos em Frentes (Popular, Juventude, Mulheres e Solidariedade Internacional) e Missões (Formação, Comunicação, Finanças, Tarefas), eles tem um longo caminho a cumprir para entranhar na cabeça e no coração de cada vivente deste país a proposta bonita do mundo socialista. Um mundo no qual os trabalhadores sejam protagonistas, onde as vozes populares sejam as que mandam. Um mundo de riquezas repartidas e de vida boa para todos. Um mundo onde se possa realmente bem-viver. Não é tarefa simples, a considerar a pedagogia da sedução capitalista levada a cabo pela escola, pelos meios de comunicação. Mas, ninguém das Brigadas Populares acredita que fazer revolução seja coisa fácil. O fato é que a idéia já está caminhando, invadindo as veredas do campo e da cidade. As pessoas estão trabalhando e a libertação está ali adiante. As Brigadas são uma lufada de vento fresco, vento forte, disposto a varrer o capitalismo. De Santa Catarina, de Minas Gerais, do Rio de Janeiro, de São Paulo, de vários espaços está brotando essa nova realidade. Bem vinda!...

MANIFESTO DAS NOVAS BRIGADAS POPULARES

Unidade aberta por uma nova maioria política e social para o Brasil. Este é o eixo estratégico que motiva e conduz a constituição de uma organização de caráter nacional, popular e socialista a partir das Brigadas Populares, Coletivo Autocrítica, Coletivo 21 de Junho (C21J) e do Movimento Revolucionário Nacionalista – círculos bolivarianos (MORENA – cb) em uma única organização para contribuir com a edificação de uma pátria soberana e socialista. Em seu sentido amplo significa recolher de forma critica e inovadora as tradições de luta e experiências históricas de larga duração dos setores nacionalistas revolucionários, comunistas e socialistas da esquerda brasileira.

As novas Brigadas Populares surgem para contribuir com a recomposição de uma alternativa popular de enfrentamento ao capitalismo dependente e associado e ao Estado capitalista vigente no país.

Estabelecemos como fundamentos das novas Brigadas Populares as seguintes bases teóricas e orientações estratégicas:



I) SOCIALISMO
O socialismo é a proposta de superação da irracionalidade capitalista e seus desdobramentos perversos sobre a condição de vida da classe trabalhadora e do futuro da humanidade. Apresenta-se como a aspiração mais elevada das massas populares em seu processo de emancipação. O socialismo no Brasil, portanto, não se confunde com modelos ou regras preestabelecidas, com arranjos teóricos abstratos, deslocados e alheios às experiências históricas da classe trabalhadora em cada país; mas se coloca enquanto produto da ampliação da soberania popular. Resultado das aspirações das maiorias em mediação com a realidade e com as possibilidades de cada tempo histórico. A originalidade e singularidade necessárias à emancipação social são requisitos fundamentais de toda revolução. Implica assim, na construção criativa e realista de uma nova forma de poder. Rompendo com doutrinarismos teóricos e subjetivismos analíticos que poluem o entendimento e a ação política.

O Brasil Socialista será obra do povo brasileiro em sintonia com o movimento internacional dos trabalhadores e trabalhadoras. Não será repetição ou cópia de experiências de outras formações sociais e de outros tempos, possui um registro próprio e em sintonia com os contornos contemporâneos.

A Revolução brasileira é o encontro da questão social, nacional e democrática. Uma vez que a conquista da soberania somente será plena se imbricada ao processo de modificação do padrão civilizatório vigente, fornecendo respostas às necessidades e aspirações populares. Tais transformações requerem a ampliação permanente dos mecanismos de intervenção democrática, incorporando as maiorias sociais à vida pública.

II) NACIONALISMO REVOLUCIONÁRIO

O povo brasileiro é uma coletividade humana singular e aberta. Nossa formação social e cultural sempre esteve conectada aos movimentos e transformações globais com sua identidade própria. Não como negação das demais nacionalidades, mas como afirmação do que somos, e, sobretudo, do que podemos ser.

Reivindicamos a Nação Brasileira e defendemos seu sentido sob a perspectiva revolucionária. Estamos em oposição ao nacionalismo burguês, que se utiliza de um discurso patriótico em favor de seus interesses econômicos, reforçando a tradição oligárquica do atual arranjo de dominação; e ao conto liberal que afirma que o mercado é o melhor eixo articulador da sociedade, sendo que este despreza qualquer iniciativa de autodeterminação dos povos.

Para nós a pátria, na sua dimensão mais profunda, é a afirmação da soberania popular e da autodeterminação. Cabe a nós, povo brasileiro, a responsabilidade de construir nosso destino de forma autônoma, sem tutela nem imposição de forças estranhas aos nossos interesses.

A autodeterminação não é a negação do internacionalismo, mas o requisito para a materialização de uma real solidariedade e união dos povos. O nacionalismo revolucionário não faz concessões ao chauvinismo pequeno burguês, nem ao internacionalismo abstrato; se coloca como ferramenta de emancipação do povo.

III) POR UMA NOVA MAIORIA
Definimos como estratégia da Revolução Brasileira a constituição de uma Nova Maioria em nosso país. Isso significa estabelecer um campo de forças sociais capazes de iniciativa na luta política que busque pela hegemonia em todas as dimensões da vida social.

Nós, revolucionários brasileiros, temos como missão a constituição de um poder de dissuasão próprio e o rompimento do cerco imposto pelas forças conservadoras e liberais. Para tanto, é necessário ampliar o diálogo com os demais setores de esquerda e disputar programaticamente o campo popular, a intelectualidade e a juventude.

A política revolucionária, com a qual nos comprometemos, deve ser arejada em suas formulações, flexível em suas táticas e conseqüente em seus objetivos; superando os modelos abstratos, subjetivistas e sectários que propõem alternativas fora do horizonte das grandes maiorias. Nossa política dialoga com o presente, apresenta medidas concretas para o momento atual e abre caminho para tarefas futuras. Igualmente, é fundamental que as grandes massas e os setores avançados da sociedade tenham em nós uma referência teórica, política e prática de natureza realista, sensata e convicta. Portanto, nossa ortodoxia reside no método, expressando nossa capacidade de, a partir da interação com as massas, encontrar soluções objetivas, contundentes e profundamente reais.

IV) UNIDADE ABERTA E AS DUAS TAREFAS ESTRATÉGICAS

A alternativa está na unidade. É urgente a superação da fragmentação do campo popular e de esquerda em nosso país, resultado da crise teórica, política e organizativa que se abateu sob os revolucionários nas últimas décadas. Nesta perspectiva urge a recomposição da perspectiva de unidade aberta, ou seja, a convergência constante e em diferentes níveis em torno de plataformas que acumulem força rumo ao socialismo.

Aos revolucionários cabem duas tarefas estratégicas e simultâneas: a construção de uma organização política própria, portadora de uma proposta de superação do capitalismo e de uma frente política ampla, de natureza anti-imperialista, antilatifundiária e antimonopolista que se articule em torno de um programa de libertação nacional.

A primeira tarefa estratégica objetiva recompor a capacidade orgânica dos setores revolucionários da esquerda brasileira, restabelecendo sua iniciativa na dinâmica da luta de classes e da disputa pelo poder no âmbito nacional. Implica, todavia, em produzir o entendimento contínuo das diversas agremiações socialistas nacionais, regionais e setoriais, que pelo isolamento político ou geográfico tem sua ação extremamente limitada. Entendimento este que aponte pra necessidade de um instrumento político de âmbito nacional e de natureza socialista, no qual a constituição das novas Brigadas Populares é uma contribuição neste caminho.
A direção revolucionária é fundamentalmente política, produto da constituição de um pensamento capaz de tornar-se a referência e alternativa de superação às limitações da ordem vigente. Sendo assim, estão superadas as noções vanguardistas de atuação, produtos do subjetivismo e do voluntarismo teórico e prático. A vanguarda necessária não é aquela que se distancia do conjunto social por meio de propostas que só fazem sentido aos “esclarecidos” e arrogantes “donos da verdade”; de outro modo, é aquela que trabalha de maneira mais eficaz as possibilidades e contradições do momento presente, disputando a preferência e a referência das massas e reafirmando sua autoridade política diante das demais organizações.

No tocante a segunda tarefa estratégica, a constituição da Frente Política é expressão de uma unidade em outro nível programático, no âmbito de um programa mínimo e de materialização imediata. Não se confunde, no entanto, com coligações conjunturais ou eleitorais, e sim com a constituição de um campo de forças capaz de expressar-se como uma Nova Maioria política. Este é o espaço das organizações revolucionárias em unidade com setores que tenham comum acordo com uma plataforma de libertação nacional.

Unidade, no entanto, não se confunde com identidade. É essencialmente uma relação entre diferentes. A maturidade política associada e a uma leitura realista da situação atual da luta de classes fecunda e motiva as possibilidades de congregação de diferentes tradições políticas em um único campo de forças, amplo em sua diversidade e coeso em seus objetivos principais.

Sendo assim, a unidade é uma exigência da Revolução Brasileira, o caminho pelo qual a organização revolucionária se afirmará como hegemonia e como parte de uma Nova Maioria política. Unidade em ampliação constante, sem isolamentos programáticos ou “essencialismos” de quaisquer tipos.


V) MILITANTE, POPULAR E DE MASSAS

Entendemos que a forma de organização deve sempre atender às necessidades da luta de classes. Não se confundindo com princípios, deve ser constantemente avaliada e atualizada com o intuito de melhor responder as demandas de cada contexto histórico e político.

A flexibilidade da organização revolucionária em seus métodos de funcionamento está fundamentada no caráter histórico e dinâmico que assumem as formações sociais e seus desdobramentos sobre a vida cotidiana e as formas de manifestação do poder do Bloco Dominante. Portanto, a pretensão primeira dos revolucionários não é criar a organização perfeita, mas a organização necessária para determinado contexto.

Para tanto, estabelecemos como diretrizes da forma organizativa dos revolucionários para o momento atual seu caráter militante, popular e de massas.

Nosso objetivo é formar uma militância revolucionária caracterizada por sua disciplina consciente, compromisso, capacidade de iniciativa e compreensão da análise materialista, dialética e histórica da realidade. No entanto, estas características são metas constantes do programa de formação da organização e não requisitos para a incorporação de membros. A atividade orgânica possui também sua dimensão pedagógica que deve ser orientada pela inclusão de todos aqueles que possuem acordo com a disciplina interna e com a plataforma política.

O caráter de massas da organização revolucionária é a qualidade necessária para atuar de maneira eficaz no atual momento histórico. As condições de complexidade da disputa política, associadas à exigência de uma atuação ampla em diversos setores e dimensões da vida social conduzem os revolucionários a assumirem uma organicidade massiva, não necessariamente composta por quadros, mas por militantes de diferentes níveis de compromisso e consciência, que dentro das limitações e contradições existentes contribuem para o acúmulo de forças na disputa de hegemonia.

O caráter popular da organização decorre da análise do sujeito da revolução brasileira. Um sujeito em construção, síntese de duas condições específicas: as condições de trabalhador e de povo. Nossa linha de massas parte da percepção de que não é possível separar a classe trabalhadora da sua condição de povo na disputa política. A diferença entre classe e povo se dá em uma dimensão analítica específica, dentro de um exercício de abstração que privilegia as categorias teóricas e informa a composição e a organização da sociedade capitalista em geral. No entanto, nos níveis mais concretos de análise, considerando as formações sociais, o povo e a classe estão imbricados e importam para a construção da estratégia revolucionária, sendo um erro político separar o trabalhador da sua condição de povo. O sujeito da revolução brasileira está nas fábricas, no campo, nas periferias dos grandes centros, nos presídios e ruas. Tomá-lo em toda sua complexidade é uma necessidade irrenunciável daqueles que procuram se estabelecer como alternativa à dominação capitalista.

Nosso estilo de trabalho, portanto, assume a referência na dimensão política pela soberania nacional e pela superação do capitalismo. No entanto, não descuida das condições de vida das massas, da situação cotidiana da reprodução da existência do povo trabalhador. A interação entre lutas econômicas e políticas é parte do método de acúmulo de força dos revolucionários, compreendendo o registro específico de cada dimensão da disputa, sem se confundir com o “economicismo” e o “vanguardismo”.

Nossa forma de inserção política tem como premissa o não aparelhamento dos movimentos sociais, estudantis, sindicais, etc. Compreendemos que a prática aparelhista efetuada por organizações de intenções revolucionárias tem gerado um ciclo vicioso que envolve a degeneração dos movimentos e a extinção de qualquer possibilidade revolucionária por parte destas organizações. Lutaremos pela radicalização da democracia! Este desafio está focado na superação da lógica liberal que tem prevalecido nos movimentos por meio da reorganização destes numa forma em que o dinheiro não esteja no centro da luta política e em que haja a redução drástica da diferença entre representantes e representados. Construir uma democracia mais avançada pressupõe uma nova pedagogia política que tenha como ponto de partida as necessidades da maioria e que garanta o espaço desta pro exercício de seu protagonismo político.

VI - CONCLUSÃO
A Revolução Brasileira não se trata do dissídio coletivo entre trabalhadores e patrões. É a constituição de uma maioria política na qual os trabalhadores se estabelecem como força dirigente. Ou seja, a espinha dorsal de um novo bloco hegemônico. Neste sentido, é um processo que enfrenta o problema da alteração do regime político em favor de uma democracia real e acumula forças para a superação do padrão “civilizatório” do capital, rumo ao socialismo.

Enfatizamos o caráter processual da transformação revolucionária, distanciando-nos das visões de tomada do poder via insurreição, em sentido restrito. A revolução não é um ato, um golpe, uma queda de governo, mais um conjunto de eventos históricos que reorganizam a sociedade em favor da classe trabalhadora, elevando o seu estatuto, construindo uma nova visão de mundo e a forma de produção da existência de uma determinada coletividade humana.

São Paulo, 18 de setembro de 2011

Estende-se o domínio da manipulação: O que se passa na Síria?

por Domenico Losurdo

No momento em que centenas de sírios, civis e militares, acabam de tombar sob os tiros de franco atiradores financiados pelos saidiris e enquadrados pela CIA, a mídia ocidentail acusam o governo de Bachar el-Assad de disparar sobre a sua população e sobre as suas próprias forças policiais. Esta campanha de desinformação visa justificar uma possível intervenção militar ocidental. O filósofo Domenico Losurdo recorda que o método não é novo. Simplesmente, os novos meios de comunicação tornaram-no mais refinado. Doravante, a mentira não é veiculada apenas pela imprensa escrita e audiovisual, ela passa também pelo Facebook e o YouTube.

Desde há alguns dias, grupos misteriosos atiram sobre os manifestantes e, sobretudo, sobre os participantes nos funerais que se seguiram aos acontecimentos sangrentos. Quem compõe estes grupos? As autoridades sírias sustentam que se trata de provocadores, ligados essencialmente aos serviços secretos estrangeiros. No Ocidente, em contrapartida, mesmo à esquerda endossa-se sem qualquer dúvida a tese proclamada em primeiro lugar pela Casa Branca: aqueles que atiram são sempre e apenas agentes sírios vestidos à civil. Obama será a voz da verdade? A agência síria Sana relata a descoberta de "garrafas de plástico cheias de sangue" utilizado para produzir "vídeos amadores falsificados" de mortos e feridos junto aos manifestantes. Como ler esta informação, que retomo do artigo de L. Trombetta em La Stampa de 24 de Abril? Talvez as páginas que se seguem, tiradas de um ensaio que será publicado em breve, contribuam para lançar alguma luz em cima disso. Se alguém se mostrar espantado ou mesmo incrédulo com a leitura do conteúdo do meu texto, que não se esqueça de que as fontes que utilizo são quase exclusivamente "burguesas" (ocidentais e pró ocidentais). (Ver também adenda no fim do texto, NT).

"Amor e verdade"
Nestes últimos tempos, com as intervenções sobretudo da secretária de Estado Hillary Clinton, a administração Obama não perde uma ocasião de celebrar a Internet, o Facebook, o Twitter como instrumentos de difusão da verdade e de promoção, indiretamente, da paz. Quantias consideráveis foram atribuídas por Washington à potencialização destes instrumentos e para torná-los invulneráveis à censura e ataques dos "tiranos". Na realidade, para os novos media e para os mais tradicionais, a mesma regra se aplica: eles também podem ser instrumentos de manipulação e de incitamento do ódio e mesmo da guerra. O rádio foi sabiamente assim utilizado por Goebbels e pelo regime nazi.

Durante a Guerra Fria, mais do que um instrumento de propaganda, as transmissões de rádio constituíram uma arma para as duas partes empenhadas no conflito: a construção de " Psychological Warfare Workshop" eficaz é um dos primeiros deveres assinalados à CIA. O recurso à manipulação desempenha um papel essencial também no fim da Guerra Fria. Entretanto, ao lado da rádio, interveio a televisão. Em 17 de Novembro de 1989, a "revolução de veludo" triunfa em Praga, com uma palavra de ordem que se pretendia gandiana: "Amor e verdade". Na realidade desempenhou um papel decisivo a difusão da fala notícia segundo a qual um estudante fora "morto brutalmente" pela polícia. É o que revela, satisfeito, vinte anos depois, "um jornalista e líder da dissidência", Jan Urban", protagonista da manipulação: a sua "mentira" teve o mérito de despertar a indignação em massa e o afundamento de um regime já periclitante.

No fim de 1989, apesar de fortemente desacreditado, Nicolae Ceausescu ainda está no poder na Romênia. Como derrubá-lo? Os mass media ocidentais difundem maciçamente junto à população romena as informações e as imagens do "genocídio" perpetrado em Timisoara pela polícia de Ceausescu. O que se passou na realidade? Deixemos a palavra com um prestigioso filósofo (Giorgio Agamben), que nem sempre demonstra vigilância crítica em relação à ideologia dominante, mas que sintetizou aqui de modo magistral o caso que tratamos:
"Pela primeira vez na história da humanidade, cadáveres acabados de enterrar ou alinhados nas mesas das morgues foram desenterrados às pressas e torturados para simular diante das câmaras o genocídio que devia legitimar o novo regime. O que o mundo inteiro tinha diante dos olhos em direto como verdade nos écrans de televisão, era a absoluta não verdade. E apesar de a falsificação ser por vezes evidente, ela era autenticada de todos os modos como verdadeira pelo sistema mundial dos media, para que ficasse claro que o verdadeiro doravante não era senão um momento do movimento necessário do falso".

Dez anos depois, a técnica acima descrita é aplicada novamente, com um êxito renovado. Uma campanha martela o horror de que se tornou responsável o país (a Jugoslávia) cujo desmembramento foi programado e contra o qual já se está em vias de preparar a guerra humanitária:
"O massacre de Racak é atroz, com mutilações e cabeça cortadas. É um cenário ideal para despertar a indignação da opinião pública internacional. Alguma coisa parece estranha na matança. Os sérvios matam habitualmente sem efectuar mutilações [...] Como mostra a guerra da Bósnia, as denúncias de atrocidades nos corpos, sinais de tortura, decapitações, são uma arma de propaganda difusa [...] Talvez não tenham sido os sérvios mas sim os guerrilheiros albaneses que mutilaram os corpos".
Naquela altura, os guerrilheiros do UCK não podiam ser suspeitos de uma tal infâmia: eram freedom fighters, combatentes da liberdade. Hoje, no Conselho da Europa, o líder do UCK e pai da pátria no Kosovo, Hashim Thaci, "é acusado de dirigir um clã político-criminal nascido na véspera da guerra" e implicado no tráfico não só de heroína como também de órgãos humanos. Eis o que acontecia sob a sua direção no decorrer da guerra: "Uma quinta em Rripe, na Albânia central, transformada pelos homens do UC em sala de operação, tendo como pacientes prisioneiros de guerra sérvios: um golpe na nuca, antes e extirpar os seus rins, com a cumplicidade de médicos estrangeiros" (presume-se que ocidentais). E assim vem à luz a realidade da "guerra humanitária" de 1999 contra a Jugoslávia; mas durante este tempo o seu desmembramento foi levado a cabo e no Kosovo instala-se e permanece uma enorme base militar estado-unidense.

Façamos um outro salto atrás de vários anos. Uma revista francesa de geopolítica (Hérodote) salientou o papel essencial desempenhado no decorrer da "revolução das rosas", verificada na Geórgia no fim de 2003, pelas redes televisivas que estão nas mãos da oposição georgiana e pelas redes ocidentais: elas transmitem sem descontinuar a imagem (que a seguir revelou-se falsa) da villa que seria a prova da corrupção de Eduard Chevarnadze, o dirigente que se pretendia derrubar. Após a proclamação dos resultados eleitorais que dão a vitória a Chevarnadze e que são declarados fraudulentos pela oposição, esta decide organizar uma marcha sobre Tíflis, que deveria marcar "a chegada simbólica, mesmo pacífica, à capital, de todo um país em cólera". Apesar de convocados por todos os cantos do país com grandes reforços de meios propagandísticos e financeiros, nesse dia afluem à marcha entre 5 000 e 10 000 pessoas: "isto não é nada para a Geórgia"! Mas ainda assim, graças a uma mise en scène refinada e de grande profissionalismo, a cadeia de televisão mais difundida no país chega a comunicar uma mensagem inteiramente diferente: "A imagem está lá, poderosa, a de um povo inteiro que segue o seu futuro presidente". Doravante as autoridades políticas estão deslegitimadas, o país está desorientado e aturdido e a oposição mais arrogante do que nunca, tanto mais que os media internacionais e as chancelarias ocidentais encorajam-no e protegem-no. O golpe de Estado está maduro, ele vai levar ao poder Mikhail Saakashvili, que estudou nos EUA, fala um inglês perfeito e está em condições de compreender rapidamente as ordens dos seus superiores.

A Internet como instrumento de liberdade
Vejamos agora os novos media, particularmente queridos à senhora Clinton e à administração Obama. Durante o Verão de 2009 podia-se ler num diário italiano reputado:
"Desde há alguns dias, no Twitter, circula uma imagem de proveniência incerta [...] Diante de nós, um fotograma de um valor profundamente simbólico: uma página do nosso presente. Uma mulher com o véu negro, que usa uma t-shirt verdade sobre jeans: extremo Oriente e extremo Ocidente juntos. Ela está só, de pé. Tem o braço direito levantado e o punho fechado. Face a ela, imponente, a boca de um SUV, do tecto do qual emerge, hierático, Mahmoud Ahmadinejad. Atrás, os guarda-costas. O jogo dos gestos impressiona: provocação desesperada da parte da mulher; mística da parte do presidente iraniano".

Trata-se de "uma fotomontagem", que parece "verosímil", para chegar mais eficazmente a "condicionar ideias, crenças". As manipulações abundam. No fim do mês de Junho de 2009, as novas mídia no Irã e todos os meios de informação ocidentais difundem a imagem de uma bela jovem atingida por uma bala: "Ela começa a sangrar, perde consciência. Nos segundos que se seguem ou pouco depois, ela está morta. Ninguém pode dizer se foi atingido no fogo cruzado ou se foi atingida de modo deliberado". Mas a busca da verdade é a última coisa em que se pensa: seria de qualquer modo uma perda de tempo e poderia mesmo revelar-se contra-producente. O essencial está alhures: "no presente a revolução tem um nome: Neda". Pode-se então difundir a mensagem desejada: "Neda inocente contra Ahmadinejad", ou então, "uma jovem corajosa contra um regime vil". E a mensagem verifica-se irresistível: "É impossível olhar na Internet de modo frio e objetivo o vídeo de Neda Soltani, a breve sequência em que o pai da jovem e um médico tentam salvar a vida da jovem iraniana de vinte e seis anos". Como na fotomontagem, também no caso da imagem de Neda estamos na presença de uma manipulação refinada, atentamente estudada e calibrada em todos os seus pormenores (gráficos, políticos e psicológicos) com o objectivo de desacreditar e tornar o mais odiosa possível a direção iraniana (Ver adenda no fim do texto, NT)

E chegamos assim ao "caso líbio". Uma revista italiana de geopolítica falou a propósito disso da "utilização estratégica do falso", como confirma em primeiro lugar o "desconcertante caso das falsa fossas comuns" (e de outros pormenores sobre os quais chamei a atenção). A técnica é aquela que se utiliza há décadas, mas que na atualidade, com o advento das novas mídias, adquire uma eficiência terrível: "A luta é primeiro representada como um duelo entre o poderosos e o fraco indefeso, e rapidamente transfigurada a seguir numa oposição frontal entre o Bem e o Mal absolutos". Nestas circunstâncias, longe de ser um instrumento de liberdade, os novos media produzem o resultado oposto. Estamos na presença de uma técnica de manipulação, que "restringe fortemente a liberdade de escolha dos espectadores"; "os espaços para uma análise racional são comprimidos ao máximo, em particular explorando o efeito emotivo da sucessão rápida das imagens".

E assim reencontra-se para os novos media a regra já constatada para o rádio e a televisão: os instrumentos, ou potenciais instrumentos, de liberdade e de emancipação (intelectual e política) podem inverter-se e muitas vezes invertem-se hoje no seu contrário. Não é difícil prever que a representação maniqueísta do conflito na Líbia não resistirá muito tempo; mas Obama e seus aliados esperam no intervalo atingir os seus objetivos, que não são verdadeiramente humanitários, mesmo se a novlíngua teima de defini-los como tais.

Espontaneidade da Internet
Mas retornemos à fotomontagem que mostra uma dissidente iraniana a desafiar o presidente do seu país. O autor do artigo que cito não se interroga sobre os artesãos de uma manifestação tão refinada. Vou tentar remediar esta lacuna. No fim dos anos 90 já se podia ler no International Herald Tribune: "As novas tecnologias mudaram a política internacional"; aqueles que estiverem em condições de controlá-las vêem aumentar desmedidamente seu poder e sua capacidade de desestabilização dos países mais fracos e tecnologicamente menos avançados.

Estamos na presença de um novo capítulo da guerra psicológica. Também neste domínio os EUA estão decisivamente na vanguarda, tendo no seu activo décadas de investigação e de experimentações. Há alguns anos Rebecca Lemov, antropóloga d Universidade do Estado de Washington, publicou um livro que "ilustra as tentativas desumanas da CIA e de alguns dos maiores psiquiatras de "destruir e reconstruir" a psique dos pacientes nos anos 50". Podemos então compreender um episódio que se verificou neste mesmo período. Em 16 de Agosto de 1951, fenômenos estranhos e inquietantes vieram perturbar Pont-Saint-Esprit, "uma aldeia tranquila e pitoresca" situada "no Sudeste da França". Sim, "a aldeia foi sacudida por um misterioso vento de loucura coletiva. Pelo menos cinco pessoas morreram, dezenas acabaram no asilo, centenas deram sinais de delírio e de alucinações [...] Muitos acabaram no hospital com a camisa de força". O mistério, que durante longos anos cercou este ataque de "loucura coletiva", agora está desvendado: tratou-se de uma "experimentação efetuada pela CIA, com a Special Operation Division (SOD), a unidade secreta do Exército dos EUA de Fort Detrick, Maryland"; os agentes da CIA "contaminaram com LSD as baguetes vendidas nas padarias da aldeia", provocando os resultados que vimos acima. Estamos no princípio da Guerra Fria: certamente os Estados Unidos eram aliados da França, mas é justamente por isso que esta se prestava facilmente às experimentações de guerra psicológica que tinham como objetivo o "campo socialista" (e a revolução anti-colonial) mas que dificilmente podiam ser efetuados nos países para além da cortina de ferro.

Coloquemos então uma pergunta: a excitação e o incitamento das massas não podem ser produzidos senão pela via farmacológica? Com o advento e a generalização da Internet, Facebook, Twitter, emergiu uma nova arma, susceptível de modificar profundamente as relações de força no plano internacional. Isto não é mais um segredo, para ninguém. Nos nossos dias, nos EUA, um rei da sátira televisiva como Jon Stewart exclama: "Mas porque enviamos exército se é tão fácil abater as ditaduras via Internet quanto comprar um par de sapatos?" Por sua vez, numa revista próxima do Departamento de Estado, um investigador chama a atenção sobre "como é difícil militarizar" (to weaponize) os novos media para objetivos a curto prazo e ligados a um país determinado; mais vale perseguir objetivos de mais ampla envergadura. As ênfases podem variar, mas o significado militar das novas tecnologias é em todos os casos explicitamente sublinhado e reivindicado.

Mas a Internet não é a própria expressão da espontaneidade individual? Só os mais ingênuos (e os menos escrupulosos) argumentam assim, Na realidade – reconhece Douglas Paal, ex-colaborador de Reagan e de Bush sênior – a Internet é atualmente "gerida por uma ONG que é de fato uma emanação do Departamento de Comércio dos EUA". Trata-se só de comércio? Um diário de Pequem relata um fato amplamente esquecido: quando em 1992 a China pede pela primeira vez para ser conectada à Internet, seu pedido foi rejeitado devido ao perigo de que o grande país asiático pudesse assim "procurar informações sobre o Ocidente". Agora, ao contrário, Hillary Clinton reivindica a "absoluta liberdade" de Internet como valor universal ao qual não se pode renunciar; e contudo – comenta o diário chinês – "o egoísmo dos Estados Unidos não mudou".

Talvez não se trate apenas de comércio. Quanto a isso, o semanário alemão Die Zeit pede esclarecimentos a James Bamford, um dos maiores peritos em matéria de serviços secretos estado-unidenses: "Os chineses também temem que firmas americanas como a Google sejam em última análise ferramentas dos serviços secretos americanos no território chinês. Será uma atitude paranóica?" "Nada disso", responde ele imediatamente. Ao contrário – acrescenta o perito – "organizações e instituições estrangeiras [também] são infiltradas" pelos serviços secretos estado-unidenses, os quais estão de todos os modos em condições de interceptar as comunicações telefônicas em todos os cantos do planeta e devem ser considerado como "os maiores hackers do mundo". Doravante – afirmam ainda no Die Zeit dois jornalistas alemães – não há a mínima dúvida quanto a isso:
"Os grandes grupos da Internet tornaram-se uma ferramenta da geopolítica dos EUA. Antes, havia a necessidade de laboriosas operações secretas para apoiar movimentos políticos em países longínquos. Hoje basta frequentemente um pouco de técnica de comunicação, operada a partir do Ocidente [...] O serviço secreto tecnológico dos EUA, a National Security Agency, está em vias de montar uma organização completamente nova para as guerras na Internet".

Convém portanto reler à luz de tudo isto alguns acontecimentos recentes de explicação não muito fácil. Em Julho de 2009 incidentes sangrentos verificaram-se em Urumqi e no Xinjiang, a região da China habitada sobretudo por uigures. Serão a discriminação e a opressão contra minorias étnicas e religiosas a explicação? Uma abordagem deste tipo não parece muito plausível, a julgar pelo menos com o que informa de Pequim o correspondente de La Stampa:
"Numerosos hans de Urumqi queixavam-se dos privilégios de que desfrutavam o uigures. Estes, de fato, enquanto minoria nacional muçulmana, têm em igual nível condições de trabalho e de vida bem melhores que os seus colegas hans. Um uigur, no escritório, tem autorização para suspender o seu trabalho várias vezes por dia para cumprir as cinco orações muçulmanas tradicionais da jornada [...] Além disso podem não trabalhar na sexta-feira, dia feriado muçulmano. Em teoria eles deveriam recuperar o domingo. Mas no domingo os escritórios estão de facto desertos [...] Outro ponto doloroso para os hans, submetidos à dura política que impõe o filho único por família, é o facto de que os uigures podem ter dois ou três filhos. Como muçulmanos, além disso, eles têm reembolsos acrescidos no seu salário pois como não podem comer porco devem recorrer à carne de carneiro que é mais cara".

Parecem portanto pelo menos unilaterais estas acusações do Ocidente contra o governo de Pequim por querer apagar a identidade nacional e religiosa dos uigures. E então?

Vamos refletir sobre a dinâmica destes incidentes. Numa vila litoranea da China onde, apesar das diferentes tradições culturais e religiosas pré-existentes, hans e uigures trabalham lado a lado, difunde-se de repente o rumor de que uma jovem han foi violada por operários uigures; daí resultam incidentes no decorrer dos quais dois uigures perdem a vida. O rumor que provocou esta tragédia é falso mas então difunde-se um segundo rumor mais forte e ainda mais funesto: a Internet divulga na rede a notícia de que na cidade costeira da China centenas de uigures teriam perdido a vida, massacrados pelos sob a indiferença e mesmo sob o olhar complacente da polícia. Resultado: tumultos étnicos no Xinjiang, que provocam a morte de quase 200 pessoas, desta vez quase todos hans.

Estaremos na presença de uma complicação infeliz e fortuita de circunstâncias ou, em alternativa, da difusão de rumores falsos e tendenciosos visando o resultado que efetivamente se verificou a seguir? Estamos numa situação em que a partir de agora se verificar impossível distinguir a verdade da manipulação. Uma sociedade estado-unidense realizou "programas que permitiriam a um sujeito empenhado numa campanha de desinformação adotar simultaneamente até 70 identidades (perfis de redes sociais, contas em fóruns, etc) gerindo-os paralelamente: tudo isso sem que se possa descobrir quem puxa os fios desta marionete virtual". Quem recorreu a estes programas? Não é difícil adivinhar.

O diário citado aqui, não suspeito de anti-americanismo, precisa que a sociedade em causa "fornece serviços a diversas agências governamentais estado-unidenses, como a CIA e o Ministério da Defesa". A manipulação de massa celebra o seu triunfo enquanto a linguagem do Império e da novilíngua fazem-se, na boca de Obama, mais doces e suaves do que nunca.

Volta então à memória a "experimentação efetuada pela CIA" durante o Verão de 1951, que produziu "um misterioso vendaval de loucura coletiva" na "aldeia pitoresca e tranquila" de Pont-Saint-Esprit. E eis-nos de novo obrigados a nos colocarmos a pergunta inicial: a "loucura coletiva" pode ser produzida só por via farmacológica ou pode hoje ser o resultado do recurso, também, às "novas tecnologias" da comunicação de massa?

Franco-atirados presos pelas autoridades sírias. Compreendem-se então os financiamentos de Hillary Clinton e da administração Obama aos novos media. Vimos que a realidade das "guerras na Internet" a partir de agora é reconhecida mesmo por órgãos reputados da imprensa ocidental; salvo que na linguagem do Império e na novilíngua a promoção das "guerras na Internet" torna-se a promoção da liberdade, da democracia e da paz.
Os alvos destas operações não permanecem inertes: como em toda guerra, os fracos procuram reduzir a sua desvantagem aprendendo com os mais fortes. E eis que estes últimos gritam escandalizados: "No Líbano aqueles que melhor dominam os novos media e as redes sociais não são as forças políticas pró ocidentais que apoiam o governo de Saad Hariri, mas sim os "Hezbolá". Esta observação deixa fugir um suspiro: ah, como seria belo se, assim como aconteceu com a bomba atômica e as armas (propriamente ditas) mais refinadas, também para as "novas tecnologias" e as novas armas de informação e desinformação em massa, aqueles que detêm o monopólio fossem o país que inflige um interminável martírio ao povo palestino e pudessem continuar a exercer no Médio Oriente uma ditadura terrorista! O fato é – lamenta-se Moises Naïm, diretor da Foreign Policy – que os EUA, Israel e o Ocidente já não enfrentam mais os "ciber-idiotas de outrora". Estes "contra-atacam com as mesmas armas, fazem contra-informação, envenenam os poços": uma verdadeira tragédia do ponto de vista dos presumidos campeões do "pluralismo". Na linguagem do Império e na novilíngua, a tímida tentativa de criar um espaço alternativo ao que é gerido e hegemonizado pela superpotência solitária torna-se um "envenenamento dos poços".

Adenda do Réseau Voltaire
Sobre o Facebook na Síria
Desde o princípio das maniestações em Deraa, foi aberta uma página no Facebook com o título "Revolução síria 2011": slogan publicitário para verdadeiros revolucionários: se não se conseguir em 2011 deixa-se cair? Durante a jornada, esta página contava com 80 mil amigos, quase todos das contas Facebook criadas no mesmo dia. Isto é impossível salvo se os "amigos" forem contas virtuais criadas por software.
A propósito do caso Neda no Irã
Se revê o vídeo da morte da jovem Neda passando-o em câmara lenta, constata-se que ao cair a jovem tem o reflexo de amortecer a sua queda com o braço. Ora, toda pessoa atingida por bala – ainda mais no peito – perde os seus reflexos. O corpo deveria cair como uma massa. Mas não é o caso. É impossível que a jovem tenha sido por bala naquele momento. Alguns segundos mais tarde, o vídeo mostra o rosto da jovem. Ele está bem. Ela passa a mão sobre o seu rosto e é então recoberto de sangue. O aumento da mão mostra que ela dissimula um objecto na sua palma e que ela espalha ela própria o sangue sobre o seu rosto. A jovem é então levada pelos seus amigos ao hospital. Ela morre durante o transporte. Chegada ao hospital, constata-se que a morte se deveu a uma bala em pleno peito. Esta não pode ter sido atirada senão pelos seus "amigos" durante o seu transporte.

Referências bibliográficas
# Giorgio Agamben 1996, Mezzi senza fine. Note sulla politica, Bollati Boringhieri, Torino.
# James Bamford (interview) 2010, quot Passen Sie auf, was Sie tippen quot, par Thomas Fischermann, in Die Zeit, 18 février, pp. 20-21.
# Ennio Caretto 2006, La Cia riprogrammò le menti dei reduci, in Corriere della Sera, 12 février, p. 14.
# Germano Dottori 2011, Disinformacija. L'uso strategico del falso nel caso libico, in Limes. Rivista italiana di geopolitica, n. 1, pp. 43-49.
# Alessandra Farkas 2010 quot La Cia drogò il pane dei francesi quot. Svelato il mistero delle baguette che fecero ammattire un paese nel '51, in Corriere della Sera, 13 mars, p. 25.
# Thomas Fischermann, Götz Hamann 2010, Angriff aus dem Cyberspace, in Die Zeit, 18 février, pp. 19-21.
# Carlo Formenti 2011, La quot disinformazia quot ai tempi del Web. Identità multiple per depistare, in Corriere della Sera, 28 février, p. 38.
# Massimo Gaggi 2010, Un'illusione la democrazia via web. Estremisti e despoti sfruttano Internet, in Corriere della Sera, 20 mars, p. 21.
# Régis Genté 2008, Des révolutions médiatiques, in Hérodote, revue de géographie et de géopolitique, 2° trimestre, pp. 37-68.
# Mara Gergolet 2010, L'Europa : quot Traffico d'organi in Kosovo quot, in Corriere della Sera, 16 décembre, p. 18.
# Global Times 2011, The internet belongs to all, not just the US, in Global Times, 17 février.

Libia: LA POSICIÓN DEL ELN de Colombia

LA POSICIÓN DEL ELN de Colombia
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En el Africa del norte, situada al frente de Europa en el Mediterraneo, la Jamahiria Arabe Popular y Socialista de Libia sufre luego de cuarenta años nuevas confrontaciones por el poder.

Muammar el Gadhafi, en 1969 había conducido una rapida insurrección que depuso a la Monarquía impuesta por acuerdos de la ONU, Gran Bretaña y Francia con el apoyo de los Estados Unidos, desde finales de la década de los 40.

Libia para 1969 ya era una de las principales productoras de petroleo liviano del mundo y bocado apetecido de las tranasnacionles petroleras

Las primeras medidas de ese gobierno que se llamó socialista y nasserista ( por el General egipcio nacionalista arabe Gamal Abdel Nasser), fueron eliminar las bases militares yanquis e inglesas y convertir el petróleo en un producto al servicio del pueblo y el desarrollo. En solo cinco años Libia quebró el hambre y la pobreza y se convirtió en uno de los paises del Africa con mejor nivel de vida. En estos momentos Libia es el pais con el más alto indice de desarrollo humano del continente africano.

A partir de ese momento la historia de las relaciones de Libia y los paises imperialistas hasta finales del siglo XX y principios de este, se pueden señalar como una de las más conflictivas en el area. Estados Unidos bombardeó Tripoli y Benghasi, tumbó aviones libios sobre el mar Mediterraneo, aupó la contrarrevolución interna y combatió a Libia en todos las ordenes.

Libia se convirtió en militante del ala antimperialista más radical. Fue solidaria con los movimientos de liberación de todo el mundo incluyendo los de Nuestra América y las luchas por la libertad de los pueblos de Africa y del Medio Oriente. Participó en el Movimiento de los No Alineados, en la creación de la Liga Arabe y en la potenciación de la Union Africana y de la OPEP.

Su participación abierta en las disputas internas de varios países africanos y arabes, su apoyo abierto a decenas de movimientos de liberación de todo el mundo y su abierta confrontación, la llevaron a serias contradicciones con los paises imperialistas -con los cuales no mantenía ninguna relación diplomatica- incluyendo un embargo del Consejo de Seguridad de la ONU por mas de diez años con graves consecuencias económicas y políticas.

Acercamiento a las potencias imperialistas

A finales del siglo XX y principios de este Muammar el Gadafi decidio recomponer sus relaciones con los paises imperialistas. Publicamente se dispuso para resarcir los daños a las personas y paises donde su acción militar hubiera hecho daño. Ciudadanos de Alemania, Estados Unidos, Inglaterra, entre otros, recibieron indemnizaciones millonarias. Este gesto abrió el camino al entendimiento con las potencias y conllevó un cambio en su politica exterior y de relacionamiento con el campo antimperialista.

Fue invitado incluso a una cita con el G-8, por su rango de presidente de la Liga Arabe. Hizo giras por toda Europa y fue visitado por los mandatarios de la mayoría de las potencia imperiales. Incluso en el 2009 firmó un convenio militar con Estados Unidos, con el Comando militar para el Africa AFRICOM.

Libia pais de tribus.

Dentro de las caracteristicas poco conocidas de Libia es la importancia tribal. Su desarrollo poíitico e histórico se fundamenta en la preservación de las fuerzas de las tribus que aun permanecen intactas en la vida política y económica. La estructura de poder construida por el régimen que dirige el Coronel Gadafi, fue muy cuidadosa en la repartición de los poderes y las posibilidades de desarrollo económico en las regiones para no agredir esta conformación, aunque propendía por un gobierno nacional.

Sin embargo parece que una de las causas que le dan combustible al alzamiento popular tiene que ver con desaveniencias vinculadas a diferencias mal tratadas con tribus poderosas. La bandera que levantan los rebeldes libios, paradojicamente, es la bandera de la monarquía que fue destrozada en 1969.

Libia pais musulman

La religión es otra fuente importante de unidad y cultura en Libia. La inmensa mayoría de los libios son musulmanes. Sin embargo dentro de esta doctrina, existen tendencias fundamentalistas que son profundamente reaccionarias y retardatarias. En Libia se presenta una fuerza que esta vinculada a los talibanes afganos y a las estructuras de Al Qaeda. Desde 1996 están activos en Libia y han ejecutado acciones militares inclusive contra el mismo Gadafi. Estas fuerzas propenden por un califato, que conllevaría un atraso profundo en el desarrollo alcanzado en el conjunto de la nación libia. Esta es otra variable importante de los alzamientos.

El alzamiento popular.

La crisis económica que golpea al mundo tambien ha golpeado a Libia. Los acuerdos económicos con las transnacionales y las potencias imperiales, conllevan acuerdos sobre reformas a las actividades económicas en el conjunto del sistema productivo. Acuerdos con el Banco Mundial y el FMI. Ha habido privatización, reducción del tamaño del Estado, recorte de algunos logros. El desempleo se ha disparado llegando a más del 25% de la población economicamente activa. La pobreza se multiplicó y se podría decir que la cuarta de la población es pobre. El malestar social se ha canalizado a partir de los levantamientos en Egipto y Tunez, paises con los cuales tiene extensas fronteras Libia.

El regimen de Libia se habia cerrado a la participación política de la población. Acciones contra los palestinos y los luchadores de Hamas, contra los migrantes africanos que tomaban a Libia como pais transito hacia Europa, el nepotismo y los manejos corruptos de personeros del regimen, tambien venia generando malestar en el pueblo libio.

Los acontecimientos en Libia avanzan cada segundo, se habla de represion indiscriminada y las confrontaciones armadas se dan en diferentes ciudades. Miles de noticias desfiguradas llegan. La fabrica de mentiras imperialista, por intermedio de sus agencias está en plena producción.

La intervencion imperialista

Los yanquis no tienen amigos sino intereses. En Libia las principales compañias petroleras yanquis han invertido ingentes cantidades de dinero en los ultimos 20 años. Al igual que italianas, alemanas, francesas, españolas e inglesas. Italia es el pricipal socio comercial y Alemania el segundo. Fidel ya dio la alerta de una invasion de la OTAN sobre Libia que esta en curso.

En 1806 (!!), Estados Unidos bombardeó Tripoli. Fue la primera accion armada fuera de su territorio. La disculpa fue la piratería que se desarrollaba desde este puerto mediterraneo. En 1986 bombardearon Tripoli y Bengashi. La propia casa de Gadafi fue bombardeada y su hija adoptiva murió.

Italia fue metropoli de Libia durante la primera mitad del siglo XX, hasta que en la Segunda Guerra Mundial los ingleses expulsan a los italianos y convierten a Libia en un protectorado.

El petroleo y el gas son el principal bocado para el capital internacional. Libia es el decimooctavo productor del mundo con más de millon y medio de barriles diarios. El 90% de este va para Europa. La OTAN ya da vueltas sobre Libia esperando el momento del zarpazo

Ninguna nación o estructura militar internacional tiene derecho a agredir o invadir a Libia. Ya Irak y Afganistan han demostrado hasta la saciedad las consecuencias de las intervenciones imperialistas.

El pueblo libio tiene el derecho a decidir sus propios asuntos. La rebelion popular en curso, producto de multiples variables y de imprevisibles consecuencias debe fluir. La voluntad soberana del pueblo, en la busqueda de su bienestar y libertad, de sus propias formas organizativas debe ser respetada. La autodeterminación del pueblo libio es sagrada.

Fuerzas Especiales de EEUU en Libia

Según diario pakistaní ya hay Fuerzas Especiales de EEUU en Libia
Por Paul Joseph Watson
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03/03/11


3 de marzo de 2011.-Las Fuerzas Especiales de EEUU han desembarcado en Libia para entrenar rebeldes anti-Gaddafi para un golpe de estado apoyado por occidente en las cercanías de la nación rica en petróleo, con “asesores de defensa" británicos y franceses también desembarcando para establecer bases de entrenamiento en la región oriental del país controlada por los rebeldes.

Según un informe del diario Pakistan Observer, centenares del personal de las fuerzas especiales de EEUU, Gran Bretaña y Francia llegaron el 23 y 24 de febrero en “buques de guerra estadounidenses y franceses y pequeños botes en los puertos libios de Benghazi y Tobruk".

El reporte afirma que el informe fue confirmado por un diplomático libio en la región, quien expresó que “los tres países occidentales han desembarcado sus tropas de fuerzas especiales en Cyrinacia y están ahora creando sus bases y centros de entrenamiento”, en un intento por reforzar a las fuerzas rebeldes que resisten a la milicia de Gaddafi en la región circundante.

“Las fuerzas occidentales están preparando establecer bases de entrenamiento para milicias locales formadas por fuerzas rebeldes para un control efectivo en la región rica en petróleo y contrarrestar cualquier presión de las fuerzas a favor de Gaddafi desde Trípoli”, indica el informe.

Además, los esfuerzos para “neutralizar” a la Fuerza Aérea libia están en camino en un intento de obstaculizar la capacidad de Gaddafi para gobernar desde Trípoli si él logra permanecer en el poder.

La naval de EEUU también confirmó que el portaaviones USS Enterprise, el cual previamente ha estado en el servicio de caza de piratas frente a las costas de Somalia, está ahora humeando hacia Libia mientras se elevan las tensiones.

La Secretaria de Estado Hillary Clinton admitió públicamente por primera vez el 28 de febrero que EEUU estaba preparando respaldar rebeldes antigobierno, a pesar de la advertencia de Hafiz Ghoga, el vocero del recién formado Concejo Nacional de Libia en la ciudad oriental de Benghazi controlada por los rebeldes, de que cualquier “intervención extranjera” no sería bienvenida.

“El resto de Libia será liberada por el pueblo... y las fuerzas de seguridad de Gaddafi serán eliminadas por el pueblo de Libia”, expresó Ghoga durante una conferencia de prensa.

Mientras tanto, el ex representante europeo para el Grupo Carlyle y ex primer ministro británico John Major se ha convertido en el último en añadir su voz en el creciente coro de aquellos que llaman a una intervención militar para derrocar a Gaddafi.

Major respaldó, “otros líderes occidentales que están al borde de ordenar acciones militares en contra de Muammar Gaddafi por temores de que el mandatario libio podría utilizar “armas químicas” en contra de su propio pueblo”, informa The Telegraph.

El actual Primer Ministro británico, David Cameron, también ha estado ocupado preparando el escenario para un golpe de estado respaldado por occidente, convocando una zona de exclusión aérea para ser erigida sobre el país.
“Si el Coronel Gaddafi utiliza la fuerza militar en contra de su propio pueblo, el mundo no puede mantenerse al margen. Ese es el por qué deberíamos estar buscando una zona de exclusión aérea’, dijo Cameron. El canciller ruso, Sergey Lavrov, criticó la idea de una zona de exclusión aérea como “superflua”, en vez de señalar apoyo hacia las sanciones respaldadas por la ONU.

El viernes, cuarenta neoconservadores de influencia firmaron una carta a Barack Obama exhortando al presidente a preparar “inmediatamente” una acción militar para derrocar a Gaddafi.

Cualquier cambio de régimen con la asistencia de naciones occidentales suministrará un acceso más profundo a un país que posee las más grandes reservas de petróleo en África y el décimo más grande en el mundo, con una reserva de producción de alrededor de 66 años.

FUENTE: Correo del Orinoco

Uma homenagem a Professora Marilena Ramos

Uma aula sobre nacionalismorevolucionário

Recebi do Beto Almeida sobre a Líbia ...

Prezados e prezadas, apenas contando algo: há alguns dias, após escrever o texto respondendo a agressão da Folha a Telesur, fui surpreendido por nota no Blog Gonzun, do Miguel do Rosário, em que afirmava "Telesur se desmoralizou ao fazer cobertura pró-Kadafi".

Preocupado com o equívoco, escrevi a ele solicitando que esclarecesse em que teria se baseado, em qual notícia, em qual editorial, em que imagem, para afirmar semelhante estapafúrdio. Ele disse que teria se baseado em mensagem do Rovai, que afirmava que Kadafi estava bombardeando seu próprio povo, que os níveis de vida e o IDH da Líbia, bem como os serviços públicos de saúde e educação gratuitos não tinham tanta importância pois era um país pequeno e muito rico em petróleo. A Arábia Saudita também é rica, nem porisso aplica sua renda petroleira na elevação do padrão de vida de seu povo. Ao contrário. É uma didtadura monárquica, carcomida, protegida pela mídia capitalista, inclusive a Folha. Lembrei ao Miguel o quanto de mentiras se estava utilizando contra a Líbia, entre elas a do "bombardeio do seu próprio povo", repetida por Hillary Clinton, por Obama, pelo Rovai, pela Fox News, pela TV Globo e pelo blog Gozun.....Miguel me aconselhou então ler o noticiário e a "não me deixar me levar pelo ódio à mídia". Percebi que por estes argumentos não era razoável insistir numa discussão política e apenas perguntei a ele se publicaria o meu artigo em resposta à agressão feita pela Folha de São Paulo a Telesur. Não publicou, não respondeu, não esclareceu. Hoje , a própria Folha publica declarações do Secretário de Defesa dos EYA, Robert Gates, concedidas à imprensa americana, onde ele afirma " Não ha confirmação de que tenham ocorrido bombardeios ordenados por Kadafi contra o seu povo". É o secretário de defesa dos EUA!!! Junte-se a isso uma nota da imprensa russa, na qual se informa que o Comando do Exército Russo, tendo monitorado incessantemente os satélites localizados naquela região da Líbia, afirmou que não houve nenhum bombardeio aéreo como os relatados pela mídia internacional, e, lamentavelmente, repetidos por Rovai e Miguel do Rosário. Mando-lhes a seguir as duas notas. Mas, uma delas está na Folha de hoje, na coluna "Toda Mídia", ao alto da página. A outra mando por internet.

Telesur está com duas equipes de reportagem na Líbia, uma em Trípoli e outra em Bengazhi. Tem retratado que há apoio a Kadafi, como também que existem ações militares de rebeldes, inclusive de um setor de oposição que apela a Otan para que lance bombardeios sobre a Líbia. Ouvimos os dois lados, documentamos tudo, estamos no terreno desde o início. Onde está a desmoralização da Telesur? Há blogueiros progressistas que se deixam influenciar pelo dilúvio de notícias mentirosas.......E não podem explicar em que se baseiam para suas afirmações. Mas, negam publicar o artigo que critica o comportamento da Folha de São Paulo, tal como a Folha, que também não publicou o meu artigo.

Beto

(Publicado em Patria Latina)

Líbia: teria faltado protagonismo ao Itamaraty?

A impressionante euforia de uma quase unânime campanha midiática atuando como os tambores de guerra, tendo como alvo a Líbia, já provocou seus estragos iniciais: uma diplomacia facciosa, agressiva e guerreira arrancou à força uma condenação do país africano, sem sequer uma investigação concreta. Para tal foram suficientes os relatos de uma mídia controlada pela indústria bélica. Agora, prepara-se o terreno para novos passos da máquina de guerra imperialista. O desejo de uma intervenção militar na Líbia é sonho antigo do Pentágono, nunca concretizado. Mas, agora, se de fato for lançada, pode ter como objetivo reprimir todos os povos árabes em rebelião com o intuito de assegurar a hegemonia dos interesses dos Eua na região, atualmente sob questionamento, seja pelas rebeliões populares, seja pela nova relação de forças em países como Irã, Turquia e Líbano.

Por tudo isto, é justo perguntar se não teria havido falta de protagonismo do Itamaraty na votação do caso Líbia na ONU? Será que todo o esforço do governo Lula em consolidar uma aliança Países Árabes e América do Sul não estaria sendo deixado um tanto de lado quando a representante do Brasil na ONU aparece posicionada ao lado de resoluções que podem facilitar a balcanização da Líbia, e, como conseqüência, trazer um grave retrocesso nas relações do Brasil com aquela região, como já se pode perceber na retirada parcial das empresas brasileiras do território líbio? Saem Queiroz Galvão, Odebrecht e Camargo Correia, e entra a Haliiburton? Seria este um dos resultados da intervenção pré-militar? Sem contar uma montanha de cadáveres....... O Artigo é de Beto Almeida.

Não foi simples para o Presidente Lula construir sua política externa. Os adversários se posicionaram prontamente, fora e dentro do território nacional. Aqui dentro toda a mídia que, naturalmente, sempre foi historicamente vassala editorial de idéias emanadas pelas grandes potências. Não há uma única mídia de grande alcance hoje no Brasil que sustente uma linha editorial contrária à manutenção do status de vulnerabilidade ideológica, política, tecnológica, econômica e até militar em que se encontra o Brasil desde o nefasto período dos privateiros. Nem mesmo a TV Brasil conseguiu fazer uma linha editorial diferenciada, com um mínimo de sintonia, sequer exploratória, com o que foi a política externa lulista.

Retórica itamarateca?

Entre os argumentos manipuladamente utilizados contra Lula repetia-se - sem diversidade informativa alguma, como se pede na Constituição - que tudo era apenas uma retórica itamarateca. Não é preciso muitas linhas para contestar este pseudo-argumento: basta que se verifiquem os volumes do comércio, dos acordos, e das relações entre o Brasil e os países do Oriente Médio antes e depois de Lula. Lembremo-nos: neste período foi realizada, sob oposição dos EUA, a primeira Cúpula América do Sul-Países Árabes na história.

Há uma forte simbologia quando grandes empresas brasileiras retiram seus funcionários em função do evidente agravamento da crise na Líbia e a ameaça não apenas de uma guerra civil, mas de uma intervenção bélica da Otan para, quem sabe, levar novamente ao poder remanescentes da monarquia Idris, desde que concordem, obviamente, em privatizar novamente o petróleo líbio hoje estatizado, entregando-o a empresas norte-americanas, como no Iraque e na Arábia Saudita hoje.

Paralisação produtiva

A Revolução Líbia colocou a receita do petróleo para a elevação do padrão de vida de seu povo, tanto é que pertence a este país o mais elevado IDH da África, um salário mínimo dos mais elevados de todo o terceiro mundo, superior ao brasileiro, uma renda per capta parecida à nossa, sem contar a oferta de serviços públicos e gratuitos de saúde e educação em razoável qualidade. A receita petroleira tem sido também utilizada para a contratação de empresas e tecnologia do exterior para a realização de obras de infra-estrutura de grande porte, entre elas gigantescos canais de irrigação para alavancar a produção agrícola num território que, em 90 por cento, é desértico. A ingerência já produziu uma paralisação produtiva no País.

A construção de uma política externa brasileira enfatizando a integração latino-americana, não apenas em discursos mas, concretamente, com obras unificadoras de infra-estrutura que já não podem mais ser negadas pelo dilúvio de mentiras midiáticas, tem seu desdobramento na formatação de uma relação mais cooperativa com o mundo árabe e também com o Irã. Além disso, a busca de uma diversificação de exportações e importações - o que nunca agradou aos EUA - desdobra-se coerentemente numa relação mais protagonista a partir da relação com os países do Brics, bem como no G-20. Imagine o tamanho da crise que o Brasil enfrentaria se tivesse permanecido submetido a uma relação prioritária com os EUA...

Esta nova maneira de estar presente no mundo levou o Brasil a pelo menos duas operações de alto esforço e coragem, qual sejam, a busca de uma saída negociada e pacífica para a crise a partir do prepotente veto imperial ao programa nuclear do Irã, e também, na questão de Honduras, quando o governo Lula assumiu com arrojo a defesa da democracia diante do golpe de estado contra Zelaya, sinalizando que ela, a democracia, não é um atributo que estaria fora da agenda da cooperação e integração latino-americana, bem como do princípio da autodeterminação dos povos, violentada nestas duas oportunidades pelos EUA.

Comissão Internacional para uma solução pacífica

Lamentavelmente, a proposta de formação de uma Comissão Internacional para solução pacífica da crise da Líbia não partiu do Brasil, como era justo esperar, mas da Venezuela. Aliás, quando da tentativa de golpe contra a Venezuela, teria partido exatamente do Brasil, sob o governo Lula, a idéia de criar o Grupo de Amigos da Venezuela, buscando assegurar uma mesa de negociações e desencorajar qualquer aventura intervencionista. Certamente, embora justa, a proposta agora capitaneada pela Venezuela, teria muitíssimo mais abrangência e força política se oriunda do Brasil, tal como o Brasil se empenhou no caso do Irã para convencer a ONU a não dobrar-se aos tambores de guerra. Estes, vale recordar, estão sempre prontos a repicar, especialmente diante da uma crise econômica que não foi vencida ainda pelos EUA, e que pode levar sua economia marcadamente dominada pela indústria bélica, a aproveitar a crise da Líbia para dinamizar a recuperação de sua crise interna, às custas de vidas e mais vidas, como se vê hoje no Iraque e no Afeganistão, sem qualquer vislumbre de solução no horizonte. Mas, para a indústria guerreira, a expansão das encomendas é a própria solução. Sobretudo, se a intervenção militar traz nova possibilidade de privatizar petróleo público, assegurando, sob a cobertura da ONU, uma rapina que não pode ser feita sem demolir as estruturas da Revolução Líbia e transformá-la num novo Kossovo, ou seja, em mais uma base militar dos EUA, como as mais de mil espalhadas pelo mundo hoje.

A política externa brasileira não pode estar associada a qualquer idéia que facilite a concretização deste plano sinistro! Seria sim um distanciamento ou falta de continuidade daquilo que foi construído pelo Itamaraty nos oito anos de Lula. E, para um país que pretende ter assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, não é recomendável deixar de zelar pelo prestígio internacional alcançado pelo Brasil exatamente por sua política externa soberana, independente, criativa e vocacionada para promoção da solução pacífica dos conflitos.

Razões propagandísticas

O passivo endosso brasileiro na ONU a esta escalada de agressividade diplomática dos EUA baseada, por sua vez, num dilúvio de informações manipuladas e jamais comprovadas, nos faz lembrar a tragédia de uma guerra lançada contra o Iraque e seu povo com base na suposta “existência de armas químicas de destruição em massa naquele país”. A semelhança com as “razões propagandísticas” utilizadas por Hitler para expandir o seu exército pela Europa é robusta. Assim como o atentado ao World Trade Center, cuja versão oficial encontra crescente contestação pelos mais eminentes cientistas norte-americanos, atuou como “razão propagandística” a la Hitler para que Bush impusesse sua guerra ao terror, inclusive contra países que mal possuem sistema de água encanada, como o Afeganistão, acusado, paradoxalmente, de ter perpetrado tão sofisticada operação.

Com coragem, o Brasil se opôs oficialmente à ação militar no Iraque no início do governo Lula.. Seria de se esperar a continuidade desta acertada política externa quando agora, contra a Líbia, também se constroem versões - razões propagandísticas – para que aquele território seja ocupado pelos marines. Se manipulação grosseira das teses dos direitos humanos é o que baliza a autorização diplomática para tal monstruosidade militar, é de se esperar condenação a todos que estão hoje encharcando de sangue muçulmano o solo do oriente. A começar pelos EUA que já mataram mais de um milhão de civis no Iraque e , somente nesta semana, despejou bombardeios que causaram a morte de 65 civis no Afeganistão. Por que o Itamaraty não condena tal carnificina?

Caso a intervenção militar da OTAN venha de fato a concretizar-se, nossa política externa deveria ter exigentes motivos para preocupar-se, jamais para, de algum modo, ter colaborado direta ou indiretamente com mais uma guerra. Nem na Guerra das Malvinas o Brasil deixou de reivindicar uma solução negociada e pacífica, o que não impediu de oferecer algum tipo de apoio logístico aos argentinos, seja por meio de aviões, de informações etc. conforme comprovam documentos em posse do estado brasileiro.

Lições para o futuro

Possuidor do maior tesouro de biodiversidade (Amazônia), de riquezas minerais monumentais como urânio, titânio, silício etc e também das reservas petroleiras pré-sal, além de território farto em água, o Brasil tem razões para buscar construir uma política estratégica cuidadosa, sobretudo se e quando as potências imperiais dão passos mais largos e ameaçadores no tabuleiro do xadrez mundial. Qual será o próximo? Diante deste quadro fica evidente porque os EUA impõe vetos ao Programa Nuclear Brasileiro, como ao do Irã, e também ao nosso Programa Espacial, como revelaram os telegramas divulgados pelo Wikiliekes sobre a conduta do Embaixador norte-americano em Brasília a pressionar a Ucrânia para que não transfira tecnologia espacial ao Brasil. Os EUA, anos atrás, já havia pressionado Kadafi a abrir mão do Programa Nuclear líbio. Sem nada em troca, além de sanções, agressões, desestabilizações e bombardeios.

O que é difícil é entender por que o Brasil não faz agora um esforço prioritário para barrar mais uma guerra, associando-se a países que também podem formatar uma resistência internacional a mais esta aventura de uma economia imperial viciada em guerra e petróleo? Será delírio imaginar que no futuro não muito longe seja o Brasil o alvo de sanções simplesmente por dar continuidade ao seu programa nuclear? Vale lembrar que a energia nuclear só é considerada insegura e perigosa quando nas mãos de países como Irã ou Brasil, nunca sob o controle dos EUA, Inglaterra ou França.

Antes mesmo de qualquer investigação ou comprovação, a Líbia já foi penalizada com o congelamento de seus recursos financeiros depositados em bancos internacionais, o que, por outro lado, recomenda acelerar a concretização do lentíssimo projeto de construção do Banco do Sul, onde os recursos dos povos do sul poderiam estar depositados com segurança, não na insegurança dos bancos norte-americanos ou ingleses ou franceses, com um histórico de instabilidade e de fraudes recentes impressionantes.

Descontinuidade com o passado recente

A política externa formatada e aplicada por Lula, que a ela se empenhou pessoalmente em inúmeras viagens, alterou sobremaneira e positivamente a presença qualitativa do Brasil no mundo. Tal política requer consolidação, continuidade e aprofundamento, seja no plano da integração latino-americana, ou com a África, ou com os países árabes e do Oriente Médio, por onde encontram-se instaladas muitas empresas, equipamentos e pessoal brasileiros; como requer também não recuar da linha de diversificação sem se deixar prender por um ou outro grande país. No caso da Líbia, será constrangedor contabilizar o imenso prejuízo para a economia brasileira acarretado pela retirada de empresas e trabalhadores brasileiros. Especialmente se elas vierem a ser substituídas por empresas diretamente vinculadas à indústria bélica, como a Haliburton, já que guerra e petróleo, para os EUA, são atributos de uma mesma política. Mais constrangedor será reconhecer que a política externa brasileira não teria atuado com o protagonismo que poderia exercer e que projetou durante os 8 anos do governo Lula, deixando margem para uma constatação amarga: a de que o endosso passivo e sem questionamento a sanções arrancadas à base de dilúvios midiáticos manipulativos na ONU, teve também alguma participação do Itamaraty. Uma descontinuidade com o passado recente.

Beto Almeida, Jornalista 2, março,2011

O QUE A IMPRENSA NÃO DIZ (SOBRE A LÍBIA).

(Ernesto Germano) – 02/03/2011

Tenho acompanhado atentamente o noticiário sobre os acontecimentos na Líbia e, cada vez mais, impressiono-me com a capacidade da nossa imprensa “tão livre” para deturpar fatos, esconder dados e reproduzir apenas aquilo que os donos da informação desejam que seja divulgado.

Não há isenção ou mesmo equilíbrio nas matérias. A velha regra de “ouvir as duas partes” parece ter sido esquecida pelos nossos jornalistas.

Em alguns jornais de hoje (02/03), as notícias procuram mostrar o povo líbio como pobre e igualam as condições de vida às encontradas no Egito ou na Tunísia, países onde o povo foi para as ruas para derrubar o regime. Mas esta é uma comparação mentirosa!

A Líbia tem uma balança comercial superavitária, superando 27 bilhões de dólares por ano, e uma renda “per-capita” média da população equivalente a 12 mil dólares. Isto significa seis vezes a renda média do Egito, por exemplo!

O país tem 6,5 milhões de habitantes, com um padrão de vida elevado para a região. Comprova isto o fato de cerca de 1,5 milhão de imigrantes viverem na Líbia, onde encontram trabalho e salário digno.

Aliás, este é um ponto curioso para analisarmos. Nos jornais de ontem, principalmente no Globo, vimos uma manchete dizendo que “milhares de imigrantes fogem da Líbia”. Ora, a notícia até seria interessante, para quem não tem um dado comparativo. Mas, se “milhares” fogem do país, o que significa isto se lá residem quase dois milhões de imigrantes?

Ainda tratando da economia líbia, os nossos jornais (tão preocupados com os leitores e a qualidade da informação) esquecem de dizer que a Líbia é um país de economia aberta. A empresa petrolífera italiana ENI realiza cerca de 15% das suas vendas a partir da Líbia, mas não é a única. Lá também operam outras “gigantes” como a BP, a Royal Dutch Shell, a Total, a Basf, a Statoil, a Repsol e muitas outras. A Gazprom (russa) também opera no país, com centenas de trabalhadores, e a empresa de petróleo chinesa tem mais de 30 mil funcionários trabalhando lá!

É verdade que Muamar Kadhafi já abandonou suas posições que o tornaram conhecido pela resistência ao imperialismo. Em 1969, quando assumiu o poder, iniciou uma política independente e nacionalizou o petróleo. Depois da guerra entre árabes e israelenses, ele liderou um boicote entre os países exportadores de petróleo contra os países que haviam apoiado Israel.

Kadhafi modernizou seu país, criando universidades e novas indústrias, além de realizar um incrível projeto de irrigação fazendo surgir uma agricultura desenvolvida onde havia apenas areias do deserto.

Em 1986 Ronald Reagan mandou bombardear a capital líbia. Em 15 de abril de 1986, Trípoli foi bombardeada por 13 modernos aviões dos EUA. O bombardeio terminou com a morte de Hanna, filha de Gaddafi, de 1 ano e 3 meses, e com outros dois filhos feridos. Hoje, o local ainda exibe os danos do bombardeio e a estátua foi erguida para relembrar o episódio.

Depois da Segunda Guerra do Golfo, Kadhafi começou a mudar sua política. Privatizou dezenas de empresas, aceitou a “receita” do FMI e abriu as fronteiras para as grandes empresas multinacionais. Começou neste momento a queda do país e a corrupção se alastrou!

Mas é preciso deixar de lado as notícias falsas da nossa imprensa e fazer uma reflexão sobre os acontecimentos na Líbia. Comparar a crise atual e o movimento oposicionista com o que aconteceu no Egito ou na Tunísia é desconhecer a realidade.

O que sabemos de concreto é que a oposição líbia surgiu em uma região onde há uma resistência muito grande ao clã Kadhafi. Mais do que isto, a Cirenaica é também a região onde operam as principais empresas multinacionais e onde estão os terminais de oleodutos e gasodutos do país. Ou seja, uma região que foi escolhida “a dedo” para ser o berço da “oposição”.

E esta informação tem ainda mais valor se ligarmos ao fato de que a chamada “Frente Nacional de Salvação da Líbia” é uma entidade financiada pela CIA (basta conferir no site do Congresso dos EUA e constatar que está na “folha de pagamentos” da Central).

No dia 23 de fevereiro, o poderoso “Wall Street Journal” já tocava as trombetas da guerra ao estampar em suas matérias que “os EUA e a Europa deveriam ajudar os líbios a derrubar o regime de Kadhafi”. É preciso dizer mais?

Vou completar este texto com algumas informações que já passei em outras participações sobre o tema.

Por que os nossos jornais tão “independentes” pararam de falar de outras revoltas populares (Bahrein, Iêmen, Argélia, etc.) e só comentam o que acontece na Líbia? Qual o interesse dos EUA nesta mudança, a ponto de seu governo anunciar, oficialmente, que está deslocando suas forças militares para a região e a secretária de Estado não descartar uma intervenção?

As revoltas populares na Tunísia e no Egito, derrubando governantes “capachos” dos EUA, foram duras, mas o governo de Washington parece suportar e preparar uma "volta ao poder" por outros meios. Mas os dois países não afetavam o principal neste momento: a questão do petróleo!

A Tunísia nunca exportou petróleo e o Egito parou de exportar há alguns anos (seus poços “secaram”).

Aqui está a diferença, pois a Líbia exporta atualmente 1,6 milhão de barris por dia! E a “urgência” dos EUA para resolver a questão líbia é que as empresas petrolíferas que operam no país estão retirando seu pessoal técnico. Isto pode provocar uma nova crise de petróleo.

É verdade que os países europeus estocaram petróleo para o inverno. Mas... e se os estoques diminuírem? Lembrem-se que a Arábia Saudita também está passando por revoltas populares e em uma crise política séria.

Em julho de 2008, antes da crise se espalhar pelo mundo, o barril de petróleo chegou a valer pouco mais de 147 dólares! Se o petróleo voltar a subir, na atual crise financeira mundial, o que restará aos EUA.

Os EUA, com apenas 5% da população mundial, consomem 25% de todo o petróleo produzido no planeta e metade deste total é importado. As importações estadunidenses alcançam 11 milhões de barris diários, dos quais: 1,6 milhão do México; 2 milhões da Venezuela e o restante do mundo árabe. Pelo que, podemos ver, o país é fortemente dependente da importação do petróleo, seja lá de onde ele estiver, o que justifica as intervenções militares no Oriente Médio e em outras regiões do planeta. (Os dados são de 2008, quando escrevi um artigo sobre o tema, mas creio não estarem muito desatualizados)

Devemos assinalar que o dado mais importante, recentemente divulgado e confirmado pelas organizações internacionais que tratam do assunto, é que as reservas totais de petróleo do planeta chegam, atualmente, a 1 trilhão e 200 bilhões de barris. Ou seja, isto representa, neste momento, pouco mais da metade de todo o petróleo que a natureza produziu em milhões de anos e guardou no subsolo. E, obviamente, este petróleo vai se tornando cada vez mais caro, uma vez que as jazidas em locais de fácil exploração vão se esgotando. E, devemos ressaltar, os institutos e organismos internacionais mostram que 62% do petróleo que resta no planeta está no Oriente Médio.

Para encerrar, uma notícia do jornal Brasil Econômico:

“Estoques de petróleo dos EUA recuam em 400 mil barris! As reservas da commodity atingiram 346,4 milhões de barris. Já os estoques de gasolina caíram em 3,6 milhões de barris na mesma base de comparação, ficando em 234,7 milhões. A utilização da capacidade das refinarias recuou para 80,9% nesta semana, face aos 79,4% na semana anterior. Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (2/3) pelo Departamento de Energia dos EUA (DOE, na sigla em inglês)”.

É, parece que Obama & Cia estão com urgência em resolver o problema de “direitos humanos” na Líbia!

Entrevista Nildo Ouriques do IELA

Brasil de Lula: a naturalização da desigualdade

Escrito por Valéria Nader e Gabriel Brito, da Redação

22-Dez-2010

“A esquerda no Brasil, em primeiro lugar, tem que pensar a revolução brasileira, e o seu programa. Para isso, precisa ser uma esquerda nacional, o que até hoje ela se recusa a ser. Uma anomalia incrível. A esquerda russa é russa, a esquerda cubana é cubana, a chinesa é chinesa, portanto, a esquerda brasileira precisa ser brasileira. Tem de discutir a teoria do capitalismo aqui, discutir uma revolução brasileira, que precisa ser nacional, além de socialista.


Mas, se nossa esquerda continuar eurocêntrica, prosseguirá isolada do povo, não dará um passo à frente. Mais do que crer e rediscutir os atuais partidos, é preciso rever e aprofundar os vínculos orgânicos com o povo e repensar teoricamente o programa da revolução brasileira. “ Nildo Ouriques


Nesta entrevista especial, o Correio da Cidadania conversou com o economista Nildo Ouriques, também membro do Instituto de Estudos Latinos-Americanos da UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina -, para fazer um balanço dos anos Lula e analisar as pré-condições, algumas já anunciadas, do governo Dilma. Para ele, a principal função exercida pelo governo foi a de "refuncionalizar o neoliberalismo". Ao mesmo tempo, desqualifica a suposta ascensão social do povo brasileiro, pois se baseia "nos critérios inaceitáveis do Banco Mundial".


Em sua opinião, o maior ‘legado’ deixado pelo último governo é a constatação de que não é possível alcançar mudanças profundas pelo atual modelo de democracia. Nildo não enxerga muitas possibilidades de o futuro Congresso e Executivo levarem adiante pautas mais progressistas, que garantam maior emancipação popular. Longe disso, devem prosseguir as políticas assistencialistas e a usurpação do Estado em favor das grandes indústrias agrícola e mineral. "Controle eleitoral e alienação política".


Apesar da falta de esperanças no novo governo, o economista espera que Dilma reforce laços com a esquerda latino-americana, abandonando os anseios sub-imperialistas que detecta em nossa política externa. Assim, antes de discutir qual a característica do capitalismo brasileiro, Nildo reclama pela reorganização de uma esquerda socialista e nacionalista, fazendo uma análise das condições de nosso país e pensando numa ‘revolução brasileira’, que inevitavelmente se diferencia das condições de outros processos tomados até hoje como referência.


A entrevista completa pode ser conferida a seguir.

Correio da Cidadania: Qual o seu balanço dos oito anos do governo Lula?

Nildo Ouriques: Uma refuncionalização do chamado neoliberalismo. Aplicou a consolidação do PT como partido de centro-direita, que detinha a legitimidade para falar sobre os pobres e, portanto, aplicar políticas de sensibilidade social. Mas no sentido de colocar os pobres em políticas caritativas, o que é o Bolsa família basicamente, apesar de sua importância. Este é o ponto fundamental. Não emancipa amplos setores dos trabalhadores, atende à questão social, diferenciando-se da direita clássica, mas sem emancipar politicamente. Controle eleitoral e alienação política. Eis o primeiro movimento.

Em segundo lugar, aceita o papel de potência regional dentro da política externa estadunidense, o que implica maiores graus de autonomia em relação à diplomacia do FHC, impulsionando uma política sub-imperialista do Brasil, que de fato tenta praticá-la. Especialmente num período em que o mercado interno se mostra restrito para as necessidades de acumulação de capital das burguesias brasileiras. De maneira que se forma uma combinação.

E, claro, politicamente produz outro fato importante: dentro do atual sistema político não é possível uma alternativa eleitoral. A domesticação do PT significa a caducidade do sistema político, que tinha sido caracterizado pela possibilidade de o PT, dentro das regras do jogo, impulsionar um governo democrático-popular, um mercado interno de massas e, portanto, iniciar o que Florestan Fernandes chamava de revolução democrática.

Dentro de todo esse contexto da política, a característica essencial do Lula neste governo foi a de jamais convocar o povo para uma luta importante. Jamais chamou o povo para enfrentar algum interesse majoritário da burguesia. Essa é a característica essencial.

Correio da Cidadania: Já há alguns anos, desde a chegada de Lula, nos deparamos com as estatísticas que apontam maiores índices de crescimento do PIB e do emprego, ao lado do maior valor dos rendimentos...

Nildo Ouriques: Como diria Álvaro Vieira Pinto – e pode escrever isso -, o que é o PIB? Construir e destruir uma casa entra no cálculo. O PIB diz muito pouco. Discutir se ele cresceu, baixou... Já está na hora de superarmos isso. Taxas de crescimento, taxas de acumulação de capital que ultrapassem 5%, 6%, 7%, taxas chinesas, num país tão desigual como o nosso não significam muita coisa.

Correio da Cidadania: No entanto, esses fatores citados, aliados aos maiores reajustes concedidos ao mínimo e ao incremento das políticas assistencialistas, como o Bolsa Família, respaldam várias análises sobre a redução da pobreza e da miséria e a ascensão à classe média de uma parte da população. Qual é o significado, ou o teor de verdade, dessas análises?

Nildo Ouriques: Bem, se continuarmos adotando como critério de pobreza o critério do Banco Mundial, de US$ 1,3 diário... Mas ninguém aí no Correio da Cidadania aceitaria para si próprio esse padrão. US$ 1,30 faz parte de uma metodologia do Banco Mundial. Ninguém da imprensa, ninguém que ler isso, toparia entrar na classe média nesses termos.

O fato é que 76% da População Economicamente Ativa ganha até 3 mínimos, 1500 reais. Significa que o poder de compra do mercado interno é limitado.

E essa onda, mais intensa até setembro de 2008, já começou a desaparecer em várias partes do globo, nos EUA, Europa, Ásia, Oriente Médio e também na América Latina. No Brasil, vai se manifestar tardiamente, mas não tenha dúvida de que o emprego vai se reduzir e inclusive os salários com carteira assinada de quem está sendo contratado agora estão em níveis mais baixos que aqueles anteriores.

De maneira que não podemos tomar esse momento absolutamente passageiro como uma tendência do capitalismo brasileiro. O que se confirma é o contrário: a super-exploração dos trabalhadores. Exatamente quando o período de acumulação foi mais intenso, com taxas de crescimento mais altas, a resistência à redução da concentração da renda também foi muito intensa.

Portanto, temos de sair desse imaginário católico – da exclusão, da pobreza – e do discurso tecnocrático que interessa tanto a Lula quanto a FHC, tanto a tucanos como a petistas, ou seja, ao consórcio petucano.

Correio da Cidadania: Então, toda essa cadeia de fatores mencionados como positivos aos quatro ventos pode ser desqualificada, uma vez que passou longe de reduzir as abissais desigualdades do país?

Nildo Ouriques: Dá pra desqualificar no sentido de que a pobreza está sendo reduzida, mas não está sendo enfrentada estruturalmente. Os programas de alcance e certa sensibilidade popular não reduzem a pobreza, ainda que tirem momentaneamente alguns da linha de pobreza e miséria - sob os critérios inaceitáveis do Banco Mundial.

Assim, todo esse crescimento foi não apenas abaixo do que se propagandeia, como também foi abaixo do que o país precisava para se tornar protagonista mundial e fazer um ajuste de contas com sua história.

Correio da Cidadania: Como você avalia o processo eleitoral que culminou na vitória de Dilma Rousseff?

Nildo Ouriques: Em primeiro lugar, a esquerda radical com a qual me alinho não existiu eleitoralmente. Em segundo lugar, precisamos de um amplo, que será lento, processo de reconstrução de uma esquerda socialista, nacionalista e revolucionária no Brasil. É um longo processo. Em terceiro, precisamos disputar tanto no meio social quanto no meio eleitoral. E em quarto, a hegemonia burguesa no processo eleitoral foi completa, porque, a rigor, as diferenças entre Dilma e Serra eram anedóticas, e não substanciais.

Desse modo, o processo eleitoral se caracterizou por não passar o país a limpo. O que significa que hoje, concretamente, o processo eleitoral não é um instrumento de mudança no Brasil, mas de manutenção da ordem.

Correio da Cidadania: A atuação da esquerda socialista nesta eleição, representada essencialmente pelo PSOL, PCB, PSTU e PCO, não existiu, a seu ver?

Nildo Ouriques: Eleitoralmente não existimos, não há como ter ilusões sobre isso. Mas acho que também se alimentou uma indiferença ao processo eleitoral. Nossa insignificância eleitoral mostra que temos escassos vínculos sociais com o que há de organizado no povo. Essa é a gravidade da situação.

Correio da Cidadania: A expressiva votação obtida por Marina deve ser encarada como um capital para que a candidata se confirme como força política de peso no país, carregando a bandeira da Terceira Via e do Ambientalismo, ou estamos diante de mais um fenômeno eleitoral que, como tantos, tende a, mais dia menos dia, se esgotar?

Nildo Ouriques: A candidatura da Marina foi uma fraude completa. No sentido de que ela é uma lulista, uma expressão do cinismo moderno na política. Fica sete anos como ministra do Lula e aparece na última hora se apresentando como alternativa.

Além disso, aparece com o discurso da cordialidade brasileira, querendo eliminar as pequeníssimas divergências do consórcio petucano.

Em terceiro, uma representante do discurso ecologista absolutamente dentro da ordem. Não tem anti-imperialismo e nem anti-capitalismo no discurso dela.

E além do mais, há um outro prejuízo notável: ela é expressão de evangelização da política, o fenômeno político mais nocivo que ocorreu no Brasil nos últimos anos. A República é laica, a política é laica, portanto: fora o discurso religioso, fora o crucifixo da sala de aula.

Correio da Cidadania: Ainda assim ela não pode se impulsionar no cenário político, mediante a votação que obteve esse ano e a clara falta de opções políticas nas disputas?

Nildo Ouriques: Espero que não. Não creio que ela vá se alavancar assim. Acho que o futuro será mais complicado para ela.

Correio da Cidadania: Qual a sua avaliação da nova composição ministerial, destacando-se as incisivas exigências do PMDB para aumentar a sua cota de participação...

Nildo Ouriques: Expressa a mesma composição social, a mesma priorização do Congresso, a mesma correlação de forças, o mesmo projeto. Continuidade completa. Os ministros hoje são absolutamente incapazes de assinalar algum rumo.

O ministro da Fazenda? Funciona com base no consenso formulado pela FEBRABAN, FIESP, latifúndio, Banco Mundial, FMI... Enfim, nenhum ministro se destaca em nada.

Correio da Cidadania: E quanto à troca de comando no Banco Central e a saída de Celso Amorim do Ministério das Relações Exteriores, considerado como um dos ministros que se mantiveram entre a ala progressista na Esplanada lulista, a despeito de críticas em contrário?

Nildo Ouriques: Acho que a passagem do Celso Amorim foi positiva no sentido de que começou a abandonar, ao menos em alguns casos, a clássica subalternidade do Itamaraty à embaixada de Washington. Mas estivemos longe de uma política externa independente, muito longe.

Correio da Cidadania: Além de ter externado preocupações com o alegado déficit da previdência, justificando ser impossível aumento dos benefícios acima do mínimo, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, já apresentou uma proposta de política fiscal para o país, cuja essência é que as despesas correntes primárias cresçam menos que o Produto Interno Bruto (PIB). Sabendo-se que essas despesas incluem os salários do funcionalismo, a previdência e assistência social, podemos esperar medidas duras de restrições aos gastos sociais?

Nildo Ouriques: No primeiro ano, haverá um programa de ajuste fiscal óbvio para preparar o segundo ano, com as eleições para prefeito e criação dos futuros comitês municipais para as eleições de 2012. Em primeiro lugar, portanto, vem o calendário político.

Em segundo lugar, existe uma necessidade de sair da ordem de acumulação de capital em escala mundial. Mas não haverá um ajuste de magnitude, tal como o grego ou o irlandês, pois o reforço da condição de nosso país como exportador de produtos agrícolas e minerais, o que gerou este ano uma renda de quase 45 bilhões de dólares, criou um colchão que consolida uma estrutura de país tipicamente subdesenvolvido.

Portanto, o ajuste não precisa ser tão intenso quanto em outras circunstâncias seria. Se houver uma redução global dos preços das mercadorias, daí o ajuste tende a ser permanente. Não é, no entanto, o que está se desenhando.

Correio da Cidadania: O que pensa sobre a maioria parlamentar obtida pelo governo no Congresso a partir dessas eleições, considerando-se a bancada formada por PT, PMDB e demais partidos aliados, ao lado da regressão do PSDB e DEM? Será azeitado o percurso rumo ao desmonte de direitos sociais, ou há uma remota chance de esta maioria governista trabalhar em favor de algumas pautas progressistas, como reforma agrária, direitos sociais e de minorias?

Nildo Ouriques: Absolutamente normal a formação dessa maioria. Qual governo do Brasil não conseguiu uma maioria parlamentar? Os erros de campanha do PSDB e do DEM cobraram seu preço, mas não alteram em nada a República. O presidente sempre faz a maioria que quer.

E não vejo nenhuma possibilidade, longe disso, de tais pautas progressistas serem levadas adiante. A bancada é tão fiel ao governo quanto disciplinada no programa predominante.

O parlamento não tem capacidade de impor uma pauta ao Executivo nacional. E não o fará.

Correio da Cidadania: O historiador Mário Maestri relata que o atual momento eleitoral retrata ‘Derrota Histórica do Mundo do Trabalho’, algo que já estaria inscrito na primeira eleição de Lula à presidência, uma vez que a liquidação da autonomia política dos movimentos sociais foi a condição imposta pela burguesia para a entrega do governo a Lula. O que pensa disto?

Nildo Ouriques: Acho que há aí um pouco de uma leitura saudosista do que foi o Lula. Em segundo lugar, mundo do trabalho é uma expressão muito cara a Jose Marti, que a usou em 1883, quando falava sobre a morte de Marx. Mas a chamada derrota dos trabalhadores teria de ser discutida mais longamente.

O chamado novo sindicalismo nunca aceitou uma análise do subdesenvolvimento e da dependência. Quero dizer que o novo sindicalismo sempre duvidou que o capitalismo no Brasil fosse incapaz de atender as maiorias. E o Lula, ainda que combativo naquelas épocas, era mais expressão de uma revolta contra a super-exploração do trabalho, tal como formulou Rui Mauro Marini em Dialética da Dependência, do que de um projeto socialista.

Portanto, isso precisa ser melhor avaliado em termos históricos.

Correio da Cidadania: Qual a sua avaliação da atual conjuntura internacional e nacional, no que se refere à crise financeira que explodiu em 2008? A despeito do caráter mais estrutural da crise, a conjuntura econômica estabilizou-se realmente, ainda que países europeus mais fragilizados, como Irlanda, pareçam ser a bola da vez?

Nildo Ouriques: A atual conjuntura internacional é favorável aos trabalhadores. Desde setembro de 2008 mudou a conjuntura mundial. O encanto do capitalismo foi quebrado por uma crise que causou a perda de 50 milhões de empregos, colocando uma quantidade impressionante, mais de 40 milhões, abaixo da linha de pobreza.

A crise não terminou e nem vai terminar. Significa que esse capítulo segue em aberto. Os trabalhadores estão observando que vêm pagando um preço violentíssimo. Por isso haverá resposta, como já está havendo na Europa, EUA, e mesmo na China, Japão e América Latina.

Correio da Cidadania: Então o que ocorreu com a Irlanda é uma tendência que ainda será seguida por outros em breve?

Nildo Ouriques: É claro. Itália, França... A crise está abrindo um novo capítulo da luta de classes européia.

Correio da Cidadania: Como o Brasil, nas mãos de Dilma, enfrentaria uma crise econômica, caso ela venha a bater em nossas portas, como ocorreu em 2008? A situação ficaria mais difícil de ser contornada sem Lula, vez que estamos diante de uma personalidade sem a mesma experiência e predicados políticos?

Nildo Ouriques: Não sei. É difícil fazer prognóstico. Na periferia capitalista, sempre é difícil contornar. E se for necessário apertar os trabalhadores, não deixará de fazê-lo, como já mostrou.

Correio da Cidadania: O sociólogo Francisco de Oliveira, em entrevista ao Correio, declarou que o governo petista pode ser tomado como mais privatista que o governo FHC. Não propriamente em função das privatizações sorrateiras através das várias Parcerias Público-Privadas efetivadas sob Lula, mas na medida em que ele consolidou o capitalismo monopolista de Estado. O que pensa disto e como deve caminhar o governo Dilma neste sentido?

Nildo Ouriques: O que ele quer dizer com isso? Não há nenhuma novidade. O capitalismo monopolista de Estado é uma teoria que o Chico de Oliveira requenta. O fundamental não está aí. O Brasil é um país dependente e periférico, subdesenvolvido. E essa é a questão. O Chico de Oliveira tem um problema em enfrentar o tema do desenvolvimento.

Ele andou muito lá no CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento); portanto, ficou contaminado por isso, e nunca aceitou o tema do subdesenvolvimento. Passa longe do horizonte intelectual dele. Não é isso que está em questão. O Brasil deixou de ser um capitalismo periférico, e agora é capitalismo monopolista de Estado: qual a vantagem analítica desse enfoque? Não vejo.

Correio da Cidadania: No caso, seria ressaltar a consolidação de parcerias entre o governo e os principais agentes privados em setores estratégicos e rentáveis, conformando nova modalidade de transferência de patrimônio e riquezas públicas e sociais para mãos particulares.

Nildo Ouriques: Essa teorização toda é uma bobagem. Qual a natureza do Estado aqui? Capitalista. Isso até a sociologia do Octavio Ianni já havia descoberto lá atrás: é a ditadura do grande capital. Na periferia capitalista seria diferente por quê?

Correio da Cidadania: Ainda assim, em linha direta de oposição a esta constatação da linha privatista sob Lula, governo, apoiadores e até mesmo uma parte da grande mídia – mesmo que a partir de interesses divergentes - têm incisivo discurso sobre a ‘retomada’ do papel gerenciador e referenciador do Estado na economia, do que o PAC seria forte evidência. O que pensa disto?

Nildo Ouriques: Bobagem. Capitalismo não existe sem Estado. Se ficarmos discutindo aqui que houve um período neoliberal a ser sucedido por outro desenvolvimentista, vamos aceitar que o grande antagonismo na sociedade brasileira é entre tucanos e petistas.

Os capitalistas sabem que quando era pra privatizar contaram com o FHC. Quando era pra controlar e repassar a poupança nacional do BNDES pra salvar os grandes lucros, contaram com o Lula. Não há diferença nenhuma. Se os tucanos estivessem no poder provavelmente teriam feito tudo igual, a negociação do Antonio Ermírio, da saúde, da Votorantim, como fez o Lula. É da natureza do Estado.

Há muito tempo a sociologia brasileira deixou de estudar o Estado. Está mais interessada em políticas públicas. É um desastre analítico. O resultado tem sido apenas uma tentativa do mundo universitário de buscar acomodação nas verbas do governo, mas não tem oferecido mais lucidez analítica.

Ora, o Estado vai continuar intervindo, privatizando, colocando essa imensa poupança nacional a serviço do fortalecimento de grupos industriais de natureza agrícola e mineral. É um desastre deixar de fazer tais análises!

Correio da Cidadania: Como deverá caminhar a diplomacia de Dilma no que se refere ao relacionamento político e econômico com os demais países da América Latina, especialmente aqueles que carregam as pautas mais progressistas, e polêmicas, como Venezuela e Bolívia? Haverá, em sua opinião, mudanças significativas relativamente à gestão Lula?

Nildo Ouriques: Não diria que são polêmicos as pautas dos países citados. A Venezuela tem um horizonte socialista. Não podemos reforçar esses estigmas. Espero que o governo tenha uma linha de atuação muito mais próxima aos países progressistas da América Latina, porque sem ela o Brasil fica muito mais fraco. O Brasil precisa ter aliança com a esquerda latino-americana.

Em segundo lugar, é preciso avançar para além das limitações que a nossa política externa vem sofrendo. Abandonar a política sub-imperialista, ter uma melhor idéia de integração, atuar numa linha mais claramente anti-Washington, sem a qual não há avanço diplomático, econômico, político e cultural.

Não é só isso. Precisamos criar uma política cultural que varra a indústria cultural estadunidense de nossas vidas, desde a infância, de todos nós. É necessária uma mudança radical na política cultural, que precisa ser claramente antiimperialista.

Não acredito que a presidente vá fazer isso, mas gostaria.

Correio da Cidadania: E também reforçar mecanismos e instituições regionais...

Nildo Ouriques: Precisa ver se vão se concretizar Unasul, Banco do Sul, Conselho de Defesa... De toda forma, a Avenida Paulista vê tudo isso com muita restrição.

Correio da Cidadania: Quais são as perspectivas da Esquerda? Acredita que deva ser reconstituída uma frente de esquerda?

Nildo Ouriques: A esquerda no Brasil, em primeiro lugar, tem que pensar a revolução brasileira, e o seu programa. Para isso, precisa ser uma esquerda nacional, o que até hoje ela se recusa a ser. Uma anomalia incrível. A esquerda russa é russa, a esquerda cubana é cubana, a chinesa é chinesa, portanto, a esquerda brasileira precisa ser brasileira. Tem de discutir a teoria do capitalismo aqui, discutir uma revolução brasileira, que precisa ser nacional, além de socialista.

Mas, se nossa esquerda continuar eurocêntrica, prosseguirá isolada do povo, não dará um passo à frente. Mais do que crer e rediscutir os atuais partidos, é preciso rever e aprofundar os vínculos orgânicos com o povo e repensar teoricamente o programa da revolução brasileira.

Correio da Cidadania: E quanto aos movimentos sociais, especialmente o MST, como devem seguir no governo Dilma a seu ver?

Nildo Ouriques: O movimento social está, digamos assim, de crista baixa. Espero que o MST mantenha-se combativo, coloque o tema da Reforma Agrária sempre em evidência e que não sucumba ao governismo, entenda que o melhor que pode passar ao movimento, e a todos nós, é a manutenção da independência. E, sobretudo, que compreenda que, se não mantiver essa autonomia, vai, necessariamente, recuar em termos de luta política. E a direita avançará.

Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista.