Entrevista comigo no Fazendo Média. Espero que gostem...



“Se o povo não for pro pau ele não vai ter nada”Por Eduardo Sá, 05.10.2009


Aurélio Fernandes era químico quando em seu primeiro trabalho, ainda adolescente, percebeu a exploração aos trabalhadores. Foi demitido aos 19 anos, por tentar reverter esse cenário na empresa onde trabalhava. Arrumou outro emprego, mas largou tudo, por vocação, para ingressar na área de história: nesse período estabeleceu o seu primeiro contato com a política. Intrigado com a figura de Brizola, demonizado por uma parte da sua família e admirado por outra, acabou se aproximando do Partido Democrático Trabalhista (PDT), após assistir um debate na televisão, em 1982, com a participação do “velho” para as eleições do Estado do Rio de Janeiro e descobrir quem era Darcy Ribeiro, então candidato a vice-governador. Entrou para a campanha e no ano seguinte já estava filiado ao partido, no qual fez sua formação ideológica, apesar de sempre manter posições críticas nas discussões. No ano 2004 foi candidato a vereador, quando constatou na prática as suas teorias: “a democracia que a gente vive é uma tremenda farsa”. Depois, já percebendo “o processo de degeneração do PDT”, participou da criação dos Círculos Bolivarianos Leonel Brizola que, em 2007, criaram o Movimento Revolucionário Nacionalista (MORENA) – Círculos Bolivarianos. Há três meses Aurélio se desvinculou do partido, continua professor na rede pública estadual do Rio de Janeiro e se dedica inteiramente à militância no Morena, cujo movimento ele apresenta na entrevista a seguir.

Como surgiu o MORENA?

Organizávamos uma corrente dentro do PDT denominada PDT pela esquerda. Em determinado momento a conjuntura interna do partido nos levou a desarticulá-la e então criamos o Coletivo de Educação Popular. Era praticamente uma continuidade mas prestava assessoria aos movimentos populares, na área sindical, através de seminários e outras atividades. Iniciamos um trabalho de educação política na Federação de Favelas do Município do Rio de Janeiro.

Logo após a tentativa de golpe na Venezuela começamos a debater nas favelas o filme “A revolução não será televisionada”. Este filme é uma produção de dois jornalistas irlandeses e tem uma mensagem muito interessante: o Chávez é um coadjuvante, não é o protagonista do filme, o protagonista é o povo. Mostra o povo mais pobre se mobilizando, se conscientizando, se organizando, para enfrentar um golpe. O curioso é que quando você passa nas favelas, o pessoal se identifica. Vêem ali o seu semelhante, na forma de se colocar, na forma de agir, nas contradições, enfim em tudo, e dá uma sensação de “empoderamento”. Eles percebem que a política pode ser muito mais. Estávamos fazendo um trabalho desse tipo e a embaixada soube, não sei como.

A embaixada da Venezuela?

Isso, entrou em contato com a gente e queria depoimentos de lideranças comunitárias em defesa do mandato do Chávez, porque estava tendo plebiscito revogatório na venezuela. Aí conversamos e conseguimos mobilizar sete lideranças comunitárias que se propuseram a dar os depoimentos. O que nos chamou atenção é que em seus depoimentos, as lideranças comunitárias mais velhas faziam ligações com a década de 60 e com o Brizola: aqui no Brasil teve também uma liderança parecida à beça com o Chávez que foi o Brizola, aí falavam dos posicionamentos políticos de Brizola na resistência ao golpe de 64, na campanha da legalidade e nas reformas de base e dos projetos que o Brizola fez em seus governos.

Quando terminamos surgiu uma reflexão em todos nós: curioso, a gente podia trabalhar alguma coisa nesse campo, hoje temos uma revolução bolivariana… Aí nós despertamos. O que é essa revolução bolivariana? Ainda não tinha ocorrido os processos bolivarianos na Bolívia, no Equador,. Nós achávamos que era um processo muito venezuelano. Mas por que a gente não discute isso? Vamos aproveitar e sentar para aprofundar essa discussão: O que é isso, o que não é, o que nós podemos fazer? Na época militávamos no Comitê de Solidariedade aos Povos em Luta na América Latina junto com um padre colombiano, e ele propôs: por que vocês não constroem um círculo bolivariano? Legal, tá aí, é uma idéia... Começamos a discutir e um companheiro perguntou: por que não criamos um circulo bolivariano Leonel Brizola? Pô, mas aí vai ficar uma coisa muito vinculada ao PDT? Não, vamos começar a desmistificar isso, o Brizola não é do PDT, o legado de Brizola é um patrimônio do povo brasileiro, como o Marighella, o Prestes, e é bom que essa iniciativa contribua para desmistificar isso. Então vamos fazer? Assim iniciamos a discussão sobre o Círculo Bolivariano Leonel Brizola cerca de cinco meses após a sua morte. Esse primeiro círculo surge em novembro de 2004.

Então aconteceu o que?

Os jovens do grupo inicial resolveram criar um círculo bolivariano de juventudes Che Guevara. Haviam os professores, criamos o círculo bolivariano de educadores Paulo Freire. Aí já não é mais um círculo bolivariano Leonel Brizola, transformou-se em um movimento: Círculos Bolivarianos Leonel Brizola / CBLB(m). O pessoal confundia como um espaço vinculado ao PDT. Para complicar, definimos o símbolo do CBLB(m) com outra intenção e acabou dando errado, esse desenho do Che com a rosa não tem nada a ver com o PDT. Foi um desenho de uma camiseta cubana que um companheiro ganhou quando participou de uma brigada de solidariedade a Cuba. Abaixo do desenho havia uma frase: “podem matar uma rosa, mas nunca conseguirão deter a primavera”, que é uma frase do comandante Che.

Fizemos uma panfletagem em 2005 no Fórum Social Mundial, um manifesto, 10 mil impressos em Xerox. Um repórter da Folha de São Paulo achou curioso um círculo bolivariano no Brasil. Ele fez uma entrevista com a gente, pensamos que não ia dar em nada, saiu ¹/4 de página no jornal. Procuraram o presidente do PDT, Carlos Lupi e ele declarou: Não, não tem nenhuma ligação com o PDT, a gente nem sabia que isso existia, mas entendemos que não tem problema nenhum em utilizar o nome de Brizola. Ficou uma matéria boa, saiu no Rio Grande do Sul, saiu em outros jornais, então começou a pipocar contato, o pessoal da Bahia, do Distrito Federal, de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul…

Pessoal querendo participar?
Pessoal interessado, em função até dessa reportagem. Em São Paulo já havia um círculo bolivariano anterior ao surgimento dos nossos, mas ele se propunha a fazer solidariedade à Venezuela, não era um círculo bolivariano que tivesse a opção de discutir a revolução bolivariana no Brasil.
Termina 2005, vem 2006 e chegamos a conclusão da necessidade de ter um espaço físico para desenvolver um referencial. Nós já desenvolviamos um trabalho aqui na Federação de Favelas (FAFERJ), daí conversamos com a diretoria e propusemos fazer um projeto em conjunto: vamos criar a Casa Bolivariana! Vai ser o seguinte: a FAFERJ não tem dinheiro, não tem recursos, tem uma dificuldade muito grande de se manter, então nós vamos alugar uma sala diminuta por 200 reais por mês, nesse preço a gente podia alugar até em outro lugar, mas a gente quis manter uma sede dos círculos bolivarianos em uma federação de favelas exatamente pela mística do local,.

A partir daí transformamos, em um projeto conjunto com a diretoria da FAFERJ, o auditório da entidade no espaço Casa Bolivariana, um espaço de poder popular, ou seja, a Casa Bolivariana não é a sede dos círculos bolivarianos. É um espaço na FAFERJ que quem esteja identificado com a lógica do poder popular e quiser, pode fazer reunião aqui, a gente libera o espaço. Esse espaço estava cheio de lixo, era um depósito, fizemos uma limpeza, um mutirão. Já está no terceiro mutirão, foi bem pior do que está hoje, na primeira vez não tínhamos muitos recursos, principalmente financeiros. O movimento foi crescendo, a gente começou a auto-sustentação, cada companheiro contribui e com isso conseguimos uma estrutura um pouco melhor, daí pintamos o teto, fizemos a parte elétrica, compramos quadros. Em 2006, inaugurarmos a Casa Bolivariana com a presença de representantes do Congresso Bolivariano dos Povos, com sede na Venezuela, do Instituto Cubano de Amizade entre os Povos e homenageamos a presidente da Associação José Martí de solidariedade a Cuba.

E de onde surgiu a necessidade de se criar um jornal?

Nós queríamos fazer desde o início, antes da primeira assembléia bolivariana nacional em 2007. O nome do jornal “O Panfleto” tem uma ligação direta com as lutas antiimperialistas, populares e classistas da década de 60. Quando começamos a discutir a criação dos círculos bolivarianos, uma questão que também me chamou a atenção foi o fato de ser muito parecido com o grupo de onze, os comandos nacionalistas que o Brizola organizou para fazer a resistência meses antes do golpe civil-militar de 64. E esses grupos de onze aglutinavam a base do PCB, do PSB, do PTB, trotskistas, a Polop, um monte de organizações. A professora Vânia Bambirra tem um artigo no qual ela fala que esses grupos de onze provavelmente seriam o embrião de um novo partido revolucionário que estava surgindo no bojo do processo político na década de 60. Esses grupos de onze mantinham um jornal cujo nome era “O Panfleto”.

Vocês buscam também resgatar essa memória…
Um realidade curiosa com a qual brincamos muito é que parecemos uma organização política de professores de história. Muitos estudantes de história se identificam, professores também, não sei se é devido a defesa que fazemos sempre de resgatar a história brasileira. Um dia um de nossos professores levantou a seguinte questão: Vocês sabiam que logo depois do golpe de 64, quando se discutiu a organização da resistência entre o pessoal vinculado ao grupo dos onze, o Brizola propôs a criação do Movimento Revolucionário Nacionalista, cuja sigla seria Morena?

Brizola afirmava que essa sigla tinha a ver com a cara da esmagadora maioria povo pobre brasileiro, que não era branco europeu, era moreno e negro e tal. Então era um nome que vinculava a questão ideológica, o nacionalismo revolucionário, a libertação nacional e ao mesmo tempo pegava esse sentimento de brasilidade. Então porque a gente não retoma esse nome? Assim em 2007 na I Assembléia Bolivariana Nacional fundamos o Movimento Revolucionário Nacionalista – círculos bolivarianos. Ah, mas aí a esquerda não vai entender. Ah, dane-se a esquerda, o nosso discurso não é para a esquerda entender.

Não é pra jogar para a torcida…

Não é isso, entendemos que é esse discurso que mais nos aproxima daqueles que pretendemos catalisar no processo revolucionário. Não é representar, porque a gente acha que a organização política não representa o povo, ela pode ser o catalisador do processo – daí vem a minha influência da formação em química…

Esse conceito de catalisador para o campo social faz até sentido…

Muitos tentam definir o que é vanguarda. A melhor definição que eu consegui fazer é a do catalisador no processo químico: você tem lá os dois reagentes e não acontece reação nenhuma, daí você coloca duas gotinhas de um outro reagente, que é o catalisador, e acontece uma reação violentíssima e surgem novos produtos completamente diferentes. Ou seja, o catalisador quantitativamente não é quase nada, mas é fundamental, sem ele não ocorreria a reação. Nós entendemos o papel da vanguarda dessa forma, a vanguarda objetiva. Quem vai fazer revolução é o povo, a classe trabalhadora.

O papel da vanguarda é ser o catalisador, é descobrir qual é o projeto histórico que mobiliza a maioria desses trabalhadores, qual a metodologia de luta que vai mobilizar essa maioria para a luta e forjar quadros na classe para construir esse instrumento político. Não é auto proclamatório. Nós não temos a ilusão de que o MORENA vai ser a vanguarda da revolução brasileira. Nós queremos contribuir com esse processo de construção da vanguarda: isso pode até ser ilusão da nossa parte, mas a gente alimenta.

Uma coisa que sempre frisamos muito: o companheiro tem que estudar, porque conhecimento é fundamental na luta. Alguns militantes e dirigentes nossos entraram na UERJ e alguns acabaram ingressando no Centro Acadêmico de história (CAHIS). O CAHIS resolveu fazer um debate sobre o golpe militar de 64 e para o nosso espanto o auditório ficou cheio, o pessoal sentado no meio daquelas cadeiras, a lista tinha 350 pessoas. Não era gente só de história, tinha pedagogia, direito, sociologia, foi uma surpresa, alguma coisa está acontecendo e a lógica que colocamos no debate era discutir o golpe de 64 numa visão de retomar uma memória que a ditadura tentou e o sistema tenta manter esquecida.

Encheu, foi uma discussão muito legal e vários jovens e professores nos procuraram querendo discutir, participar, entender o ponto de vista do MORENA. Isso também estimulou muito para a criação do jornal, se existe esse clima temos que botar a nossa cara pra fora, temos que mostrar o que nós somos, até para as pessoas conhecerem, para poderem se aproximar, para o MORENA se organizar e cumprir o papel que acreditamos poder cumprir nesse processo.

Além disso, quais tipos de atividades vocês realizam?

Fora a atuação em universidades e uma atuação incipiente no movimento sindical, aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, militantes do movimento de sem teto e do movimento comunitário de favelas vinculados ao MORENA decidiram contribuir na reconstrução do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). Isso começou a partir do apoio do MORENA a ocupação Serra do Sol na zona oeste. Esse trabalho resultou na criação do círculo bolivariano de trabalhadores sem teto Carlos Marighella e na ampliação da área de atuação do círculo bolivariano de favelas Hugo Chávez Frias.

Mas o MTST é muito mais amplo que nossos militantes, entendemos que deva ser um movimento de massa. Nós não vemos o movimento social como uma correia de transmissão da nossa organização, inclusive combatemos isso. Entendemos que se um movimento social se transformar em correia de transmissão de um partido político, pode ser de direita, de esquerda ou o que for, ele não vai cumprir o seu papel revolucionário: ele tem que ser uma força social autônoma, independente, para não acontecer, por exemplo, o que aconteceu agora no governo Lula.

A maioria dos movimentos sociais era correia de transmissão do Partido dos Trabalhadores e aí quando o PT entra no governo o que acaba acontecendo? Esses movimentos acabam entrando no governo, e o que é mais grave, fazendo a política do governo. Ao invés de combater no sentido positivo da coisa, exigindo do governo suas demandas históricas, eles tentam adaptar o movimento ao que o governo pode estar oferecendo em determinado momento e assim não há processo revolucionário que avance. O papel do movimento social é estar chicoteando qualquer governo, exigir as suas demandas, se isso não acontecer não vai mudar nada. E o papel do partido político qual é? É estar disputando o poder, estar aproveitando essa luta política para mostrar as limitações do sistema capitalista para chegar ao poder. Não é ao governo, e daí fazer uma verdadeira transformação social.

Hoje o que acontece na Venezuela é isso, os movimentos sociais vão todos para cima do governo e ele tem que dar resposta. Se não der resposta a tendência é se adaptar, ou pior o processo pode caminhar para a direita atendendo aos interesses mais poderosos do capital. E essa a luta que se trava na Venezuela. Algumas organizações de esquerda não conseguem entender o processo venezuelano, que aquele processo não é uma transição socialista. A Venezuela ainda está em uma transição rumo ao socialismo e não em um processo de transição socialista.

É muito complicado, porque se o movimento social não tiver força social autônoma, independência perante os governos, não consegue empurrar esse processo para frente. Não é o governo, é o processo, o governo é mais uma frente de luta, porque vai chegar um momento que vai surgir uma dualidade de poder. Vai chegar o momento em que as contradições vão se acirrar mais e aí vai ser a hora de realmente tomar o poder: vai ser a hora do processo de transição socialista. E isso é um processo ininterrupto, não são etapas. Poderia ser diferente, poderia acontecer como aconteceu em Cuba, onde os caras derrubaram uma ditadura. Mas não é o caso da Venezuela, não é o caso da Bolívia, não é o caso do Equador. Em Cuba eles derrubaram pela via armada uma ditadura e eles já tinham o poder nas mãos do exército rebelde, e mesmo assim, só vão assumir o processo de transição socialista em 1961.

E na prática, qual a função desse espaço aqui, por exemplo?

Aqui [sede do Morena] nós passamos filmes de formação, fazemos nossas assembléias, é um espaço aberto. Já ocorreram várias reuniões: do MST, do pessoal de economia solidária, da Famerj, da Consulta Popular, de Associação de Moradores, do MTST. É um espaço de fomento de poder popular que tentamos tornar o mais amplo possível em sua utilização politica. Como organização usamos para reunião dos círculos bolivarianos pois nosso principal desafio é dar uma organicidade ao movimento pela base.

Então o espaço é usado pelas nossas missões: a missão Lênin, relativa às questões de organização que estimula esses círculos bolivarianos, monta cartilha, faz reunião, vê a questão de finanças, vende material. A missão Rui Mauro Marini de formação política que organiza debates, cursos, esse ano a gente tem um sobre a América Latina: sábado agora vai ser a Colômbia, é uma experiência que estamos fazendo desde março, discutindo num sábado do mês um país específico, conta toda a sua história, a sua luta revolucionária.

Questionamos muito a questão do eurocentrismo, sentimos que esse é um dos grandes problemas da esquerda brasileira. Ela está voltada de frente para a Europa e de costas para a América Latina, daí a incapacidade de entender o papel do nacionalismo revolucionário. A incapacidade de entender que o nacionalismo revolucionário não tem nada a ver com o fascismo, não tem nada a ver com a direita. Todos os processos revolucionários na América o que mobilizou o povo na esmagadora maioria deles foram bandeiras democráticas populares anti-imperialistas, logo nacionalistas revolucionárias. Mas não conseguem entender, e por quê? Porque o referencial deles é a revolução russa, a luta da social democracia ou da esquerda radical na Europa. Não conseguem olhar para as lutas populares e classistas de nosso continente e aí vêem a realidade brasileira enviesada: a nossa história acaba não sendo entendida e, portanto, não é contada.

Por que esse estímulo à memória, a busca da história brasileira?

Para entender como a classe trabalhadora construiu sua consciência. Culturalmente falando, por que ela não é tão participativa, para você poder trabalhar tudo isso em sua estratégia e tática politica. Por que o Getúlio é um referencial popular e da classe quando fazem uma pesquisa? Em aula, às vezes, você chega para o aluno e pergunta: qual foi o maior presidente que o Brasil já teve? Um adolescente de 15 anos responde Getúlio. Por que Getúlio? Ah, porque o meu avô fala isso, meu pai fala isso, meu tio fala isso. Por que isso acontece? De onde vem isso? É meramente fruto de uma manipulação? Ou realmente houve um tipo de processo que atingiu os interesses da classe, claro que limitadamente, e construiu um nível de consciência?

O que a gente quer? A gente quer um desenvolvimento no Brasil voltado para a maioria, como é que você trabalha isso? Você tem que entender essa consciência real e muitas vezes possível da classe, para poder aumentar a consciência de classe. Você não vai chegar para um trabalhador e dizer: o Getúlio era um grande filho da puta, ele tinha um projeto nacionalista burguês… O que é isso? Nacionalista burguês?

Então vocês entendem a questão da linguagem como fundamental?

Mais do que a linguagem, é fundamental a construção de um discurso revolucionário que parta da consciência realmente existente da classe e contribua para que a classe avance em sua consciência da necessidade de superar o capitalismo. E daí analisar o seguinte, é viável hoje em dia um projeto como o Getúlioe que marcou profundamente a cultura da classe? É inviável em dois sentidos: no sentido de que não interessa as classes dominantes e isso o próprio Getulio denuncia na Carta Testamento. Um projeto nacionalista burguês não interessa a burguesia, não interessa ao imperialismo. Se aparece um maluco qualquer defendendo honestamente um projeto nacionalista burguês, um sujeito que consiga se eleger presidente e tenta implementar esse projeto, o derrubam como derrubaram Zelaya em Honduras, porque não interessa. Sabe que esse tipo de problema desata nós que criam uma série de problemas, ao estilo do minha casa minha Dilma agora.

Qualquer projeto para tentar sanar uma limitação do sistema no sentido de atender aos interesses populares, cria para o sistema mais problemas do que solução. Você hoje tem um projeto que aponta um milhão de moradias e sabe quantos inscritos tem? 18 milhões, eu quero ver darem resposta para todos. Aí que deve entrar a esquerda como catalisadora, ela tem que atuar os movimentos sociais para exigir os 18 milhões de casas, tem que organizar esse povo para exigir a sua casa. Porque se for na luta, ele vai reparando que esse sistema não vai me dar o que eu quero, ele vai aprender na luta, é pedagógico.
Então você pode argumentar: na época do Getúlio que o seu avô viveu tinha direito à moradia, não era essa história de habitação, os institutos de previdência que construíam as casas e você não tinha que pagar o aluguel, você pagava uma taxa para construir mais casa… E esse sistema “matou” o Getúlio, derrubou João Goulart...

É só isso que a gente quer? Não é, mas nem isso o sistema permite conquistar. Então o cara vai se conscientizar no processo e perceber que a necessidade é muito maior e que a sociedade tem que ser diferente. É nesse sentido que a gente tenta resgatar o processo histórico, a gente fala que é retomar o fio da história, porque foi isso que eles cortaram em 64. O golpe militar na verdade é uma contra-revolução, não estava ocorrendo uma revolução socialista, era um processo revolucionário que poderia caminhar rumo ao socialismo, um processo de acumulação de força, de aumento da consciência. Como todo processo, tem limitações, equívocos, o Lênin tem uma frase que eu acho espetacular: aquele que espera uma revolução pura está prestando um desserviço à revolução. Vai ter limitações, pode ser até que essas limitações levem ao reformismo ou à própria derrota da revolução depois dela estabelecida que é o período mais difícil.

Então para você combater, o indivíduo como instrumento político deve estar trabalhando nessas contradições. Nesse contexto é de fundamental importância o movimento social como uma força autônoma que tenha princípios socialistas na sua gestão, coletivos, solidariedade, democracia interna nos movimentos. Para garantir a democracia na revolução socialista, tem que começar a construção de uma democracia participativa a partir de agora. A grande maioria dos movimentos sociais e os sindicatos em particular, não exercem a democracia participativa.

Uma cúpula mantendo-se distante do trabalho de base…


Esse tipo de coisa nunca vai conseguir contribuir para a revolução, para a transformação política da realidade. Se acontecer uma revolução, essa cultura vai ser reproduzida no processo, daí vem os desvios, os caminhos errados, o aumento das contradições. Os inimigos da classe, os burocratas, vão usar isso para descaracterizar e combater o processo revolucionário. Mais difícil do que você fazer a revolução é permanecer com o poder , então são essas discussões que tentamos travar no MORENA, vinculadas ao trabalho permanente, à militância. Temos claro que somos um grupo pequeno, incipiente. O MORENA como organização política existe há dois anos e meio no máximo, achamos muito importante trabalhar a questão mística, a nossa bandeira preta e vermelha tem relação com a revolução cubana, com várias organizações de esquerda na América Latina que utilizam bandeiras rubronegras.

Fazemos tudo isso - o nome do jornal, o nome do movimento, o trabalho de educação política, a atuação nos movimentos sociais - tentando resgatar essa mística da memória: se o povo resgatar a sua memória de lutas vai perceber que se ele não for pro o pau ele não vai ter nada, vai continuar tudo do jeito que está, verá que não tem outra alternativa que não seja lutar. Se não lutar pelos seus direitos e reivindicações o povo trabalhador nunca perceberá o nível de miserabilidade em que vivemos, não perceberá que se não correr atrás do prejuízo não tem ninguém que vá correr não.

"Até o momento nada indica que a crise tenha chegado ao fundo"


por Grupo de Trabalho do CLACSO [*]

Os integrantes do Grupo de Trabalho do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais ( CLACSO ) sobre "Economia mundial, corporações transnacionais e economias nacionais" reunidos na cidade de Buenos Aires durante os dias 2 e 3 de Setembro do ano em curso com a finalidade de analisar a Crise capitalista mundial, as propostas de superação e seus impactos na América Latina, após um intenso e frutífero intercâmbio de opiniões, manifestam:

1- O comportamento dos principais indicadores económicos e sociais permite afirmar que a economia capitalista mundial se encontra longe de retomar o caminho do crescimento, tal como se tem vindo a afirmar em informações provenientes de centros de poder do capitalismo transnacional, divulgadas profusamente nos meios maciços de comunicação e com aquelas em que se procura minimizar os alcances da crise e a severidade dos seus impactos à escala planetária. Ainda que se esteja na presença de factos que se encontram em pleno processo de desdobramento e cujo desenvolvimento específico pode apresentar variados percursos, até ao momento nada indica que a crise tenha chegado ao fundo e menos ainda que tenha chegado ao seu fim. Se fosse esse o caso, a maioria das estimativas indicam que se assistirá a um longo período depressivo, ou a uma recuperação muito lenta que no melhor dos casos permitirá alcançar, em mais alguns anos, os níveis de produção anteriores à crise e só em meados da década seguinte os níveis de emprego. Em matéria social, a situação é dramática e demonstra que os principais afectados são os trabalhadores e sectores sociais empobrecidos, pois mantém-se a tendência para o aumento do desemprego, à deterioração do rendimento e, em geral, à precarização dos trabalho e uma pauperização crescente que deteriora a qualidade de vida de milhões de pessoas de menores rendimentos.

2- A crise reafirma os fundamentos de uma reprodução do capitalismo a nível mundial baseada na exploração do trabalho e mostra – de forma nua e violenta – seus limites para dar resposta às exigências económicas, políticas, sociais, ambientais e culturais do ser humano. Além disso, revela a sua gigantesca capacidade destruidora de riqueza material e imaterial. Dado o seu carácter e seus alcances geográficos e sectoriais, a crise actual põe em evidência que não se trata de uma simples disfuncionalidade transitória – sectorial ou geográfica – dos mecanismos de reprodução do sistema. A crise contesta de forma certeira a possibilidade uma prosperidade capitalista indefinida, desmente a afirmação do desprestigiado Fundo Monetário Internacional que em 2007 assinalava lapidarmente: "O robusto crescimento mundial perdurará" e liquida o dogma sobre o fim da história que se havia pretendido impor durante as últimas duas décadas.

3- Ainda que o epicentro da crise tenha sido os Estados Unidos, seus efeitos estenderam-se muito rapidamente à escala mundial e impactaram a totalidade das economias. Ao articular-se a crise com as diversas trajectórias regionais, nacionais e locais da acumulação capitalista, suas configurações específicas são múltiplas e variadas. Estamos na presença de uma crise do capitalismo globalizado com desenvolvidos desiguais e diferenciados, de diferente intensidade sectorial, geográfica e social. No caso da América Latina, são igualmente indiscutíveis os seus efeitos. Para além de matizes, não há país da região que tenha deles escapado. Os processos de neoliberalização impulsionados durante as últimas décadas acentuaram a dependência e forçaram uma reestruturação económica regressiva, provocando uma crescente vulnerabilidade frente ao comportamento da economia capitalista mundial. Naqueles países nos quais os projecto neoliberal conseguiu implantar-se com maior intensidade, escorando-se além disso com um correspondente marco jurídico-institucional de tipo neoliberal (Tratado de Livre Comércio com os EUA), os efeitos da crise sentiram-se antes e com maior severidade, sobretudo no emprego. Tal é o caso do México, Chile e Colômbia.

4- A alta dependência de um número importante de economias da região da produção e exportação de produtos energéticos, matérias-primas, produtos ag rícolas gerou efeitos contraditórios. Nos fins de 2008, o epicentro da crise mundial, a queda abrupta dos preços da maioria desses produtos parecia que imporia uma queda drástica da actividade económica externa, uma deterioração das balanças de transacções correntes e de pagamentos, bem como um maior endividamento. Ao reverter relativamente essa tendência, a severidades dos impactos da crise pôde ser atenuada (não evitada), quando se considera o comportamento de alguns indicadores macroeconómicos. Apesar disso, as finanças públicas mostram uma tendência em franca deterioração, a dívida pública e privada continua a aumentar aceleradamente e, em geral, a actividade económica encontra-se deprimida. Do ponto de vista social a crise acentuou as desigualdades e incrementou a pobreza e indigência na região. O desemprego continua em alta e a precarização do trabalho acentua-se. No imediato, não parece contemplar-se, como já se disse, uma etapa de recuperação sustentada da economia mundial e regional.

5- Dada a importância que os recursos nacional adquiriram na nova geografia da acumulação capitalista a nível mundial e considerando que a América Latina é uma região muito rica deles, a crise estabeleceu a importância da luta por tais recursos, assim como a necessidade da defesa soberana deles. A luta pelos recursos inscreve-se no âmbito das aspirações históricas dos trabalhadores e une-se à exigências de comunidades e povos ancestrais, indígenas e afro descendentes, em defesa dos seus territórios e por uma reorientação substancial da organização económica da sociedade. Enquanto em alguns países a maior parte das rendas que geram tais recursos são transferidas às corporações transnacionais, em outros iniciaram-se processos de apropriação e de manejo soberano que abrem novas possibilidades para pensa estratégias alternativas de desenvolvimento e integração na região.

6- A intensidade da crise, assim como as tendências de saída da mesma, guardam uma estreita relação com a situação e a dinâmica da luta social e de classes. Toda crise abre um amplo espectro de possibilidades aos diferentes projectos políticos que decorrem na sociedade. Se a saída da crise representa uma reafirmação e prolongamento dos projectos político-económicos capitalistas, ou se desenvolve opções de projectos não capitalistas, democráticos e populares, ou inclusive socialistas, isso depende essencialmente da acção colectiva organizada dos trabalhadores e dos povos, assim como das suas forças sociais, culturais e políticas. A experiência recente da América Latina, anterior à crise capitalista, indica que a luta social e popular pode produzir mudanças políticas e económicas significativas a favor das classes subalternas, como mostram as experiências da Venezuela, Equador e Bolívia, que se unem àquela da revolução cubana, com uma trajectória de cinquenta anos de luta e resistência heróica.

7- No início a crise parecia trazer consigo uma mudança na tendência da política económica neoliberal predominante, a ponto de que se chegou a falar de transformações estruturais na ordem internacional e do fim da hegemonia estado-unidense. Na medida em que não se observa até o momento uma mobilização social e popular importante que possa por em causa a estabilidade política do sistema capitalista, as saídas que parecem impor-se inscrevem-se dentro de uma linha de continuidade que, com medidas cosméticas e de engenharia financeira, com uma fortíssima intervenção estatal, busca estabilizar transitoriamente as condições da acumulação capitalista e proporcionar a confiança do grande capital transnacional. Nesse sentido devem compreender-se as operações de salvamento do sector financeiro e de algumas transnacionais da produção dos países do capitalismo central levadas a cabo com recursos do orçamento público, recorrendo ao aumento explosivo do endividamento pública e à contínua exacção de recursos provenientes dos países da periferia capitalista. A isto soma-se a decisão política de financiar a estabilização relativa do dólar, bem como a ressurreição do Fundo Monetário Internacional decretada pelo G-20. Tudo isso, junto com diferentes medidas nos âmbitos nacionais, deu um alívio conjuntural aos problemas da reprodução capitalista, mas em momento algum significa que o sistema tenha conseguido consolidar uma saída da crise e muito menos condições estáveis e duradouras para um novo ciclo de acumulação e expansão à escala planetária. A crise produziu no imediato uma profunda reorganização do capital, acentuou os processos de concentração e centralização do capital, expropriou os patrimónios de milhões de trabalhadores mo mundo e precarizou ainda mais o trabalho. As políticas até agora implementadas apenas conseguem suavizar e adiar impactos mais severos da crise.

8- Independentemente da insuficiente resposta das classes subalternas, a crise capitalista desenvolve objectivamente novas condições para a produção de subjectividades e contribui para a (re)constituição de sujeitos políticos para a mudança, o que se torna crucial para pensar e impulsionar alternativas. Na medida em que a crise interpela o capitalismo e torna evidentes os seus limites, apresentam-se novas possibilidades de instalar propostas político-económicas. Nesse sentido, todas aquelas iniciativas tendentes a uma democratização da ordem económica mundial possuem o maior significado e devem ser acompanhadas. Trata-se, por exemplo, de proposta que buscam contrapor-se à hegemonia do dólar ou defendem uma regulação dos fluxos de capital que imponha limites à especulação financeira e à extracção de recursos da economias da periferia capitalista por parte do grande capital transnacional e que estimulam a participação da comunidade internacional, por exemplo através do G-192. E, em geral, em múltiplas iniciativas surgidas em eventos académicos ou encontros de diversos sectores sociais e populares à procura da construção de projectos alternativos de sociedade.

9- No caso da América Latina, as saídas da crise encontram-se fortemente ligadas aos projectos político-económicos de governo, em jogo durante a última década nos diferentes países da região. Em primeiro lugar, encontram-se as pretensões das classes dominantes e da direita latino-americana de utilizar a crise para impor um novo ciclo de reformas neoliberais, que permita aprofundar a transnacionalização e a desnacionalização das economias, impor um regime de incentivos extremos ao grande capital e prosseguir com processo de redistribuição regressiva de rendimentos, em detrimentos dos fundos de consumo dos trabalhadores. Estas pretensões associam-se à estratégia geopolítica dos Estados Unidos para a América Latina, orientada no sentido de recuperar as posições perdidas durante a última década, recorrendo inclusive à maior militarização da região, tal como o demonstra o acordo para a utilização de sete bases militares da Colômbia pelas forças militares dos Estados Unidos. Essa é a lógica que explica o golpe militar em Honduras, que condenamos energicamente. Em segundo lugar, encontram-se os projectos políticos dos governos que, sem pretender no substancial uma ruptura explícita com as políticas neoliberais, impõem mudanças de tom e nova ênfase tanto em matéria social como em políticas de produção. Trata-se dos projectos pós-neoliberais que se inscrevem dentro de uma linha neo-desenvolvimentista, confiam nas possibilidades do capitalismo produtivo e nacional, com altos incentivos ao investimento estrangeiro e sem compromissos a fundo com políticas redistributivas. Em terceiro lugar, encontram-se os projectos políticos económicos dos governos baseados numa importante mobilização social e popular, com uma vontade expressa de mudança, a favor de uma ruptura com as políticas até agora imperantes, em defesa de um projecto de soberania, autodeterminação e de novo entendimento da economia e da integração da região e dos povos. Em alguns destes países anunciou-se o empreendimento de transformações rumo ao socialismo e avançaram-se importantes medidas nesse sentido. O destino da América Latina dependerá de como o devir da luta social e de classes na região canaliza as economias e sociedades latino-americanas numa ou outra direcção. Para os sectores progressistas é do maior significado que se possa consolidar os projectos mais comprometidos com as transformações e a mudança a favor das maiores populares.

10- A crise capitalista reafirma a importância para a América Latina de empreender transformações estruturais que revertam décadas de política neoliberal e canalizem a região rumo à melhoria das condições de vida e de trabalho da sua população, que contribuam para impor uma organização da economia para atender as necessidades sociais, económicas, políticas, culturais e sócio-ambientais da população trabalhadora, em harmonia com o ser humano e a natureza, que impulsione processos de integração tendentes a superar enfoques meramente comerciais e incorporem orçamentos de solidariedade, cooperação, complementaridade e internacionalismo, e contribuam para reforçar as condições de soberania e autodeterminação da região, bem como pela busca legítima de uma nova ordem económica internacional, democrática e inclusiva, e permita à América Latina desenvolver uma maior capacidade de influência nas concepções da política internacional. Nesse sentido, os 200 anos de luta pela emancipação social e a independência adquirem novo conteúdo diante da experiência de mudança política que percorre a região para enfrentar a crise capitalista revertendo a equação histórica de beneficiários e prejudicados, assegurando soberania alimentar, energética e exercício pleno da vontade popular.

FIrmas: Alicia Girón (Brasil), Antonio Elías (Uruguai), Carlos Eduardo Martins (Brasil), Claudio Katz (Argentina), Claudio Lara (Chile), Consuelo Silva (Chile), Daniel Munevar (Colômbia), Federico Manchón (México), Gabriel Ríos (Chile), Gastón Varesi (Argentina), Graciela Galarce (Chile), Jaime Estay (México), Jairo Estrada (Colômbia), Jorge Marchini (Argentina), Julio C. Gambina (Argentina), Luis Rojas Villagra (Paraguai), Marcelo Carcanholo (Brasil), Marisa Silva Amaral (Brasil), Orlando Caputo (Chile), René Arenas Rosales (México), Sergio Papi (Argentina), Servando Álvarez (Venezuela), Theotonio dos Santos (Brasil).

O original encontra-se em http://www.argenpress.info/2009/09/declaracion-del-grupo-de-trabajo-de.html

Esta declaração encontra-se em http://resistir.info/ .

Pensamentos impertinentes...

"Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os encrenqueiros. Os que fogem ao padrão. Aqueles que veem as coisas de um jeito diferente. Eles não se adaptam às regras, nem respeitam o statusquo. Você pode citá-los ou achá-los desagradáveis, glorificá-los ou desprezá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Eles empurram adiante a raça humana. E enquanto alguns os veem como loucos, nós os vemos como gênios. Porque as pessoas que são loucas o bastante para pensarem que podem mudar o mundo são as únicas que realmente podem fazê-lo."
(Jack Kerouac)

Precisa de palavras???





Carlos Lamarca


Vejam uma bela forma de lembrar Carlos Lamarca, assassinado dia 17 de setembro de 1971
nos sertoes do municipio de Brotas de Macauba, Bahia.


Brasil, 26 de julho de 1969

Aos meus filhos Vivo falando de vocês com meus companheiros, eles estão longe dos filhos também e falam nos filhos deles. Um só é o desejo de todos nós, é que nossos filhos sejam revolucionários. O que é um revolucionário? È todo a pessoa que ama todos os povos, ama a Humanidade, tem uma imensa capacidade de amar, ama a justiça, a Igualdade. Mas ele tem de odiar também, odiar os que impedem que o revolucionário ame, porque é uma necessidade amar. Odiar aos que odeiam o povo, a Humanidade, a Justiça social. Odiar aos que dominam e exploram o povo, odiar aos que corrompem, ameaçam e alienam as mentes, aos que degradam a Humanidade, aos injustos, falsos, demagogos, covardes.

O revolucionário ama a Paz, faz a guerra como instrumento para Ter a Paz, a Paz justa, sem exploração do homem pelo homem. O revolucionário tem que ser capaz de todos os sacrifícios pela causa, de até se separar dos seus filhos para libertar todos os filhos, de se separar dos pais porque outros pais precisam dele. Quando vocês sentirem saudades de mim, lembrem-se que aqui no Brasil existem muitas crianças que passam fome, que andam descalças , sem escolas, que sofrem e vêem deus pais sofrerem. Lembram-se quando conversei com vocês no quarto e pedi a vocês que deixassem eu lutar para acabar com isso. Eu lembro bem que a Claudinha bateu palmas e o Cesar disse: " Muito bem, papai". Combinamos que tínhamos de ficar longe um do outro, e que guardaríamos no coração a esperança de nos encontrarmos novamente.

Vocês são felizes porque a mãe e o pai são revolucionários e vocês têm de ser também Amem muito a mamãe, eu não posso beija-la, todos os dias beijem duas vezes a ela, uma vez por mim. Tenho tantas saudades de vocês mas não choro, não beijo fotografias, encho o peito de ar e pego firme no meu trabalho. Penso em vocês e em todas as crianças, então ganho forças para lutar.

Quando sentirem saudades, então estudem mais, perguntem tudo que não entenderem, perguntem sempre o porquê das coisas- perguntar e pensar- ver se é certo, se não for, falem, discutam- ver se é justo, se não for, lutem para mudar. Sejam disciplinados, façam somente o que for certo, justo. Ser disciplinado não é ser obediente, quem obedece tudo sem pensar não presta.

Como vai o treinamento de tiro? Não se esqueçam de colocar algodão no ouvido, e também de olhar sempre pra mira e puxar o gatilho bem devagar. Já mandaram consertar a pistola de ar comprimido? Espero que pratiquem corrida, natação e todos os jogos. Alimente-se bem, vocês que tanto gostam de frutas devem estar satisfeitos, aí ninguém passa fome, não tem mendigos, aqui...Aí comem abacate na salada, com sal e azeite; gostaram?

Como vai o jogo de botão? Você, Cesar, tem ensinado aos meninos? Seguem junto 29 bolinhas de cortiça, que fiz treinando a paciência, que eu tinha pouco, é preciso ser paciente, sem ser passivo, claro.E você Claudinha, continua fazendo discursos? Como eu gostava, você vai ser uma grande agitadora.Cuidem bem dos dentes para que possam mastigar bem. Não se esqueçam de cantar e dançar. O Cesar gosta muito de desenhar e a Claudia de pintar, procurem praticar bastante, procurem criar, não imitem ninguém .

Não chamem ninguém de senhor porque ninguém é senhor de ninguém. Mas ouçam os mais velhos e procurem fazer coisas melhor que eles, porque tudo que é novo é superior ao velho. Respeitem os mais velhos mas exijam que respeitem vocês- exijam mesmo.

Contei para os companheiros que o Cesinha usava nome de guerra e eles acharam engraçado. Já usei o nome Cesar mas tive de mudar.Não sei como acabar essa carta porque é como se estivesse conversando com vocês.

Espero receber uma carta de vocês, se não for possível, continuarei pensando muito em vocês.A maior alegria que vocês podem me dar é aproveitar muito o estudo, preparando-se para fazer a Revolução em qualquer país.

Muitos beijos para a minha esposa querida e meus filhos, com todo amor, cheio de saudades.

Carlos Lamarca

Ousar Lutar-Ousar Vencer.
O legado da Carta Testamento e a luta pelo socialismo do século XXI

De 1930 a 1964 a cena política brasileira foi dominada pelo embate sobre os rumos que o Brasil deveria tomar enquanto nação para tornar-se um país desenvolvido.

De 30 a 54 a figura política de Vargas aglutinou um campo político que defendia a necessidade de um projeto de nação brasileira baseado na independência política e econômica e com um caráter nacionalista burguês. Porém, com o desenrolar da luta política e principalmente após o suicídio de Getulio e a divulgação da Carta Testamento, esse campo modifica sua composição social e vai paulatinamente assumindo a necessidade de um desenvolvimento voltado para as maiorias, socializante e com um caráter nacionalista revolucionário.

Contrapondo-se a esse projeto, conformou-se um campo que inicialmente defendia o retorno ao poder político das oligarquias agro-exportadoras afastadas na chamada Revolução de 30 que, com o passar da luta política, também modifica sua composição e caminha para a defesa de um desenvolvimento associado e dependente do capital internacional, notadamente estadunidense.

Apesar da política brasileira nesse período não se resumir a esses dois campos, a luta política entre seus projetos históricos tendeu a uma radicalização que polarizou a sociedade brasileira.

Getulio foi a principal liderança pela implantação desse projeto de nação de caráter nacionalista burguês que visava conciliar os interesses do capital industrial e do trabalho para enfrentar a poderosa burguesia agro-exportadora aliada ao imperialismo. Setores poderosos que não perderam oportunidades de tentar retomar seus espaços políticos em vários momentos, como em 32 em São Paulo, nas eleições que ocorreriam em 37, no golpe que derruba Getulio em 45, nas eleições deste mesmo ano e na tentativa de golpe em 54, que foi impedido pelas manifestações populares após o suicídio de Getulio.

Paralelamente a esse enfrentamento, agudiza-se no campo político getulista as contradições inconciliáveis entre os interesses do capital industrial e do trabalhadores. A maior parte da burguesia industrial, que via com desconfiança a política e a legislação trabalhista defendida por Vargas, começa a ceder aos “encantos” econômicos do projeto de desenvolvimento associado e dependente ao capital internacional. Essas contradições se refletem na conjuntura de 1945, onde as forças que apoiavam Getulio não conseguem se unificar em uma única organização política, surgindo a partir dessa realidade o PSD e o PTB.

Após o desastroso governo entreguista e antipopular de Dutra, Getulio, que inicialmente havia se filiado ao PSD, ganha as eleições de 1950, como candidato do PTB e com o apoio das massas trabalhadoras que se debatiam em meio à miséria e a falta de perspectivas.

Com o objetivo de dar continuidade ao projeto histórico interrompido em 45, seu governo retoma e cria mecanismos, como o seguro agrário, o IBC (Instituto Brasileiro do Café), o Banco do Nordeste, a CACEX (carteira de comércio exterior) do Banco do Brasil e o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico) para incrementar uma política de estimulo às indústrias de base e a elevação da poupança interna.

Várias leis são sancionadas: lei sobre restrição da remessa de lucros das empresas estrangeiras para o exterior, a lei sobre crimes contra a economia popular, a lei que cria o monopólio estatal do petróleo através da Petrobrás e ainda é tentada a criação da Eletrobrás.

Após uma série de greves e mobilizações dos trabalhadores, o poder aquisitivo destes é garantido em face da inflação através de diferentes políticas sociais e do reajuste do salário mínimo de 100% proposto por João Goulart durante sua gestão no Ministério do Trabalho. Jango encaminhou a proposta mesmo sabendo que isso custaria o próprio cargo. Desde quando assumiu o Ministério sua prática de negociar e se antecipar às demandas dos trabalhadores, forçando, muitas vezes, os empregadores a fazer concessões, foi freqüentemente vista e denunciada pela oposição como uma maneira de "pregar a luta de classes".
Assim, Jango não era o ministro do Trabalho, mas o ministro dos trabalhadores. Para a oposição anti varguista Jango era um "manipulador da classe operária", "um estimulador de greves", "um amigo dos comunistas", que tinha como plano a implantação, com o assentimento de Vargas, de uma "república sindicalista" no Brasil.

Além de tudo isso, o governo Vargas participa de uma tentativa de retomar o Tratado do ABC, assinado em 1910 entre Brasil, Argentina e Chile, com o objetivo de buscar alternativas à condição de exportadores de matérias-primas e alimentos, apontando para a necessidade de uma maior integração latino-americana, com o intuito de fazer frente à hegemonia do imperialismo estadunidense na América Latina. Nas conversações mantidas com Perón, Vargas afirma que “Nossa Pátria é a América.”

Com a retomada de seu projeto, além da radicalização do campo opositor - hegemonizado pela burguesia agro-exportadora e cada vez mais aliado ao imperialismo americano - acirram-se as contradições com a maior parte da burguesia industrial, já seduzida pela lógica do capitalismo dependente. Em agosto de 54, Getulio está isolado politicamente, pois as massas trabalhadoras estavam atônitas e desnorteadas perante o ataque brutal da oposição ao seu governo, apoiado nos grandes meios de comunicação de massa.

Prestes a sofrer um golpe militar, Getulio suicida-se.

O suicídio não obedece a uma lógica de desespero, mas reflete o ato de uma liderança política consciente do momento histórico, de seu papel junto às massas trabalhadoras e do seu projeto histórico. Getulio constata o esgotamento da possibilidade de dar continuidade ao seu projeto nacionalista burguês, baseado na política de conciliação entre capital industrial e trabalho, em plena consolidação do imperialismo estadunidense na América Latina.

Com a divulgação da Carta Testamento, Getúlio entra para a história protagonizando o ato fundador de uma nova continuidade de seu projeto de nação em uma lógica antiimperialista e popular, que vai pautar uma reaproximação pela base de trabalhistas, socialistas e comunistas na década seguinte, dando conteúdo ao crescimento vertiginoso do PTB e de suas frações pela esquerda a partir da mobilização popular pela Legalidade e da ascensão da organização popular nas lutas pelas reformas de base no inicio da década de 60.

Em 64, a contra-revolução das classes dominantes aliadas ao imperialismo impediu que o povo trabalhador avançasse em sua revolução democrática rumo ao socialismo. Após a ditadura, nenhum dos governos eleitos ousou sequer questionar a lógica do desenvolvimento associado e dependente do capital internacional imposta à nação brasileira pelas burguesias agro-exportadora e industrial associadas ao imperialismo desde o golpe militar.

Hoje, passados 55 anos, a denúncia e o chamamento à luta da Carta Testamento continuam atuais e são um legado às forças populares, antiimperialistas e classistas.

Devem ser considerados como um chamado para que essas forças tenham a clareza e a coragem necessárias para romper com a falsa polarização petucana e retomar o fio da história das lutas do povo trabalhador, cortado pela contra-revolução de 64.

Um chamamento para que assumam claramente a retomada de um projeto popular de nação baseado na independência política e econômica e na libertação nacional e social de nosso país como um caminho brasileiro para o socialismo do século XXI.

Aurelio Fernandes
Educador Popular com formação em História e membro da Coordenação Nacional do Movimento Revolucionário Nacionalista – Círculos Bolivarianos / MO.RE.NA-CB.



Carta Testamento

Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se novamente e se desencadeiam sobre mim.
Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao Governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculizada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente.
Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores de trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançaram até 500% ao ano. Na declaração de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate.
Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história

Getúlio Vargas

Carta aberta de desfiliação do PDT

Carta aberta de desfiliação do PDT
Aurelio Fernandes [*]

“E assim como na vida privada se diferencia o que um homem pensa e diz de si mesmo do que ele realmente é e faz, nas lutas históricas, deve-se distinguir, ainda mais, as frases e as fantasias dos partidos de sua formação real e de seus interesses reais, o conceito que fazem de si, do que são na realidade.”
Karl Marx

“Em um desses momentos em que as traições castigavam o PDT, Brizola desabafou com Neiva Moreira, então líder da bancada na Câmara: “Qualquer dia desses, eu fecho esse partido e vou fundar um Movimento Nacional de Libertação… Os políticos nunca vão criar vergonha! “.”
El caudilho Leonel Brizola de FC Leite Filho


Como tudo começou...

No ano de 1982 o povo trabalhador do Estado do Rio elegeu Leonel Brizola Governador do Estado do Rio de Janeiro. Das bases do movimento sindical e operário, às favelas cariocas, passando pelo movimento das associações de moradores e estudantil, uma maioria esmagadora se identificava com o sentimento de transformação política que Brizola encarnava.

Lideranças expressivas no campo popular e classista de luta contra a ditadura e pelas reivindicações populares e nacionais – Luiz Carlos Prestes, Darcy Ribeiro (candidato a vice), Roberto Saturnino Braga, Adão Pereira Nunes, Bayard de Maria Boiteux, Amadeu Rocha, Neiva Moreira, Francisco Julião, Gregório Bezerra, Theotonio dos Santos, José Maria Rabelo, Vânia Bambirra, Rui Mauro Marini, dentre outros – e dos movimentos sociais oriundas ou influenciadas por lutadores sociais dos velhos PTB, PCB e PSB e da chamada “nova esquerda” se somaram na vitória política de Brizola.

Brizola representava no imaginário popular a retomada do fio da história das lutas populares e a resposta mais radical possível à ditadura militar. Assim, influenciada pela conjuntura política, uma quantidade enorme de jovens trabalhadores e estudantes acabaram por se filiar ao “partido do Brizola”: o PDT.

Foi nesse momento, com 21 anos de idade, que me filiei ao partido através de sua organização juvenil: a Juventude Trabalhista do PDT, hoje Juventude Socialista do PDT. Foi na construção desse instrumento político e em suas lutas políticas que iniciei meu processo de construção de referenciais políticos e ideológicos. Atuei na Juventude por mais de uma década assumindo várias tarefas como militante, dirigente estudantil, dirigente estadual e nacional, notadamente nas atividades de articulação e educação política.

As lutas populares e internas no PDT despertaram em um grupo de jovens a necessidade de empreender um estudo coletivo da história do trabalhismo, socialismo e das lutas populares no Brasil e na América Latina. A partir destas reflexões e discussões, confeccionamos, em 1987, os Fundamentos Básicos para a Libertação Nacional, assumindo um referencial teórico marxista identificado com a Revolução Cubana e com o processo revolucionário sandinista, e vinculado nacionalmente com o brizolismo entendido como um somatório das afinidades ideológicas e tradições de luta nacionalistas, revolucionárias e populares da década de 60.

Concluímos que a construção do socialismo no Brasil tem como tarefa política e ideológica recolher, de forma crítica e inovadora, experiências históricas de larga duração oriundas dos setores nacionalistas revolucionários e populares dos velhos PTB, PCB e PSB, da Organização Revolucionária Marxista - Política Operária / ORM-POLOP e da chamada “nova esquerda”. Além disso, fundamentamos teoricamente nossa identidade com o projeto histórico brizolista, que naquele momento se identificava com a refundação do Trabalhismo como caminho brasileiro para o socialismo.

Esse projeto aglutinou nacionalistas e marxistas de diversos matizes de esquerda oriundos das experiências históricas da década de 60. Ao propor retomar o fio da história e combatendo o hegemonismo e o aparelhamento dos movimentos populares, o PDT, ao contrário de outros projetos partidários, poderia tornar possível a construção de um espaço político onde a unidade e a diversidade necessária ao processo de gestação da vanguarda compartida da luta pela libertação nacional rumo ao socialismo estaria presente.

Entendíamos que o PDT apresentava-se como um partido de natureza popular e antiimperialista, ainda pouco organizado, que poderia aprofundar nas lutas internas e nos movimentos sociais, sua natureza de partido que buscava a unidade do campo popular e classista.

Nossa atuação...
A ampliação desse debate no seio da Juventude Socialista do PDT levou a uma hegemonia à esquerda em suas instâncias diretivas e apontou a necessidade de iniciar um processo de reorganização baseado na nucleação de seus militantes. Como reflexo desse processo, do qual participei ativamente, surgem boatos, em 88, sobre a minha candidatura à Presidência Nacional da JS/PDT.

Preocupada com a possibilidade da Juventude reagir de forma critica às articulações que o partido encaminhava com vistas à eleição presidencial de 89, a direção nacional do PDT interveio em nosso Congresso Nacional em 89, “indicando” Garotinho, então prefeito de Campos, como “presidente interventor”.

Cerca de três anos depois, com a JS-PDT nacionalmente desarticulada, fui convidado pela direção nacional do PDT a assumir a Presidência da Juventude, ao qual recusamos, propondo a realização de um Congresso Nacional em Vitória para eleger nova direção e refundar a Juventude.

Após a derrota eleitoral de Brizola em 89, propomos uma discussão sobre os rumos de um PDT cada vez mais envolvido na lógica “eleitoreira” da democracia burguesa e inserido na chamada “crise do socialismo”. Isto levou à necessidade de criar, em 91, o Núcleo de Estudos Pela Esquerda – NEPE que editou e divulgou nacionalmente os Fundamentos Básicos para a Libertação Nacional e nossos posicionamentos nas instâncias partidárias.

Com o passar do tempo este encontro da militância com o estudo sistemático levou à necessidade de imprimirmos uma intervenção mais orgânica na vida partidária. Iniciamos, então, o processo de construção de uma corrente no PDT.

A corrente PDT Pela Esquerda tinha como objetivo defender os interesses históricos do campo popular e classista no partido. Um instrumento aglutinador dos militantes brizolistas - socialistas, comunistas e nacionalistas revolucionários de todo o país - compromissados, na prática cotidiana, com a retomada do fio da história das lutas populares brasileiras e construção, pela esquerda, de um PDT antimperialista, popular e classista.

A atuação critica e propositiva da corrente, editora de cerca de dezoito números do boletim PDT a Conversa é Pra Valer que iniciou um processo de ampliação em várias instâncias partidárias para outros estados além do Rio de Janeiro e nos movimentos sociais, levou a um processo permanente de tentativas de cooptação e isolamento de nossos militantes e dirigentes.

No meu caso especifico, desde 1989, após romper politicamente com o deputado estadual Fernando Lopes e ser demitido de seu Gabinete, optei, apesar de convites para participar de governos ou de outros gabinetes de parlamentares do partido, por sustentar minha família exercendo o magistério em escolas nos municípios do Rio e Volta Redonda.

Somente, tempos depois, em 1994, abandonei parte das escolas devido ao convite do Sr Manoel Dias para assessorar a secretaria executiva da Direção Nacional do PDT; assessoria da qual fui sumariamente demitido, durante férias coletivas, sem nenhum aviso prévio ou explicação, em fevereiro de 1995. Um “castigo” por nossas divergências com a linha política da direção nacional, que expressei em documento de nossa corrente, lido por mim em reunião do diretório nacional para avaliação das eleições de 94.

Um dia após a minha demissão, iniciei a militância no Instituto Alberto Pasqualini. Durante sete anos, de 1995 até 2001, além de implementar a educação política em vários estados, participamos ativamente no processo de transformação do IAP em Fundação. É importante frisar que de 1995 até o inicio do ano de 1998 assumi nacionalmente um conjunto de responsabilidades de direção e tarefas no IAP em vários estados sem nenhum tipo de vínculo empregatício ou ajuda financeira do IAP ou da direção nacional do PDT.

Como conseqüência dessa atuação, fui convidado pela direção nacional do PDT, na pessoa do Sr Carlos Lupi, para assumir a secretaria executiva da Fundação. Nesse momento, propus a redução em 50% do salário proposto, pois além de serem valores exagerados para a realidade de um partido popular, não pretendia ficar “refém” de um salário que mudaria radicalmente meu padrão de vida.

Nos anos que estive na FAP, hoje Fundação Leonel Brizola-Alberto Pasqualini, várias propostas de planejamento e projetos foram encaminhados à executiva do IAP/FAP e poucas foram às atividades que conseguimos desenvolver de forma planejada e continuada. O pouco sucesso nessas empreitadas estão diretamente relacionados com o voluntarismo, o improviso, falta de equipe e de planejamento na instituição.

De 95 a 2001 a diretoria do IAP/FAP sequer realizou uma reunião deste órgão partidário, sendo que tal realidade, somada à total falta de vontade política da direção nacional em investir na educação política dos militantes, impediu sobremaneira a continuidade dos trabalhos ou sua intensificação e ampliação.

O aprofundamento da crise ideológica no PDT nos levou a construção do Fórum de Militantes do PDT ao final do ano de 2000. Esse fórum editou alguns números do Jornal “O Militante”, apontando as contradições do partido em sua crise política e seu afastamento do projeto histórico brizolista, além de catalisar algumas lutas internas importantes: posicionamento contra a fusão com o PTB, em defesa de candidaturas próprias, posicionando-se ao lado de Brizola na luta interna contra a família garotinho, questionando a política do fato consumado em varias e importantes decisões partidárias como a criação da chamada Frente Trabalhista e o apoio a Ciro Gomes e a filiação do Sr Paulinho da Força em São Paulo dentre outras lutas.

Nossos questionamentos, a inorganicidade e a falta de compromisso político da direção nacional com a educação política na FAP, e as lutas internas em que questionávamos a coerência da linha política partidária com o brizolismo, conduziram ao afastamento de minhas tarefas e funções na fundação e a ser “colocado a disposição” da direção regional do PDT-RJ a partir de 2002.

Anos depois, retornei à direção da fundação, agora Fundação Leonel Brizola-Alberto Pasqualini, contra a vontade do Sr Manoel Dias, que assumia a Presidência da FLB-AP, ambos indicados pela direção nacional do PDT. Desde o primeiro momento evidenciou-se o assédio moral em relação a mim, devido a nossas divergências políticas e enfrentamentos relativos ao Fórum de Militantes do PDT e, secundariamente, por encaminhamentos relativos à criação e ao funcionamento da “Universidade” Aberta Leonel Brizola, cujo projeto foi imposto sem maiores reflexões, de forma pedagogicamente equivocada, tornando-se uma TV PDT vinculada a uma plataforma de EAD para “cumprir tabela” relativa a educação política que se torna a cada dia mais eleitoreira. Tudo isso a despeito dos esforços dos companheiros envolvidos honestamente na construção desse instrumento.

Resisti ao assédio moral do Sr Manoel Dias até a minha demissão em 2009, referendada pela direção nacional do PDT e fundamentada curiosamente em um suposto processo de reestruturação da instituição devido à crise financeira.

O fim de um ciclo...
A partir de 1983 e da derrota da emenda das Diretas, a direção nacional do PDT aprofundou o afastamento do projeto original de Lisboa e assumiu a proposta vanguardista de, partindo da eleição de Brizola à Presidência da República, iniciar “pelo alto” a destruição do atual modelo econômico neocolonial.

É neste ano que o PDT assume com a Carta de Mendes o chamado “socialismo democrático” – definição inexistente na Carta de Lisboa, no Manifesto e no Programa - e afirma que não pretende tomar o poder, mas chegar a ele pela via eleitoral. Com esta postura, a direção nacional do Partido esperava impedir, ou adiar, o ressurgimento do PSB e por outro lado respondia aos setores que acusavam Brizola de ser um incendiário, tornando sua candidatura à Presidência digerível por setores conservadores.

A partir daí, o PDT afasta-se das lutas sociais concretas dos excluídos e afunda cada vez mais na vala comum da participação exclusivamente parlamentar e eleitoral dos partidos de elite. Essa realidade alimentou o crescimento do eleitoralismo que subordinou toda a ação política do partido à possibilidade de conquistas eleitorais e contribuiu sobremaneira à derrota de Brizola frente a Lula no primeiro turno em 1989.

Com tal derrota, o PDT estava perante um dilema: retomar seu projeto histórico enfrentando a contradição entre a hegemonia do brizolismo na definição de nossas bandeiras políticas e a hegemonia do eleitoralismo e do liberalismo na definição das ações políticas e organizativas, ou enfrentar um profundo refluxo e até mesmo um processo de degeneração ideológica e política. A direção histórica do PDT optou por não enfrentar essa realidade e o que passamos a observar foi um afastamento cada vez maior do partido de seu projeto histórico.

O resultado são as crises e lutas internas sucessivas afetando profundamente a democracia interna do partido a partir da segunda metade dos anos 90 e desarticulando a militância do campo popular e classista em todas as instâncias. Nossa direção nacional, para fazer frente às lutas internas, desenvolve uma estratégia de reduzir a participação democrática nas instâncias partidárias.

Com a falta de discussão política, as instâncias e reuniões foram paulatinamente se transformando em espaços onde tudo imita a política e onde aos poucos, e a cada eleição, vão diminuindo os reduzidos espaços para qualquer sociabilidade digna. O convívio partidário transformou-se ele mesmo em cálculo – de sobrevivência ou de subserviência -, e todo o desprendimento desta lógica vai sendo “castigado”.

Nesta atmosfera apenas a intriga tornou-se permutável, transformando o PDT em uma agremiação política marcada pelas retaliações e interesses pessoais.
Cada vez mais a política vai sendo vista de forma liberal, como uma disputa pela filiação e apoio dos políticos profissionais e o partido funciona por espasmos e a reboque do processo eleitoral de dois em dois anos. Isso alimentou o crescimento do eleitoralismo, afastou o partido das lutas sociais concretas do povo trabalhador, tornando inorgânica e inócua a atuação dos militantes nas lutas de massas dos movimentos sociais, e subordinou toda a ação política do partido à participação exclusivamente parlamentar e eleitoral.

No começo, essa realidade ficou obscurecida pela coerência e experiência histórica dos que tomavam as decisões pelo partido. Lutadores sociais como Leonel Brizola, Edmundo Moniz, Adão Pereira Nunes, Francisco Julião, Neiva Moreira, Bayard Boiteux, Amadeu Rocha, Carmen Cinira, Brandão Monteiro, apenas para citar alguns deles.
Porém, isso foi comprometido pelo tempo. Para nossa tristeza, esses lutadores não são eternos.
Através de seu exemplo deixam ensinamentos para que as futuras gerações utilizem como instrumentos da luta popular.

A falta de organicidade de nosso partido somada à crise existente nos movimentos sociais e políticos favoreceram o voto de máquinas eleitorais e não ideológico, e a falta desses companheiros levou a uma hegemonia nas decisões partidárias de uma elite partidária abençoada pelo voto e pela amizade, clientela ou parentesco.

A partir daí, o partido aprofundou sua contradição principal entre a hegemonia do brizolismo na definição de nossas bandeiras políticas e a hegemonia do eleitoralismo e do liberalismo na definição das ações políticas e organizativas, o que nos encaminhou a uma série de divisões onde membros dessa elite partidária (como Cesar Maia, Marcelo Alencar, Dante de Oliveira, Jaime Lerner, Garotinho, aliados a uma parcela “dos abençoados pela amizade, clientela ou parentesco”), tentavam tomar de assalto o partido e impor seus projetos pessoais e eleitoreiros.

Nesses momentos, por absoluta falta de discussão política e vida partidária permanente nas instâncias, grande parte da “massa” do partido deixou-se levar pelo discurso fácil da falta de democracia interna, por parte daqueles que sempre se locupletaram da mesma, e acompanham essas “novas lideranças”. Com tudo isso, o PDT, que foi o maior partido de esquerda do Brasil na década de 80, foi perdendo densidade política e eleitoral e se tornou um pequeno partido nos anos 90.

Nossos diretórios passaram a privilegiar a discussão do exercício e/ou conquista de cargos públicos, não definindo linhas políticas e organizativas para nossas instâncias e para nossa atuação nos movimentos urbanos e do campo. Questões primárias relativas à organização, como, planejamento das ações políticas; reuniões permanentes; capacitação política; imprensa partidária periódica e permanente, e uma política de finanças menos dependente dos militantes com cargos de confiança nos parlamentos e nos governos, e do fundo partidário foram descaracterizadas pelo eleitoralismo pelo qual os militantes são vistos como meros cabos eleitorais, as instâncias como espaços para angariar votos e a educação política como simples agitação e propaganda de programas eleitorais e futuras candidaturas.

Hoje as instâncias formais apenas são ouvidas quando as decisões já foram tomadas pela elite partidária “abençoada” pelo voto, amizade, parentesco ou clientela. A “massa” – dirigentes intermediários e de base e os militantes-cabos eleitorais - é convocada apenas para referendar o consenso dessa elite partidária.

Desde antes da morte de Brizola essa elite partidária traçou uma estratégia para sua sobrevivência, assumindo como tática o aprofundamento da política do fato consumado, baseada no eleitoralismo e liberalismo, consolidando o PDT como um partido de aluguel e balcão de negócios eleitoreiros. Nesse processo, os interesses regionais e pessoais tomaram de assalto o PDT. A ironia é que o PDT reivindica a mística em torno da Revolução de 30, mas reproduz a política dos governadores e os partidos regionais das oligarquias estaduais que Getulio tanto combateu...

O resultado desta lógica partidária são instâncias onde os procedimentos são rituais, a começar pelas intervenções nas reuniões dos diretórios e executivas, uma vez que todos dizem exatamente o que se espera que digam, comprometendo consequentemente a elevação da consciência política de nossa militância e nos levando a um processo de resignação política de dirigentes e militantes.

Essa tática, transformada em estratégia permanente, é o fruto trágico da degeneração do PDT, comprometendo toda uma geração de dirigentes e militantes que não acredita mais nas lutas do povo trabalhador e menos ainda na viabilidade do projeto histórico do PDT de transformar profundamente a realidade brasileira a partir das lutas nacionais, democráticas e populares rumo a uma sociedade socialista.

Esse dirigentes produzem rituais comemorativos formais nas datas históricas do trabalhismo e do brizolismo, usando o nome de Brizola unicamente para garantir seus interesses menores. Não é para menos que em 2003, um ano antes de morrer, perante a pressão para negociar a aproximação com o governo Lula, Brizola aponta para a possibilidade de “fechar” o PDT e fundar um Movimento Nacional de Libertação.

A necessidade de recomeçar...
Com a ausência de Brizola o PDT, aprofundou sua distância do enfrentamento das questões de importância estratégica para o país e, paralelamente, abandonou o projeto histórico brizolista. Nada mais obscurece que a degeneração política e ideológica do PDT levou a sua cooptação petucana.

Ao entrar na base aliada do Governo Lula, o PDT assumiu claramente o neoliberalismo petucano abandonando suas bandeiras históricas por um vago discurso de defesa do trabalho e de manutenção das conquistas da CLT e se tornando uma sublegenda para justificar a ocupação de cargos e o uso dos recursos do MTE.

Como afirmou o último manifesto do Fórum de Militantes, “O PDT não se posiciona firmemente sobre temas como a reforma agrária, urbana e política, a precariedade da educação pública, a inexistência de uma política de saúde e o ressurgimento do fascismo nas políticas públicas de segurança e na criminalização da pobreza e dos movimentos sociais.

O PDT nada diz sobre a omissão cúmplice do governo Lula em relação à necessária auditoria e revisão da “privataria” do governo entreguista FHC, quando a totalidade das empresas estratégicas foi doada ao capital internacional e a PETROBRAS transformada em uma “empresa estatal de interesse privado”.

Omite-se quanto à entrega da Amazônia ao capital internacional e em relação aos enormes valores repassados ao agronegócio através de perdões e protelações de dívidas, enquanto a reforma agrária se torna uma política virtual e os assentamentos rurais e os pequenos agricultores são abandonados à própria sorte. Isto, sem falar na autonomia real do Banco Central nas mãos de um banqueiro tucano que garante rios de dinheiro aos bancos e aos investidores internacionais.

No mais, questionar o perdão das dívidas das Organizações Globo ao BNDES ou levantar na prática a defesa contundente da democratização dos meios de comunicação e o combate das perdas internacionais seria exigir demais de um PDT domesticado.”

Ouso afirmar que se Brizola estivesse vivo estaria denunciando duramente a manipulação que está sendo feita pelo governo Lula com o objetivo de convencer o povo brasileiro de que a atual crise do capitalismo é simples e transitória. Afirmam, inclusive, o PDT e seus representantes no governo e no parlamento, que essa crise será facilmente superável.

Vivemos uma grave crise estrutural do sistema capitalista. Uma verdadeira crise civilizatória que coloca em risco o futuro da humanidade. Uma crise estrutural que se manifesta de diversas formas e afeta a todos os níveis da vida em sociedade.

Essa crise atual é uma oportunidade para construir um novo caminho. Getúlio percebeu isso em 30 e Brizola na década de 60; hoje, o PDT se resume a um instrumento meramente eleitoreiro, que se recusa a cumprir o papel que a história está exigindo.
Brizola marcou a minha geração pela coerência com sua história de lutas, a coragem de defender aquilo em que acreditava e a ousadia de sempre dizer a verdade ao povo. Não foram poucas às vezes em que discordamos sobre os caminhos do PDT, mas nossas divergências se davam no campo do brizolismo.

Hoje o PDT não mais representa a memória de Leonel Brizola e menos ainda o brizolismo como instrumento de libertação nacional e social do Brasil. Não vejo mais nenhuma possibilidade de aprofundar quaisquer discussões políticas nas instâncias desse partido e ocorrer uma mudança em seus descaminhos.

A falta de democracia interna somada à degeneração de toda uma geração de dirigentes e militantes, e à “ampliação” petucana que tem sido capitaneada pela direção nacional, acabou com os últimos resquícios de sociabilidade digna nas instâncias do partido, e o que é mais grave, com suas disputas políticas internas.

Hoje tenho muito claro que o futuro do Brizolismo passa longe desse PDT que se degenerou. Por tudo isso, depois de 27 anos, saio do partido por coerência com o brizolismo.
Para que alguns ciclos políticos se abram, é realmente necessário que outros se fechem. Muitas vezes a vida vai lá e fecha por nós, na pancada, no susto. Muitas vezes, ficamos segurando porque dedicamos a maior parte de nossas vidas à construção de um projeto político, ou apenas receamos estar errados. Mas a realidade se impõe e temos que decidir, mesmo que pareça tão difícil.

Essa é uma decisão política que tomo sozinho depois de muita reflexão. Posso dizer sem medo de estar exagerando que empreguei, os assim chamados, “melhores anos da vida” ao projeto histórico do PDT. Não me arrependo um só milímetro, pois foi nessas lutas que moldei o meu caráter e as minhas convicções de nacionalista revolucionário e comunista, enfim de brizolista.

Tenho, também, absoluta certeza que as esperanças de um futuro para a luta de libertação nacional rumo ao socialismo passa bem longe dos partidos institucionais que temos hoje e que se arvoram "de esquerda", "socialistas", "comunistas" e/ou "revolucionários". Por isso, não pretendo militar em qualquer outro partido institucional.

Hoje, todos esses partidos, mesmo aqueles que estão na oposição institucional ao petucanismo, vivem crises com seus projetos históricos muito semelhantes com o que vivenciei no PDT ou se perdem vendendo ilusões com o mercado eleitoreiro em que se transformaram os partidos políticos e as eleições.

Sei que deixo no PDT amigos, camaradas e compatriotas que ainda acreditam na possibilidade de enfrentar a degeneração do PDT e que contarão sempre com minha solidariedade militante. Também existem lutadores em diversos partidos institucionais, insistindo, por amor ao que esses organismos significaram para eles e para a história do país, na necessidade de lutar internamente para reconduzi-los às bandeiras históricas presentes em suas fundações.

Lamentavelmente muitos ainda teimam em não levar em conta que as regras institucionais garantem um imenso poder aos dirigentes e militantes que se degeneraram. Para cada lutador social e político conquistado ideologicamente, eles trazem dezenas de indivíduos que sequer sabem o que é política, mas que irão filiar-se sem pensar duas vezes se isto significar alguma possibilidade de ganho financeiro e/ou proximidade com esferas de poder que lhes garantam o atendimento de seus interesses pessoais.

Portanto, o nascimento de organizações políticas que realmente tenham a capacidade de revolucionar o Brasil não se dará no ventre putrefato desses partidos, mesmo daqueles que outrora ajudaram a fazer a história da esquerda neste país. Estas organizações serão compostas pelos órfãos destes partidos...

Serão organizações políticas de novo tipo, populares, classistas e de combate e não meros instrumentos eleitorais. Em um primeiro momento, a questão do acesso ao poder pelas vias institucionais ficará em segundo plano, a prioridade delas será contribuir para a educação política e a organização do povo trabalhador em suas lutas por reivindicações concretas. Será nessas lutas que essas organizações construirão uma unidade na ação para conformar uma frente antiimperialista, popular e classista para encaminhar as lutas pela libertação nacional rumo ao socialismo.

Sendo assim, passo a dedicar integralmente as minhas energias na construção do Movimento Revolucionário Nacionalista - Círculos Bolivarianos/ MORENA-CB de inspiração bolivariana, brizolista e guevarista que é uma organização política de novo tipo que aposta e acredita na força do povo para libertar o Brasil dos desmandos do capital e do imperialismo.

Ousar lutar como brizolista!
Ousar vencer com o povo trabalhador!
Ousar sonhar com a libertação nacional e o socialismo!

Revolucionariamente,



Aurelio Fernandes
http://aureliofernandes.blogspot.com/ (Neste Blog estão os textos que considero mais representativos de tudo que produzi coletivamente sobre o projeto histórico e os rumos do PDT.). Contato: aurefern@uol.com.br

Rio, 15 de julho de 2009
[*] Licenciado em História pela UERJ com especialização em História do Brasil e Educação a Distância. Professor de História da Rede Pública Estadual. Professor de História do Trabalhismo da ULB. Membro do diretório nacional do PDT, membro honorário da JS/PDT, ex-membro dos diretórios estadual do Rio de Janeiro e municipal da cidade do Rio de Janeiro e diretor da FLB-AP. Faz parte da coordenação nacional do Movimento Revolucionário Nacionalista – Círculos Bolivarianos/MORENA-CB. Assessor da FAFERJ e militante do MTST/RJ. Foi diretor da CUT/RJ, do SEPE/RJ-RIII e da UEE/RJ.

Resposta as "novas gerações" da JS/PDT

Corra que a “patrulha” vem aí... ou como difamar “velhas gerações.”


Carlos Alberto de Ré (Minhoca), Aurelio Fernandes, Winston Sacramento e Francineide Sales *

“A luta contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento.”
Kundera

“Não admitam que ninguém acredite em nada que não compreenda. Assim se produzem fanáticos, se desenvolvem inteligências místicas, dogmáticas, fanáticas.
“E quando alguém não compreende algo, não parem de discutir com ele até que compreenda, e se não compreende hoje, compreenderá amanhã, compreenderá depois de amanhã, porque as verdades da realidade histórica são tão claras, e são tão evidentes, e são tão palpáveis, que, mais cedo ou mais tarde, toda inteligência honrada ’ compreenderá.
“Que ninguém vá a nenhuma escola revolucionária para ser doutrinado. Que ninguém se deixe doutrinar, que ninguém aceite absolutamente nada que não compreenda. Que vá educar-se, aprender a pensar, aprender a analisar, a receber elementos de juízo para que compreenda...”
(Fidel Castro,1º de dezembro de 1961)


Em 1979, Brizola reuniu em Lisboa, às vésperas da anistia, os adeptos do projeto de refundação do PTB, que significava para seus idealizadores, enfrentar as tarefas do presente, preparar o futuro como um partido renovado, aberto a articulações internacionais e com propostas construtivas, favoráveis ao diálogo, voltadas para o futuro, sem cultivar mágoas ou ressentimentos.

Esta articulação reunia desde deputados estaduais, federais e senadores do MDB, até militantes oriundos de organizações da nova esquerda que se envolveram na luta armada contra a ditadura a partir do AI-5 passando por militantes dissidentes do PCB e aqueles oriundos das primeiras tentativas de resistência armada em Caparaó e Uberlândia.

Ao aglutinar setores que defendiam o trabalhismo como caminho brasileiro para o socialismo, Brizola foi duramente criticado pelo grupo de Ivete Vargas por propor um conteúdo “socialista” ao novo PTB. Defendendo a liderança de Brizola no PTB estavam jovens de vários estados, que após a perda da sigla para os trabalhistas conservadores de Ivete Vargas, ajudaram a construir o PDT, e organizaram em 1981 a Juventude Trabalhista do PDT.

Alguns desses jovens trabalhadores e estudantes, orgulhosamente levantaram-se em armas contra a ditadura militar e militaram em organizações políticas que questionavam cotidianamente uma tradição dogmática e burocrática de setores políticos marxistas do campo popular, sem no entanto abandonar o marxismo e a defesa da democracia socialista. Outros defendiam a social democracia, influenciados por uma visão eurocentrica da Guerra Fria, fruto de um repúdio natural e justificado de uma caricatura de marxismo que “aprenderam” com as organizações políticas que romperam ou divergiam politicamente.

Porém, a grande maioria destes jovens foram influenciados pela conjuntura política e sem experiências partidárias anteriores, participavam pela primeira vez da vida democrática, se filiando ao “partido do Brizola” e construindo seus referenciais políticos e ideológicos através das discussões políticas nas reuniões e congressos da organização juvenil do partido e nas instâncias do PDT.

Logo, muito nos espantou a “revisão histórica” relativa as posições políticas e ideológicas da JS PDT nos primeiros anos de sua fundação, no texto 20 anos na luta pela igualdade, no panfleto de divulgação do 10º Congresso Nacional da JS/PDT que aqui reproduzimos integralmente:

“Formada inicialmente por diversos membros oriundos da esquerda armada a Juventude organizou-se com um programa marxista que pretendia transformar esse segmento partidário em um instrumento radicalizado de luta política, que precipitasse as lutas de classe na busca da transformação revolucionária.”

Este pequeno parágrafo, fruto da ignorância histórica ou de uma postura política mal intencionada que visa “inventar” argumentos para legitimar algum posicionamento, falsifica o conteúdo político e ideológico dos documentos fundadores da organização juvenil do PDT que, nós, das “velhas gerações”, ajudamos a construir.
A melhor resposta ao lamentável viés discriminatório deste documento é a reprodução de partes dos documentos fundadores da Juventude Trabalhista do PDT há 20 anos:

“A Juventude Trabalhista deve discutir e propor formas de organização para encaminhar os principais problemas sentidos especificamente pelos jovens. Isso se faz necessário porque além da contradição de classe, a juventude está exposta à toda sorte de contradições peculiares à ela, qual seja: a falta de democratização no ensino, o conflito entre o estudo e o trabalho, a ecologia; além das mais diversas formas de repressão que se abatem sobre a juventude.
A Juventude Trabalhista será o próprio Partido, com a especial função de trazer a juventude brasileira para o PDT, notadamente, os jovens trabalhadores da cidade e do campo e marginalizados em geral.
O papel da Juventude Trabalhista fica, pois, essencialmente comprometido com a própria vocação histórica do trabalhismo, seja nas suas tarefas mais ime­diatas, seja na reafirmação dos compromissos com a DEMOCRACIA, com o SOCIALISMO e com a LIBERDADE.”

“Temos um projeto essencialmente democrático de transformação da sociedade brasileira. Isto significa que assumimos a democracia em todas as suas dimensões e consequências e não apenas no sentido abstrato e formal de “igualdade de todos perante a lei”. Assim, começamos por afirmar concretamente que o trabalho é a relação básica sobre a qual se constitui a vida social, fonte que é de todos os bens económicos, políticos e culturais.


É a partir dessa relação concreta que se decide a questão da democracia, tanto no seu sentido economico-social como no seu sentido político. Por isto, é o trabalho e aos direitos dos trabalhadores que atribuímos a primazia, para transformar as relações de produção injustas e desumanas que imperam em nossa sociedade, e que são produzidas e consolidadas pelas relações de poder vigentes, as quais não correspondem sequer à democracia formal e muito menos à democracia no sentido substancial que buscamos. Esta só poderá se realizar como democracia trabalhista, como um processo de organização e participação dos trabalhadores e de amplos setores populares, para que influam ativamente nas decisões políticas e se beneficiem dos frutos da produção.


Isto implica uma nova forma de atuação política, uma política que ultrapasse os marcos tradicionais, restritos às manifestações eleitorais e à representação parlamentar, para afirmar-se a partir do trabalho de base de modo a identificar e dinamizar os interesses verdadeiramente populares.”

“Na verdade, o PDT ocupa um espaço político pr6prio, que nenhuma outra organização partidária pode preencher. Como partido de massas e de quadros, a sua inserção configura um amplo arco social que vai dos marginalizados do campo e da cidade aos operários da indústria, às camadas médias e aos pequenos proprietários. A sua organização vem sendo feita sobre uma linha inequívoca de atuação, voltada para a defesa dos interesses nacionais, para a luta contra o latifúndio, ao lado dos movimentos emergentes nas áreas urbanas.”

“O nosso Programa é, simultaneamente, uma negação e uma afirmação. Nega o capitalismo e suas deformações intrínsecas, mas não deixa de afirmar um modelo alternativo em plena consonância com os anseios das classes populares. Temos uma tarefa árdua e duplamente desafiadora: derrubar uma ordem económica e social limitada, dependente e subordinada ao imperialismo para, concomitantemente, construir democraticamente um Estado popular e socialista.


O papel da Juventude Trabalhista fica, pois, essencialmente comprometido com a própria vocação histórica do trabalhismo, seja nas suas tarefas mais imediatas e formativas, seja no seu compromisso com a história.”

“A priori” o jovem não é rebelde, nem revolucionário e nem agente de transformação nenhuma, como querem crer algumas correntes. Pelo contrário, está sujeito de forma bastante acentuada à ideologia gerada pelas classes dominantes. É preciso entender muito bem isso. o potencial do jovem, a sua virtualidade está no fato de que ele está muito exposto a toda sorte de contradições, tanto de classe social, como daqueles problemas de diferença de gerações. Há, também, uma sensibilizacão muito forte para questões de extrema atualidade, como: ecologia, democratização do ensino, emprego, costumes, aborto, drogas, comportamento, racismo, etc. Deveremos saber captar, canalizar e capitalizar todas essas questões produzidas pela vida social e que deixam um rastro de inquietação e polémica. Nenhum Estado capitalista, nenhuma sociedade fundada na desigualdade será capaz de equacionar esses problemas pelo simples fato de que é essa mesma sociedade a sua usina central de geração.”

Em nenhum momento é proposto a transformação da organização juvenil do PDT em “um instrumento radicalizado de luta política, que precipitasse as lutas de classe na busca da transformação revolucionária”, ou algo parecido com isso, por mais que as “novas gerações” tenham “entendido” dessa forma. Também, como pode-se apreender dos textos acima, a JT/PDT, posteriormente JS/PDT, sempre defendeu o programa do PDT e não um hipotético programa marxista, que com certeza não foi aprovado em nenhum dos Congressos Nacionais que estivemos presentes.

Gostaríamos de lembrar para as “novas gerações” que mesmo se fosse essa a intenção das “velhas gerações”, nenhuma organização política tem o “dom” de precipitar as lutas de classe na busca de uma transformação revolucionária. São as classes dominantes, não podendo admitir que o povo se rebele contra as conseqüências antipopulares e antidemocráticas do regime explorador que defendem, que usam esse tipo de afirmação para justificar a utilização da violência dos órgãos de repressão política quando o povo resolve tomar com suas próprias mãos a construção do seu destino.

Nos recusamos a acreditar que as “novas gerações” da Juventude Socialista do PDT com suas “profundas transformações nos conceitos e práticas” estejam confundindo o maccartismo das cartilhas da Agencia Brasileira de Informações (ex SNI) ou do velho Comando de Caças aos Comunistas com uma “elaboração restrita(sic) aos preceitos do trabalhismo e do socialismo democrático”. Menos ainda, podemos acreditar que “novas gerações’ estejam retomando às criticas dos trabalhistas conservadores de Ivete Vargas ao projeto histórico que Brizola, ao perder a sigla, retomou no PDT há 21 anos.

Esperamos que após um processo de reflexão essas “novas gerações” da Juventude Socialista do PDT façam justiça a história de uma organização juvenil que sempre se posicionou de forma coerente, sem sectarismo, dogmatismo ou fanatismo, frente aos desafios que a realidade impõe aos jovens trabalhadores, estudantes e excluídos.


* Foram militantes e dirigentes da Juventude Trabalhista e da Juventude Socialista do PDT, atuando em suas mais diversas instancias. Hoje pertencem aos diretórios estaduais do PDT no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul.

Manifesto doFórum de Militantes do PDT à Convenção nacional do PDT

10 de junho de 2002

Manifesto do Fórum de Militantes do PDT à Convenção Nacional do PDT

Quem poderia imaginar que o nosso Partido, o PDT, estivesse na iminência de sucumbir ante um oportunismo político ou a uma contabilidade eleitoral?

Aliam-se a partidos de índoles diferentes, momentaneamente com objetivos comuns ou quando uma situação grave - de defesa da soberania ou de uma guerra - impõe uma conjugação de esforços para a proteção e defesa da Nação. Não é o caso da presente aliança.

O Trabalhismo de que falamos não merece ações oportunísticas, nem adjetivações “de resultados”. Nosso Trabalhismo é substantivo e desde a sua criação advoga respeito a força de trabalho dada a importância dos traba1hadores na transformação dos insumos em utilidades de toda espécie, ao direito dos trabalhadores de participarem ativamente na defesa de seus interesses e, principalmente, o respeito ao trabalho que os dignifica.

Não aceitamos o argumento de que “entre eles” ( esses outros partidos ) há pessoas tão bem intencionadas quanto nós, pois nós sabemos que, entre nós, existem muitos mal intencionados - vide os traidores de recentíssima memória!

Alianças são válidas, mas não podemos admiti-las desse jeito.

Se tivéssemos candidato próprio - e é o que não nos falta - a militância estaria tranquila e em paz sabendo da importância das coligações e das alianças programáticas para o atingimento do poder político. Não dessa forma como nos esta sendo impingida, goela abaixo, sem discussão, sem democracia, sem respeito a todos nós, aos nossos princípios e as nossas tradições.

Não estamos fazendo alianças, muito menos dos trabalhistas; estamos sendo incorporados, cooptados, por agremiações pelegas, casuísticas, colaboracionistas, elítizadas e elitizantes, em nome de um Trabalhismo que não tem o mesmo significado. E como se estivéssemos somando bananas com laranjas, só dará figos podres.

Atentem para o fato dc que a militância do PDT evoluiu e muito. Queremos discutir política, queremos ser ouvidos, queremos s defender nossos argumentos, queremos ajudar a pavimentar a estrada de um partido com P maiúsculo. Que tenha do que se orgulhar , que tenha futuro e não seja uma simples sigla de aluguel !

É falsa, alias sempre foi falsa, a alegação de que somos um Partido de campanhas, que se agiganta nas eleições. Poderia até ser, se ora tivéssemos candidato. Nunca foi assim e muito menos o é agora.

A militância venera o seu líder maior, Leonel de Moura Brizola, que se levantou contra o golpe das elites em 1961, na famosa campanha da legalidade, que garantiu o respeito à Constituição e a posse de Jango.

A militância cobra, entretanto. coerência, a mesma que sempre ditou as decisões do maior estadista vivo deste País.

A militância sabe que o oportunismo político é castigado com a indiferença, com o desprezo, com a repugnância, com ausência de votos, com o ostracismo.

A militância já não carrega qualquer andor, deseja saber qual santo vai em cima !

Fórum de Militantes do PDT
em defesa do Estatuto,
das Cartas de Princípios
e do Programa do
Partido Democrático Trabalhista