Resposta as "novas gerações" da JS/PDT

Corra que a “patrulha” vem aí... ou como difamar “velhas gerações.”


Carlos Alberto de Ré (Minhoca), Aurelio Fernandes, Winston Sacramento e Francineide Sales *

“A luta contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento.”
Kundera

“Não admitam que ninguém acredite em nada que não compreenda. Assim se produzem fanáticos, se desenvolvem inteligências místicas, dogmáticas, fanáticas.
“E quando alguém não compreende algo, não parem de discutir com ele até que compreenda, e se não compreende hoje, compreenderá amanhã, compreenderá depois de amanhã, porque as verdades da realidade histórica são tão claras, e são tão evidentes, e são tão palpáveis, que, mais cedo ou mais tarde, toda inteligência honrada ’ compreenderá.
“Que ninguém vá a nenhuma escola revolucionária para ser doutrinado. Que ninguém se deixe doutrinar, que ninguém aceite absolutamente nada que não compreenda. Que vá educar-se, aprender a pensar, aprender a analisar, a receber elementos de juízo para que compreenda...”
(Fidel Castro,1º de dezembro de 1961)


Em 1979, Brizola reuniu em Lisboa, às vésperas da anistia, os adeptos do projeto de refundação do PTB, que significava para seus idealizadores, enfrentar as tarefas do presente, preparar o futuro como um partido renovado, aberto a articulações internacionais e com propostas construtivas, favoráveis ao diálogo, voltadas para o futuro, sem cultivar mágoas ou ressentimentos.

Esta articulação reunia desde deputados estaduais, federais e senadores do MDB, até militantes oriundos de organizações da nova esquerda que se envolveram na luta armada contra a ditadura a partir do AI-5 passando por militantes dissidentes do PCB e aqueles oriundos das primeiras tentativas de resistência armada em Caparaó e Uberlândia.

Ao aglutinar setores que defendiam o trabalhismo como caminho brasileiro para o socialismo, Brizola foi duramente criticado pelo grupo de Ivete Vargas por propor um conteúdo “socialista” ao novo PTB. Defendendo a liderança de Brizola no PTB estavam jovens de vários estados, que após a perda da sigla para os trabalhistas conservadores de Ivete Vargas, ajudaram a construir o PDT, e organizaram em 1981 a Juventude Trabalhista do PDT.

Alguns desses jovens trabalhadores e estudantes, orgulhosamente levantaram-se em armas contra a ditadura militar e militaram em organizações políticas que questionavam cotidianamente uma tradição dogmática e burocrática de setores políticos marxistas do campo popular, sem no entanto abandonar o marxismo e a defesa da democracia socialista. Outros defendiam a social democracia, influenciados por uma visão eurocentrica da Guerra Fria, fruto de um repúdio natural e justificado de uma caricatura de marxismo que “aprenderam” com as organizações políticas que romperam ou divergiam politicamente.

Porém, a grande maioria destes jovens foram influenciados pela conjuntura política e sem experiências partidárias anteriores, participavam pela primeira vez da vida democrática, se filiando ao “partido do Brizola” e construindo seus referenciais políticos e ideológicos através das discussões políticas nas reuniões e congressos da organização juvenil do partido e nas instâncias do PDT.

Logo, muito nos espantou a “revisão histórica” relativa as posições políticas e ideológicas da JS PDT nos primeiros anos de sua fundação, no texto 20 anos na luta pela igualdade, no panfleto de divulgação do 10º Congresso Nacional da JS/PDT que aqui reproduzimos integralmente:

“Formada inicialmente por diversos membros oriundos da esquerda armada a Juventude organizou-se com um programa marxista que pretendia transformar esse segmento partidário em um instrumento radicalizado de luta política, que precipitasse as lutas de classe na busca da transformação revolucionária.”

Este pequeno parágrafo, fruto da ignorância histórica ou de uma postura política mal intencionada que visa “inventar” argumentos para legitimar algum posicionamento, falsifica o conteúdo político e ideológico dos documentos fundadores da organização juvenil do PDT que, nós, das “velhas gerações”, ajudamos a construir.
A melhor resposta ao lamentável viés discriminatório deste documento é a reprodução de partes dos documentos fundadores da Juventude Trabalhista do PDT há 20 anos:

“A Juventude Trabalhista deve discutir e propor formas de organização para encaminhar os principais problemas sentidos especificamente pelos jovens. Isso se faz necessário porque além da contradição de classe, a juventude está exposta à toda sorte de contradições peculiares à ela, qual seja: a falta de democratização no ensino, o conflito entre o estudo e o trabalho, a ecologia; além das mais diversas formas de repressão que se abatem sobre a juventude.
A Juventude Trabalhista será o próprio Partido, com a especial função de trazer a juventude brasileira para o PDT, notadamente, os jovens trabalhadores da cidade e do campo e marginalizados em geral.
O papel da Juventude Trabalhista fica, pois, essencialmente comprometido com a própria vocação histórica do trabalhismo, seja nas suas tarefas mais ime­diatas, seja na reafirmação dos compromissos com a DEMOCRACIA, com o SOCIALISMO e com a LIBERDADE.”

“Temos um projeto essencialmente democrático de transformação da sociedade brasileira. Isto significa que assumimos a democracia em todas as suas dimensões e consequências e não apenas no sentido abstrato e formal de “igualdade de todos perante a lei”. Assim, começamos por afirmar concretamente que o trabalho é a relação básica sobre a qual se constitui a vida social, fonte que é de todos os bens económicos, políticos e culturais.


É a partir dessa relação concreta que se decide a questão da democracia, tanto no seu sentido economico-social como no seu sentido político. Por isto, é o trabalho e aos direitos dos trabalhadores que atribuímos a primazia, para transformar as relações de produção injustas e desumanas que imperam em nossa sociedade, e que são produzidas e consolidadas pelas relações de poder vigentes, as quais não correspondem sequer à democracia formal e muito menos à democracia no sentido substancial que buscamos. Esta só poderá se realizar como democracia trabalhista, como um processo de organização e participação dos trabalhadores e de amplos setores populares, para que influam ativamente nas decisões políticas e se beneficiem dos frutos da produção.


Isto implica uma nova forma de atuação política, uma política que ultrapasse os marcos tradicionais, restritos às manifestações eleitorais e à representação parlamentar, para afirmar-se a partir do trabalho de base de modo a identificar e dinamizar os interesses verdadeiramente populares.”

“Na verdade, o PDT ocupa um espaço político pr6prio, que nenhuma outra organização partidária pode preencher. Como partido de massas e de quadros, a sua inserção configura um amplo arco social que vai dos marginalizados do campo e da cidade aos operários da indústria, às camadas médias e aos pequenos proprietários. A sua organização vem sendo feita sobre uma linha inequívoca de atuação, voltada para a defesa dos interesses nacionais, para a luta contra o latifúndio, ao lado dos movimentos emergentes nas áreas urbanas.”

“O nosso Programa é, simultaneamente, uma negação e uma afirmação. Nega o capitalismo e suas deformações intrínsecas, mas não deixa de afirmar um modelo alternativo em plena consonância com os anseios das classes populares. Temos uma tarefa árdua e duplamente desafiadora: derrubar uma ordem económica e social limitada, dependente e subordinada ao imperialismo para, concomitantemente, construir democraticamente um Estado popular e socialista.


O papel da Juventude Trabalhista fica, pois, essencialmente comprometido com a própria vocação histórica do trabalhismo, seja nas suas tarefas mais imediatas e formativas, seja no seu compromisso com a história.”

“A priori” o jovem não é rebelde, nem revolucionário e nem agente de transformação nenhuma, como querem crer algumas correntes. Pelo contrário, está sujeito de forma bastante acentuada à ideologia gerada pelas classes dominantes. É preciso entender muito bem isso. o potencial do jovem, a sua virtualidade está no fato de que ele está muito exposto a toda sorte de contradições, tanto de classe social, como daqueles problemas de diferença de gerações. Há, também, uma sensibilizacão muito forte para questões de extrema atualidade, como: ecologia, democratização do ensino, emprego, costumes, aborto, drogas, comportamento, racismo, etc. Deveremos saber captar, canalizar e capitalizar todas essas questões produzidas pela vida social e que deixam um rastro de inquietação e polémica. Nenhum Estado capitalista, nenhuma sociedade fundada na desigualdade será capaz de equacionar esses problemas pelo simples fato de que é essa mesma sociedade a sua usina central de geração.”

Em nenhum momento é proposto a transformação da organização juvenil do PDT em “um instrumento radicalizado de luta política, que precipitasse as lutas de classe na busca da transformação revolucionária”, ou algo parecido com isso, por mais que as “novas gerações” tenham “entendido” dessa forma. Também, como pode-se apreender dos textos acima, a JT/PDT, posteriormente JS/PDT, sempre defendeu o programa do PDT e não um hipotético programa marxista, que com certeza não foi aprovado em nenhum dos Congressos Nacionais que estivemos presentes.

Gostaríamos de lembrar para as “novas gerações” que mesmo se fosse essa a intenção das “velhas gerações”, nenhuma organização política tem o “dom” de precipitar as lutas de classe na busca de uma transformação revolucionária. São as classes dominantes, não podendo admitir que o povo se rebele contra as conseqüências antipopulares e antidemocráticas do regime explorador que defendem, que usam esse tipo de afirmação para justificar a utilização da violência dos órgãos de repressão política quando o povo resolve tomar com suas próprias mãos a construção do seu destino.

Nos recusamos a acreditar que as “novas gerações” da Juventude Socialista do PDT com suas “profundas transformações nos conceitos e práticas” estejam confundindo o maccartismo das cartilhas da Agencia Brasileira de Informações (ex SNI) ou do velho Comando de Caças aos Comunistas com uma “elaboração restrita(sic) aos preceitos do trabalhismo e do socialismo democrático”. Menos ainda, podemos acreditar que “novas gerações’ estejam retomando às criticas dos trabalhistas conservadores de Ivete Vargas ao projeto histórico que Brizola, ao perder a sigla, retomou no PDT há 21 anos.

Esperamos que após um processo de reflexão essas “novas gerações” da Juventude Socialista do PDT façam justiça a história de uma organização juvenil que sempre se posicionou de forma coerente, sem sectarismo, dogmatismo ou fanatismo, frente aos desafios que a realidade impõe aos jovens trabalhadores, estudantes e excluídos.


* Foram militantes e dirigentes da Juventude Trabalhista e da Juventude Socialista do PDT, atuando em suas mais diversas instancias. Hoje pertencem aos diretórios estaduais do PDT no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul.

2 comentários:

  1. Aurélio,

    tive o prazer de te conhecer há uns 2 anos, levado por um colega do IFCS/UFRJ. Fiquei admirado pela sua militância, estive no CBLB e no PDT. Na época, procurava um partido de esquerda para me filiar e, não me filiei ao PDT porque já naquele momento, eu percebi que a sua luta não era parte integrante do PDT. Acabei me filiando ao PT, de lá pra cá, pude constatar que o mesmo "eleitorismo" explicitado por você nesta CARTA ABERTA DE DESFILIAÇÃO, está presente no PT.

    Acredito no potencial dos Círculos Bolivarianos como movimento social, mas não como uma força que substituirá o sistema eleitoral/partidário no Brasil. Dessa forma, ainda acho necessária a participação nesse sistema eleitoral/partidário corrompido, para inclusive transformá-lo. Os movimentos sociais ainda devem participar!

    Um grande partido de esquerda não existe no Brasil porque as forças políticas estão dispersas. Militantes e políticos que, pelo apreço histórico aos seus respectivos partidos (de passado esquerdista), permanecem neles, inviabilizam a aglutinação das forças de esquerda. Por um momento, eu pensei que o PSOL poderia ser o aglutinador dessas forças dispersas e descontentes, mas não teve força suficiente para isso. Sou um zumbi no PT e ainda procuro um partido para me filiar...

    Reconheço a sua coerência ao sair do PDT, mas lamento sua saída da vida partidária.

    Um abraço,
    Gutemberg

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  2. Caro Gutemberg,
    Não estou abandonando a vida partidária. Apenas entendo que a via eleitoral na atual conjuntura é perda de tempo. Para mudar essa conjuntura só com o avanço das lutas dos movimentos populares. Quem sabe, a partir desse avanço podemos construir essa unidade do campo popular e classista...

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