2000 combatendo o “novo trabalhismo” de Garotinho

02 de julho de 2000

O “novo trabalhismo” de Garotinho e a democracia interna no PDT

Para os navegantes com desejo de vento,
a memória é um ponto de partida.
Eduardo Galeano

A memória sempre é o melhor ponto de partida para refletirmos sobre a realidade presente e definirmos rumos para o futuro. No atual momento de crise onde está em jogo o projeto histórico do PDT a memória é, com certeza, o refúgio onde deve-se iniciar nossas reflexões e procurar os caminhos que superem as incertezas e perplexidades.

Com ares de renovação partidária, a liderança de Garotinho começa a surgir em meados do início da década de 80. Rompendo com o PT e filiando-se ao PDT em 1983, rapidamente o jovem radialista se destaca na política do Norte Fluminense. Com um discurso de esquerda e de combate à oligarquia campista, conquista seus primeiros mandatos. Assume posicionamentos e políticas públicas que fazem com que desponte para a direção histórica[1] do partido como uma liderança emergente que tinha de ser estimulada e alçada a vôos maiores.

A oportunidade surge em 1988. A luta fratricida entre grupos e frações na JS/PDT de nosso estado impedia o seu crescimento em comparação ao avanço observado em outras unidades da federação. Assim, a Executiva Nacional da JS/PDT é estimulada pela direção histórica do Partido a procurar Garotinho, prefeito de Campos, e propor que ele assumisse a direção da JS/PDT do Estado do Rio como interventor.

Garotinho discute diretamente com a direção histórica do partido sendo imposto imediatamente, pelo presidente Cibillis Vianna, como interventor da JS/PDT do Rio de Janeiro. Ao contrário do que a Executiva Nacional da JS/PDT esperava, Garotinho aumenta a disputa interna no Rio formando o seu grupo na JSPDT e continuando com as lutas e brigas internas.

Posteriormente, próximo às eleições presidenciais de 1989, a direção histórica do partido temia que o processo de consolidação da hegemonia política que existia na JS/PDT[2] não fosse capaz de implementar uma campanha juvenil identificada com suas estratégias eleitorais. Ainda alimentavam este temor questões como a troca de nome de Juventude Trabalhista para Juventude Socialista e o apoio a Central Única de Trabalhadores - aprovadas em Congressos anteriores da JS/PDT -, a oposição ativa e militante da JS/PDT à aliança com o PDS gaúcho nas eleições de 1986 e posicionamentos de militantes e dirigentes da JS/PDT em Congressos e instâncias partidárias apontando equívocos e desvios do projeto original de partido que construímos em Lisboa.

Desta forma, a direção histórica do partido inicia uma articulação no sentido de uma intervenção no VI Congresso nacional da JS/PDT, onde Garotinho seria imposto como Presidente Nacional.
O VI Congresso Nacional da JS/PDT - que ocorreria em 1989 - era fruto de um processo de discussões internas que apontavam para mudanças expressivas. A JS/PDT romperia com a lógica de uma organização política juvenil com atuação exclusiva no movimento estudantil e assumiria o objetivo de organizar politicamente os jovens marginalizados e excluídos.
Seria aprovado um novo estatuto que romperia com o negócio de “eleger presidente”, que sempre levou a uma constante “luta” interna prejudicial a discussão política. Uma organização juvenil de novo tipo, onde se efetivaria uma representatividade da base através da criação de núcleos em cada espaço de luta política juvenil apontando para uma maior participação dos militantes nos rumos da JS/PDT.

Com a intervenção da direção histórica do partido, o VI Congresso Nacional da JS/PDT em 1989 é transformado, após a resistência dos militantes, em um Encontro. Representantes estaduais eleitos por plenárias de militantes dos estados presentes escolheriam uma coordenação nacional da JS/PDT. Com a maioria de militantes do PDT de Campos trazida para o evento nacional da campanha presidencial de Brizola, que ocorria no mesmo momento em Brasília, o interventor Garotinho se “elege”[3] como representante na “plenária” de militantes da JS/PDT do Rio.

Articulado pela direção histórica do partido, Garotinho é “escolhido“ para participar de uma coordenação nacional com mais dois companheiros eleitos pelas bancadas de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul e, imediatamente após o Encontro, se autointitula presidente nacional da JS/PDT.

Após participar da campanha de Brizola como o mais jovem prefeito do Brasil e “presidente nacional” da juventude do PDT, Garotinho abandona qualquer encaminhamento concreto transformando a JS/PDT em um cartório juvenil. Todo o processo histórico de discussão que ocorria desde a fundação da JS/PDT em 1981 e o início de construção de uma organização juvenil de novo tipo se perdem.

A ênfase neste processo ocorrido na juventude do partido prende-se, unicamente, ao fato de ser o momento inicial do processo onde Garotinho é “alçado a vôos maiores” por nossa direção histórica e por ser emblemático pois compromete todo um processo histórico de discussão democrática. Pois, mesmo se reestruturando no VI Congresso de Vitória em 1991, a JS/PDT tornou-se, até hoje, um arremedo do que poderia ter sido se não houvesse uma intervenção naquele momento histórico.

Mais a história continua, na convenção para a escolha do candidato a governador do Estado do Rio para disputar as eleições de 94 Garotinho é “ungido” candidato do partido. Antes da convenção, em discussão estimulada pela direção histórica, ocorre a retirada das fortes pré-candidaturas, de Jorge Roberto da Silveira e Noel de Carvalho. Nas eleições Garotinho se apresenta como “oposição” atacando duramente o Governador Nilo Batista do PDT. Este fato gerou uma confusão ideológica na cabeça dos eleitores que terminaram por optar pela autenticidade oposicionista da candidatura do traidor Marcello Allencar.

Nas eleições de 98 Brizola garante a intervenção no diretório estadual do PT que permite a formação da chapa Garotinho Benedita, apesar do questionamento da maioria dos militantes do PDT do Rio a aliança com o PT de Benedita, e o partido investe uma soma considerável de recursos do fundo partidário na candidatura Garotinho em detrimento de candidaturas de outros estados.

É interessante observar que é este mesmo Garotinho que questiona duramente a mesma direção histórica que iniciou seus “vôos maiores” como interventor nas instâncias da JS/PDT. Assim tudo isto leva a duas indagações:
· Será que a “oposição” à falta de democracia interna não se resume a atitude daquele que se sente alijado do centro de hegemonia que toma as decisões ? Será que se os seus interesses estivessem sendo atingidos existiria um questionamento à falta de democracia interna ?
· Será que enfatizar a discussão sobre democracia interna não está servindo para desviar a discussão do que é fundamental: o que é e qual o significado político do “novo” trabalhismo como prática partidária e de governo ?

Estas são discussões que aqueles comprometidos com a democracia interna do partido devem cobrar em nossas instâncias partidárias. Sem estas de nada adiantam discussões acaloradas sobre o apoio ou a traição de Garotinho à candidatura de Brizola a prefeito.

Ousar lutar ! Ousar vencer !
Viva o brizolismo ! Viva o socialismo !
Avante e pela esquerda !


[1] Referência a todos aqueles quadros de direção que, junto à Brizola, historicamente dirigem o partido desde a sua fundação detendo sua hegemonia.
[2] Desde a fundação uma hegemonia política pela esquerda era exercida na JS/PDT fundamentalmente pela sua seção gaúcha articulada a outras seções e com setores da juventude do Rio.
[3] Naquele momento, a JS/PDT do nosso estado assistiu um dos fatos mais absurdos de sua história. Votaram nesta plenária militantes do PDT de Campos com muito mais de 35 anos e apoiados pelo discurso do interventor Garotinho de que “a idade das pessoas não está em seu tempo de vida cronológico, mas em seus ideais “(sic).

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