2002 O resultado das eleições de 2002 e as perspectivas do PDT

Agora é Luta...
O resultado das eleições de 2002 e as perspectivas do PDT.


Introdução

O resultado das urnas em 2002...

O que as vitórias tem de ruim é que elas não são definitivas.
O que as derrotas tem de bom é que elas não são definitivas.
José Saramago


Os 8 anos de governo neoliberal de Fernando Henrique levaram o país a uma situação alarmante: desindustrialização, produção em ritmo lento, PIB per capita em queda, e brutal aumento das dívidas interna e externa. Com tudo isso a vulnerabilidade externa do Brasil é hoje muito maior que há dez anos atrás, quando o Partido da Social Democracia Brasileira chegou ao governo federal pregando melhorias na qualidade de vida da maioria da população.

Os maiores beneficiários do atual modelo capitalista neoliberal vigente no Brasil são os bancos, as multinacionais, o setor financeiro internacional, os países ricos credores e as empresas e setores do capital que adquiriram o patrimônio público no processo de privatização.

Os grandes prejudicados foram os trabalhadores e a maioria da população que nos dois mandatos de Fernando Henrique foram atingidos duramente com a piora de suas condições de vida. Nos últimos 8 anos a inflação cresceu 80%, o gás de cozinha subiu 472%, a energia elétrica 368%, a telefonia fixa 3.700%, água e esgoto: 420% e o transporte urbano: 300%. Ocorreu um enorme crescimento da taxa de desemprego, um aumento significativo do trabalho informal, uma redução crescente dos investimentos e privatização dos serviços públicos em educação, saúde, habitação e uma queda continuada do rendimento real dos assalariados.

Essas conseqüências da aplicação da cartilha neoliberal contribuíram de forma decisiva para o crescimento das forças políticas que se opuseram ao neoliberalismo nas eleições de 2002. Somados os votos das candidaturas presidenciais oposicionistas no primeiro turno chegamos ao surpreendente número de quase 77%. Luís Inácio Lula da Silva, vence no segundo turno com cerca de 53 milhões de votos (61,3% dos votos válidos), sendo o presidente mais votado na história do país. Os resultados das urnas demonstraram um repúdio ao governo de FHC tão profundo quanto aquele dado ao regime militar em 1974.

Como podemos ver nos quadros abaixo as eleições proporcionais refletiram essa realidade e mudaram o perfil político-ideológico da Câmara, do Senado e também registraram um crescimento significativo nas assembléias estaduais dos partidos de oposição ao neoliberalismo. Na Câmara Federal o PT registrou um grande crescimento e no Senado dobrou sua participação. O PL, partido oposicionista de centro e do candidato a vice de Lula, pulou de 12 para 26 deputados federais.

Os partidos de centro, centro-direita e direita da base de sustentação do governo FHC – PSDB, PMDB, PFL, PPB e PTB – encolheram. O PTB, mesmo “desembarcando” do governo FHC às vésperas das eleições visando se beneficiar do voto oposicionista encolheu na Câmara, crescendo, porém, no senado.

A candidatura Lula venceu em todas as capitais do país, com destaque para Salvador, onde conquistou 89,4% dos votos válidos. Entre os Estados da Federação, o único em que não venceu foi em Alagoas. Obteve o recorde de 79% dos votos no Estado do Rio de Janeiro. Contraditoriamente, esse resultado não se refletiu nas eleições para governadores onde, nos principais centros políticos, à exceção do Rio de Janeiro, foram eleitos governadores vinculados aos partidos de sustentação do governo FHC. O PT, além de eleger apenas três governadores em estados de pouca importância política, perdeu as eleições no Rio Grande do Sul.

O PDT foi o único partido de oposição que não registrou crescimento em relação às eleições de 98, caindo de 25 para 21 deputados federais eleitos, elegendo 04 senadores e chegando ao absurdo de não eleger Brizola para o Senado no Rio. Nas Assembléias Legislativas praticamente manteve o quantitativo, passando de 58 para 63 deputados. Nos estados o PDT elegeu somente o governador do Amapá.

Repetindo eleições anteriores, o PDT superou a clausula de barreira. Só PT, PSDB, PFL, PMDB, PPB, PSB e PDT conseguiram mais de 5% do total de votos válidos para deputado federal em todo o país e mais de 2% em pelo menos nove unidades da Federação. Outras siglas tradicionais ou que abrigam políticos bem votados -como PTB, PL, PPS, PC do B e PRONA - não conseguiram preencher ao menos uma dessas condições, e se repetirem essa performance em 2006 perdem o direito aos programas na televisão e ao fundo partidário.

PDT, PT e o trabalhismo.

PDT: da refundação do trabalhismo à crise política ...

A lição sabemos de cor,
só nos resta aprender.
Beto Guedes

No ano de 1978 intensificaram-se os debates a respeito da criação de novos partidos, principalmente em São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro. A discussão principal envolveu a construção de um partido popular, democrático e socialista, à luz das características específicas da formação social brasileira. A partir daí vão nasceriam o “novo PTB”, depois PDT, e o PT.

Em 1979, Brizola reuniu em Lisboa, às vésperas da anistia, os adeptos do projeto de refundação do PTB, que significava para seus idealizadores enfrentar as tarefas do presente, preparar o futuro como um partido renovado, aberto a articulações internacionais e com propostas construtivas favoráveis ao diálogo, voltadas para o futuro, sem cultivar mágoas ou ressentimentos.

A necessidade de identificação profunda de um projeto partidário, que se propunha de massas, com a história das lutas sociais do povo trabalhador e com o nível de consciência possível dos vários setores do campo popular levou vários setores a discutir a retomada da sigla PTB. Ao surgir em 1979, essa proposta contava com 23 deputados federais e 01 senador.

Dentro dessa articulação para criar um novo partido de inspiração trabalhista havia divergências sobre a linha política a ser tomada pelo novo PTB. Essas divergências levaram à divisão e à formação de duas correntes bem nítidas:

· A corrente de Ivete Vargas aglutinava políticos profissionais e lideranças conservadoras e personificava o que de pior houvera no antigo PTB: sua seção paulista, a mais retrógrada e fisiológica do partido. Defendiam resgate da tradição trabalhista com o mero objetivo de retomar uma sigla de fácil curso eleitoral. Criticavam duramente a corrente de Brizola por propor um conteúdo socialista ao novo PTB.

· A corrente de Brizola personificava os setores de esquerda que foram vanguarda nas lutas pelas reformas de base na década de 60. Era formada por dirigentes políticos com militância nas alas radicalizadas do velho PTB, PCB e PSB, por militantes políticos e sindicalistas que participaram nas autodenominadas organizações revolucionárias dos anos 60 e 70 e por intelectuais socialistas e marxistas. Defendiam a retomada do fio da história assumindo, porém, um novo trabalhismo, apresentado como o caminho brasileiro para o socialismo.

A ditadura observava com reservas a possibilidade de lideranças das lutas de massa pela Reformas de Base - como Brizola - retomarem a sigla do velho PTB e sua representatividade política. Assim, Ivete Vargas utiliza, a seu favor, o trânsito fácil no governo federal e apoiada pelo regime militar, através de sua amizade pessoal com o general Golbery, idealizador e principal articulador de toda a agenda da distensão, assume a sigla PTB.

A corrente de Brizola defendia um PTB que fosse o produto de toda uma reflexão crítica do passado de lutas do trabalhismo e o resultado de uma elaboração democrática. Apostava na necessidade de criar um partido que expressasse os anseios e fosse dirigido pelo povo trabalhador e, portanto, não podia aceitar um PTB subordinado a corrente conservadora de Ivete Vargas.

No dia 13 de maio de 1980, no auditório do Hotel Ambassador no Rio de Janeiro, reunido com cerca de 150 partidários, Brizola rasga dramaticamente a sigla que escrevera em uma folha de papel e afirma aos prantos: “Eles destruíram o PTB, mas não irão nos calar”. No dia 26 de maio de 1980, o brizolismo organiza-se enquanto partido: funda-se o PDT.

Os brizolistas rompem com o PTB de Ivete Vargas para não renegar a radicalização antiimperialista, democrática e popular do trabalhismo ocorrida na década de 60. O PDT surge como uma superação dialética do velho PTB. Herda as tradições do trabalhismo e seu nacionalismo democrático, mas as moderniza e as supera, propondo um novo trabalhismo que tem claramente o socialismo como meta.

A concepção estratégica do novo partido afirma que “o trabalhismo é o caminho brasileiro para a construção de uma sociedade democrática e socialista”, ou, em outras palavras, que o PDT é “um partido que defende a democracia, o nacionalismo e o socialismo, um partido nacional e popular”. O PDT considera como a essência mesma do trabalhismo “promover a diversificação e democratização das relações produtivas na direção do socialismo”.

Neste sentido, do ponto de vista teórico e prático, o programa do PDT não se propõe a ser um programa de transição socialista porque não visa à eliminação da propriedade privada sobre os principais meios de produção, nem tampouco à eliminação das relações de produção, tipicamente capitalistas, como o trabalho assalariado e o capital, mas é um programa de transição ao socialismo, vale dizer: de fortalecimento do estado, da realização de reformas estruturais básicas que transformarão o capitalismo dependente e a dominação imperialista, criando condições para a edificação de um Estado de novo tipo, um Estado socialista.

O PDT é, portanto, um partido que visa a ser um instrumento de organização, participação e conscientização do povo trabalhador para a construção de uma democracia popular. O PDT busca avançar, em sua luta, pela organização, conscientização e preparação do povo para o exercício do poder através do caminho democrático. Para isto é fundamental a conquista da unidade política dos setores populares:

“O PDT terá como um dos seus objetivos fundamentais trabalhar pela unidade de todas as correntes do movimento popular, respeitando sua independência e autonomia”.

“Povo e partidos organizados tem o direito democrático e social de transformar, através de legislação, medidas e instrumentos democráticos adequados, as estruturas políticas, sociais e econômicas do País para a construção de nosso desenvolvimento independente e de uma sociedade que venha a ser cada dia mais participacionista e criativa, mais livre e democrática, mais fraterna e igualitária, com oportunidades iguais para todos os brasileiros”.

Nas primeiras eleições livres para governador em 1982, apesar da tentativa de fraude eleitoral, o povo trabalhador do Estado do Rio elege Leonel Brizola para Governador. O PDT conseguiu a unidade política dos setores populares cariocas e fluminenses naquelas eleições. Das bases do movimento sindical e operário às favelas cariocas, passando pelo movimento das associações de moradores e estudantis, a maioria esmagadora se identificava com a candidatura de Brizola. Acima de tudo, ele representava, no imaginário popular, a retomada do fio da história das lutas populares e a resposta mais radicalmente possível à ditadura militar.

Influenciados pela espetacular vitória de Brizola no Rio, uma significativa quantidade de sindicalistas, trabalhadores, estudantes e moradores e jovens da periferia, sem experiências partidárias anteriores, participaram, pela primeira vez, da vida democrática e acabaram por se filiar ao “partido do Brizola” principalmente no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. O PDT sai das eleições de 1982 como o maior partido de massas de esquerda da década de 80 e propõe um processo de fusão com o PT que é recusado.

Se por um lado a possibilidade concreta de eleger Brizola presidente ampliava as perspectivas de crescimento orgânico do PDT, por outro, o partido passa a apostar única e exclusivamente na perspectiva eleitoral. Centra toda a sua organização e ampliação apenas nas disputas eleitorais e não na realidade da luta de massas do povo. A política passa a ser vista de forma liberal como uma disputa pela filiação e apoio dos políticos profissionais; o partido funciona por espasmos e a reboque do processo eleitoral de dois em dois anos.

Paulatinamente, e principalmente a partir da proximidade das eleições presidenciais de 89, questões primárias relativas à organicidade partidária são relegadas a um segundo plano. Planejamento das ações políticas, reuniões permanentes, capacitação política, imprensa partidária periódica e permanente e uma política de finanças menos dependente dos militantes com cargos de confiança, seja nos parlamentos, seja nos governos, são negligenciadas em um processo marcado pelo empirismo e pragmatismo do grupo que se forma à volta de Brizola e dirige o PDT.

Essa realidade alimentou o crescimento do eleitoralismo e afastou o PDT das lutas sociais concretas dos excluídos, tornando inorgânica e inócua a atuação de seus militantes nas lutas de massa, subordinando toda a ação política do partido à participação exclusivamente parlamentar e eleitoral.

Essa contradição entre a hegemonia do brizolismo na definição de nossas bandeiras políticas e a hegemonia do eleitoralismo e do liberalismo na definição de nossas ações políticas e organizativas nos levou a derrota em 89. Aflorou como crise política nas eleições de 94, quando chegamos ao “fundo do poço”. A partir daí, o PDT passou a viver uma profunda crise de seu projeto histórico.

A partir de 95 a direção nacional do PDT, aparentemente, inicia um processo de autocrítica. Brizola, em vários pronunciamentos nas instâncias partidárias, afirma que o partido aburguesou-se. Ressalta que o papel histórico do trabalhismo é se afirmar como uma organização política identificada com os excluídos. Destaca que não podemos nos deixar seduzir por ilusões eleitorais de uma democracia determinada por interesses econômicos. Uma democracia que, para sofrer transformações, terá de ser movida pela pressão das lutas e das mobilizações do povo trabalhador. O PDT, aparentemente, retomava o seu projeto histórico...

Nas eleições de 98, Brizola torna-se o principal articulador da frente de oposições. Abre mão de uma candidatura a presidente e na Convenção Nacional do PT, defende a unidade dos partidos de esquerda. À perda de deputados, prefeitos, vereadores que ocorreu com a expulsão ou saída dos neoliberais da “nova” geração “trabalhista” – César Maia, Marcelo Alencar, Lerner, Dante e outros – soma-se à de deputados, prefeitos e vereadores contrários à formação da unidade dos partidos de esquerda. Só no Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso foram expulsos ou se desfiliaram aproximadamente uma centena de prefeitos em 1998.

Todo esse processo levou à redução das bancadas e quantidade de prefeitos do PDT devido a expulsões ou rearranjos partidários fundamentalmente em função da inflexão da prática partidária que se iniciou em 95. O PDT diminui por retomar a coerência com o seu projeto histórico, o que contribuiu para o crescimento em 74% do número de vereadores pedetistas em todo o país eleitos em 2000.

Porém, nessas mesmas eleições, o governador Garotinho e setores que sempre sobreviveram às custas da ocupação de espaços importantes das administrações do PDT no Rio acusam Brizola de ser “dono” do PDT. Defendem sua troca por um “dono” com chances eleitorais de chegar à Presidência da República em 2002. Expulsos, tomam de assalto o PSB e, substituindo a candidatura Brizola pela candidatura Garotinho e o projeto histórico do PDT pelo assistencialismo e a manipulação da religiosidade, reproduzem, no PSB, as mesmas táticas equivocadas que subordinaram a realização do projeto histórico do PDT exclusivamente à eleição de Brizola presidente.

A saída de Garotinho em 2000 parecia abrir possibilidades para que o PDT aprofundasse a retomada de seu projeto histórico. Militantes e dirigentes do PDT de vários estados levantaram a necessidade de rever os rumos do PDT. Várias foram as propostas apresentadas à direção nacional do PDT no sentido de democratizar as instâncias do partido e direcionando-as para a atuação organizada no movimento sindical e popular e ao lado dos excluídos.

Porém, mais uma vez a direção nacional optou por abandonar a retomada do projeto histórico do PDT. Ao invés de mudar a realidade de esvaziamento do partido a partir de uma nova metodologia de trabalho político, direção nacional do PDT traça uma estratégia para a sobrevivência do PDT baseada na política do fato consumado. Um processo de fusão do PDT com os trabalhistas conservadores do PTB e, se possível, com o PPS. Essa estratégia, ao se confrontar com a resistência de dirigentes e militantes, faz com que a direção nacional utilize o momento eleitoral e tente consolidá-la “impondo” a articulação da Frente Trabalhista em torno da candidatura de Ciro Gomes.

Nesse mesmo período, o Fórum de Militantes do PDT, propôs várias alternativas ao aburguesamento e a falta de democracia interna do partido, avisando que a imposição da Frente Trabalhista e da candidatura Ciro Gomes levaria a desmobilização dos militantes e dirigentes intermediários, podendo contribuir significativamente para uma derrota eleitoral nas eleições de 2002. Tudo isso em um momento político em que o desejo por mudanças aumentava no povo trabalhador.

Por isso, o Fórum de Militantes do PDT defendia ser necessário a construção de uma candidatura de unidade popular e classista que, unindo os partidos de oposição (PT, PSB, PDT, PC do B, PCB, PSTU, PMN e outros menores) ampliasse para a centro-esquerda em direção ao PPS e até mesmo, se fosse possível, conseguisse o apoio de setores centristas do PMDB, do PL e do PTB.

O Fórum denunciava a desesperança e o vazio de programas que as classes dominantes não podiam ocupar e, na impossibilidade da unidade popular, propunha que o PDT, com a candidatura de Brizola ou outro companheiro, ocupasse esse espaço com uma nova esperança e um novo projeto de sociedade brasileira.

Porém, a direção nacional jogou todas as fichas em uma provável eleição de Ciro que, no inicio do processo eleitoral, tinha uma boa performance nas pesquisas. Impôs ao conjunto do PDT ir a reboque de uma candidatura que, sem expressão política de massas, apostava em um oposicionismo palatável para a classe dominante e no mito do “PT radical”, atacando a candidatura Lula pela direita, afirmando que "votar em Lula é querer botar fogo no país".

Essa estratégia eleitoral que unia os brizolistas aos trabalhistas e socialistas conservadores como roberto freire, martinez, fleury e roberto jefferson acabou por levar a direção nacional a colocar o PDT à reboque do PTB, do PPS e das trapalhadas de Ciro. A direção nacional submeteu-se a chantagem de Paulinho - vice-presidente do PTB e presidente de uma central sindical pelega - de que se não fosse indicado vice abandonaria a candidatura de Ciro (na época iria apoiar José Serra), referendou publicamente a aproximação de Ciro com o PFL de Antônio Carlos e Bornhausen e recuou, vergonhosamente, no repúdio a candidatura neoliberal de Brito no Rio Grande do Sul. Uma estratégia que culminou com uma desastrada discussão pública sobre a proposta de apoio a Lula, a três dias das eleições no primeiro turno, sem ao menos o PDT consultar organicamente o candidato ou os partidos da frente.

Desse modo, a Frente Trabalhista se transformou em uma verdadeira "arca de Noé" que não ofereceu credibilidade nem para os seus militantes e eleitores e muitos menos para o povo trabalhador. O resultado eleitoral do PDT nas eleições de 2002 foi a fatura desses posicionamentos.

O PT das heranças e dos demônios do trabalhismo...

Os povos que esquecem a sua história estão condenados a repeti-la.
Santayana

O PT surge no final da década de 70 criado por lideranças sindicais, setores progressistas da Igreja e por setores de esquerda, principalmente oriundos do movimento estudantil. Assim como o velho PTB, em 45, nasce de um classismo espontâneo sem ter um projeto histórico claro.

Suas formulações programáticas eram abstratas e imprecisas, ora apontavam na direção da social democracia, ora para o socialismo e em outros para um simples aprofundamento ou radicalização da democracia burguesa. Propunha-se a ser um partido que, excluindo a colaboração com a burguesia, deveria ser de “todos os trabalhadores da cidade e do campo” e sem “patrões”. A despeito do PT apontar que seu compromisso era com a construção de um novo poder que avançasse no sentido de uma futura “sociedade sem explorados nem exploradores”, não definiu de maneira precisa esse poder e nem as tarefas históricas que teria de realizar.

Na prática, seu programa político se resumiu em assumir, nas esferas política e partidária a agregação dos interesses econômicos dos trabalhadores e a defesa das bandeiras políticas que surgiam das lutas de massa dos setores organizados da sociedade. Seu projeto histórico tornou-se, fundamentalmente, na defesa de uma “verdadeira democracia” que nunca teria existido no Brasil e seria construída em um processo de enfrentamento e radicalização em defesa dos interesses dos trabalhadores e dos setores organizados da sociedade.

O PT negava radicalmente o passado trabalhista (ou, como afirmava, “populista”) das tradições dos velhos PTB, PCB e PSB. Para os dirigentes e militantes do PT, na “democracia populista” pré-64 só havia corrupção e demagogia. Os trabalhadores eram manipulados e instrumentalizados por políticos aventureiros e demagogos que desviavam a classe operária de seus “verdadeiros” e “reais” interesses. Acreditavam que a verdadeira luta de massas do povo trabalhador no Brasil começou nas greves do ABC no final da década de 70 e com o surgimento do PT.

Foi fundamentalmente esse repúdio sectário ao resgate da história de lutas do trabalhismo que levou a impossibilidade de se refundar um partido de massas que aglutinasse nacionalmente as forças políticas populares que deram origem ao PT e ao PDT. Enquanto o PT afirmava ser uma ruptura radical com essa continuidade histórica, os brizolistas, ao perder a sigla PTB para os trabalhistas conservadores, aglutinaram-se no PDT, defendendo um novo trabalhismo, produto de toda uma reflexão crítica do passado, e propondo a retomada do fio da historia como caminho brasileiro para o socialismo.

Sectariamente, dirigentes e militantes do PT acusavam, acriticamente, o PDT de ser herdeiro do "populismo". O PT seria o único, verdadeiro e autêntico instrumento de defesa dos interesses políticos do povo trabalhador. As declarações de princípio e as afirmações genéricas que ocupavam o espaço da formulação programática resultaram em uma postura sectária: o PT era o dono da verdade e da virtude operária e popular.

Para a classe dominante, as divergências entre PDT e PT foram de grande utilidade. Brizola havia despontado, após sua espetacular eleição ao governo do Rio, como virtual Presidente da República eleito na futura eleição direta. A burguesia através de sua imprensa capitaneada pela Rede Globo, preocupada com o radical posicionamento de Brizola em defesa da democratização dos meios de comunicação, aposta no isolamento e esvaziamento do PDT. Mesmo com a espetacular mobilização popular pelas Diretas Já em 84, as elites políticas impedem a realização de eleições diretas em 85. Alguns anos depois os jornais publicam um depoimento de Tancredo afirmando que a emenda das diretas não foi aprovada por que as chances de Brizola ganhar as eleições eram muito grandes.

Os meios de comunicação apresentam o PT como um partido que, apesar de defender a radicalização e, portanto, “querer botar fogo no país” (o que o deslegitimaria diante da classe dominante), era, por isso mesmo, o mais honestamente de esquerda e moderno, ao contrário do PDT que, além de "brizolista", era herdeiro do "populismo".
Todo esse processo político de isolamento e esvaziamento do PDT, somado aos seus equívocos e a sua inorganicidade abordadas anteriormente, reforçava o discurso sectário do PT e a campanha mistificadora da imprensa.

Esses fatores, somados a aposta do PT em se enraizar nos movimentos sociais e às imprecisões programáticas do PT, que facilitaram a unificação de forças políticas e sociais até então dispersas, levaram à aglutinação paulatina da militância de milhares de lutadores e lutadoras sociais de todo o país e à crescente hegemonia petista na esmagadora maioria dos movimentos sociais e suas entidades no decorrer da década de 80.

Assim, nas eleições de 89, por uma pequena diferença de, aproximadamente, 300 mil votos, Lula derrota o favoritismo de Brizola e disputa o segundo turno com Collor. Mesmo apoiado por Brizola, que transfere a totalidade de seus votos para Lula, o PT é derrotado. Nas eleições de 94, Lula é derrotado por FHC, mas o PT continua o seu processo de crescimento político e eleitoral ultrapassando eleitoralmente o PDT, que sofre uma grande derrota. Em 98, com a candidatura Lula/Brizola, Lula consegue a maior votação de sua história política.

Após as eleições de 1998 e as eleições municipais de 2000, o PT se consolida como o maior partido de massas de esquerda. Esse longo processo político e social leva o PT a representar politicamente os mesmos setores sociais que foram representados pelo trabalhismo pré 64 e, ao mesmo tempo, faz com que ele tenha de superar suas imprecisões programáticas. Conseqüentemente, para manter sua representação, e não por uma ironia da história, a partir de 1998 tornam-se visíveis, no processo de definição programática do PT, as heranças do programa nacional-estatista do velho trabalhismo: defesa de um nacionalismo democrático e de bandeiras de afirmação nacional - protecionismo à indústria, intervenção estatal, reforma agrária, formação do mercado interno, democracia política e social.

Porém, nesse processo, o PT também retoma e aprofunda os demônios do velho trabalhismo que impediram a implementação desse programa no inicio da década de 60: a ilusão da possibilidade de um desenvolvimento nacional voltado para as maiorias dentro do capitalismo e em aliança com um “setor nacional” da burguesia e a aposta exclusiva no processo eleitoral e na lógica das instituições da sociedade do capital.

Demônios que são aprofundados nas eleições de 2002, quando o PT opta por construir uma candidatura palatável ao sistema tendo como mote à defesa de um pacto social entre capital e trabalho para retomar o desenvolvimento do país e garantir uma "transição gradual" para um "novo modelo econômico" e a manutenção do pagamento da divida externa e dos acordos com o FMI.

Ao mesmo tempo, os exemplos das crises argentina e venezuelana fazem da candidatura de Lula uma opção, também, para setores da burguesia e das oligarquias regionais que entendem que somente um governo presidido por Lula e pelo PT teria representatividade para controlar o descontentamento da maioria da população com a divida social acumulada, não apenas nos dois governos de FHC, mas, nos quinhentos anos de existência do Brasil.

Assim, o PT está assumindo, acriticamente, o programa e, principalmente, aprofundando os demônios do velho trabalhismo que o brizolismo já questionava no calor das lutas populares na década de 60. Continuando por esse caminho o governo Lula e o PT poderão reproduzir as tragédias de Getulio Vargas e de João Goulart.

O significado da vitória de Lula e as perspectivas do PDT

E a esperança do povo derrotou o medo da mudança.

Um passo a frente e você não está mais no mesmo lugar.
Chico Science


O medo da mudança é uma das tradições políticas mais arraigadas da classe dominante brasileira. Em vários momentos da nossa história, o medo da mudança foi utilizado para impedir ou atrasar transformações. Foi assim, apenas para citar quatro importantes exemplos, na luta pela libertação dos escravos, no segundo governo Vargas, na luta pelas reformas de base no inicio da década de 60 e na luta pelas diretas no inicio da década de 80.

Em 2002 não seria diferente. O mito do “PT radical” e capaz de “botar fogo no país”, construído pela imprensa burguesa desde a sua fundação foram exaustivamente relembrados. Desde o início do processo eleitoral a possibilidade concreta de Lula chegar a presidência da republica levou seus adversários, clara ou sub-repticiamente, vincular o futuro governo Lula ao caos político e social.

Por esquerdismo ou incompetência, a eleição de Lula apontava, segundo seus adversários, para um desastre político de grandes proporções. Porém, sem negar o “esquerdismo” que marcou a história do PT e que tem o poder de mobilizar milhares de lutadores e lutadoras sociais e eleitores que acreditam que um governo do PT significará profundas mudanças, Lula afirma que sua candidatura é fruto de um processo "evolutivo", em que a maioria do PT "amadureceu" e abandonou o enfrentamento assumindo um projeto político mais realista.

Mesmo o PDT, cuja lógica política seria participar da frente de apoio a Lula ou lançar candidatura própria, apostou que a derrota dessas candidaturas seriam inevitáveis. Optou por apoiar uma candidatura dissidente do sistema, com o PPS e o PTB. Uma candidatura que se resumia em uma cópia malfeita da “candidatura light” montada pelo PT para ganhar as eleições e que provou mais uma vez que candidaturas não são simplesmente "opções", independentes de sua história, de sua trajetória, de suas raízes na população e no movimento organizado. Talvez, se as eleições se resumissem a uma escolha de "opções" talvez tivesse ganhado o PSTU.

Nas eleições, a imensa maioria da população optou pelo PT, desde o primeiro turno. Uma opção que foi vista pela maioria dos oprimidos como a opção mais útil, eficaz, mais tradicional, com mais autoridade política, para combater tudo o que significou o governo anterior. O povo trabalhador apostou eleitoralmente na candidatura de Lula por ela ter conseguido encarnar o descontentamento social e o sentimento de mudança da maioria do povo brasileiro.

Assim, por mais que possamos divergir do PT, a esperança do povo venceu o medo. Portanto, devemos tomar muito cuidado com afirmações movidas pelo sectarismo do tipo: “Quem ganhou as eleições foi a moderação e a proposta de conciliação de Lula”. “O PT só venceu pelos apoios de setores da burguesia e pela aliança com o PL”. “Quem venceu as eleições foi Lula e não o PT”.

O povo trabalhador viu o voto em Lula como a via de menor resistência para uma mudança profunda. O PT foi vitorioso pelo enraizamento de seus dirigentes e militantes nos movimentos sociais e nas lutas de massa que legitimaram o PT para que retomasse o programa nacional-estatista do trabalhismo pré 64. Isso permitiu que a campanha do PT resgatasse a memória coletiva das lutas sociais de nosso povo trabalhador e identificasse a candidatura de Lula com o nível de consciência possível dos vários setores do campo popular.

O que essa eleição expressou foi uma profunda vontade de mudança e não a vontade de um pacto com os responsáveis de manter a maioria da população na miséria. O povo trabalhador votou no PT porque entendeu que Lula representava uma alternativa de mudanças frente ao neoliberalismo e não porque optou pela moderação ou conciliação de classes. Uma alternativa repleta de contradições e perigos, mas essa realidade não modifica nem um pouco o sentido do voto no PT pelas classes trabalhadoras: mudança nas suas condições de vida. O resultado eleitoral foi uma vitória contundente e sem paliativos do povo trabalhador: da classe operaria, dos camponeses e da maioria da população, pobre, brasileira.

Mesmo que a experiência histórica já tenha mostrado que apenas votar não é suficiente, essa votação significa um primeiro passo. O que será o futuro governo Lula dependerá muito do desenvolvimento da economia internacional num contexto da crise global e latino-americana e o comportamento das forças sociais que apóiem o seu governo e das que a ele se oporiam. Será a luta de classes que vai marcar o ritmo que o governo de Lula irá bailar. Se marcado pelo ritmo dos que sempre lutaram e seguem lutando por um Brasil e um mundo justo e igualitário ou pelo ritmo da conciliação e da traição ao sentimento de mudança.

PDT e brizolismo: um construir ainda em aberto.

Já choramos muito, muitos se perderam no caminho.
Mesmo assim não custa inventar. Uma nova canção que venha nos trazer o sol de primavera.
Beto Guedes


Na Convenção Nacional de 2001, o PDT estava perante um dilema: assumir a ousadia de enfrentar a contradição entre o brizolismo de suas bandeiras políticas e o eleitoralismo e liberalismo de suas ações políticas e organizativas ou condenar o partido a enfrentar um profundo refluxo político. A direção nacional do PDT optou por não enfrentar essa realidade. Como foi afirmado anteriormente, o desastroso resultado eleitoral é a fatura desses posicionamentos. Hoje, nada mais obscurece à falta de renovação de dirigentes, a descaracterização e o esvaziamento político e ideológico do PDT.

Não é de hoje que vários militantes e dirigentes intermediários tentam discutir estas questões nas instâncias partidárias. Para nossa tristeza, são rotulados no mínimo como “dissidência” ou “esquerdistas”. Toda e qualquer posição divergente, mesmo que coerente com os princípios e linha política do PDT, é estigmatizada como um ato de “costear o alambrado” e de deslealdade com o partido e nossa direção nacional continua a tomar decisões sem consultar as “massas” do partido. Esta postura vem comprometendo toda a possibilidade de aprofundar a discussão política nas instâncias do partido e a conseqüente elevação da consciência política de nossos militantes e dirigentes.

Essa realidade tem desnorteado dirigentes e militantes que, não conseguindo encontrar ou conquistar espaços de sociabilidade digna e de discussão política, acabam assumindo, majoritariamente, três posicionamentos equivocados frente a essa "crise":
· oportunismo pragmático: adotam um realismo hipócrita sendo cooptados pelo grupo hegemônico, pelas dissidências partidárias eleitoreiras ou se transformam em "profissionais de áreas técnicas" para serem utilizados por governos ou nas assessorias de parlamentares e candidatos majoritários. Em todos os casos afirmam ser impossível questionar a linha política hegemônica.
· voluntarismo estéril: procuram se afastar das lutas internas do partido e se dedicam a tentar construir instâncias partidárias isoladas ou atuar nos movimentos sociais independentemente da direção partidária dominada pelo grupo hegemônico. Fazem questionamentos pontuais à realidade partidária, na sua maioria burocráticos, não conseguindo superar a "atomização" dessas várias iniciativas. Muitos continuam no partido por inércia, por identificação com o projeto histórico ou com a esperança de poder "usar" as massas que se identificam com o partido ou com possíveis governos assumidos por ele, em seus projetos.
· esquerdismo: Deduzem, a partir da linha política equivocada imposta pelo grupo "dirigente" do partido, a conclusão de que é preciso sair, renunciar ao trabalho político junto às massas identificadas com o partido e ir para outros partidos de massa ou ainda "inventar" novos partidos. Muitos acabam por abandonar a luta política e outros enfrentam um processo similar de luta política nas organizações de massa que se filiam ou nas seitas que intentam construir.

Ao assumirem esses posicionamentos, militantes e dirigentes ao invés de contribuírem para combater as limitações do PDT, acabam por reforçá-las.

O posicionamento coerente é a luta militante pela ruptura com a lógica eleitoreira e perversa da atual linha política do PDT, sob pena de que o projeto histórico, expresso com tanta clareza na Carta de Lisboa e no Programa e Manifesto do PDT, seja irremediavelmente comprometido, restando, apenas, mais uma mera sigla de aluguel.

Hoje, existem dirigentes e militantes que entendem que a alternativa do PDT é aprofundar a atual linha política que nos levou a derrota eleitoral e ao esvaziamento do partido. Defendem a manutenção da idéia de imediata fusão com o PTB em um novo partido - a Frente Trabalhista -; alguns, se aprofundam no sentido de manter a articulação dessa nova agremiação política em torno de Ciro Gomes, visando às próximas eleições presidenciais; outros, defendem o apoio incondicional ao Governo Lula, propondo-se a ocupar o espaço de sub-legenda que o PSB pré-Garotinho tinha junto ao PT e, é claro, cargos no governo federal.

Antes de pensar na criação de um “novo partido”, ou nos atrelarmos ao PT, necessitamos de um PDT forte, organizado e permanente que contribua efetivamente, com outras forças políticas identificadas com a libertação nacional e o socialismo, para a mobilização e organização da sociedade. Um partido que assuma o fio da história de lutas do povo trabalhador e que não se limite a reivindicar a história, mas a faze-la.

Para isso, porém, dirigentes e militantes do PDT têm de superar uma série de limitações de nossa atual linha política. O PDT não pode mais acreditar:
· que sem luta de massas, sem povo mobilizado e organizado conseguirá avançar o projeto histórico do partido;
· na luta espontânea e não na organização com princípios, objetivos e valores;
· em simples mobilizações de massa sem aperfeiçoar as formas organizativas;
· na atuação nos movimentos sociais de forma inorgânica;
· na reprodução nos movimentos sociais da política eleitoreira, onde os militantes que atuam no movimento só são lembrados nas eleições das entidades;
· na atuação ingenuamente sem capacitação política.

Os dirigentes e militantes do PDT deve assumir, também, alguns princípios organizativos tais como:
· direção coletiva, decisões colegiadas com disciplina e respeito as decisões.
· divisão de tarefas, romper com a visão de organização centralizada na mão de uma pessoa ou de um grupo de pessoas, pois isto impede o surgimento de uma diversidade de aptidões e habilidades.
· a importância do estudo, nunca terá futuro a organização política que não formar seus próprios militantes e dirigentes.
· o projeto histórico do PDT só avançará se houver luta de massas.
· a vinculação do dirigente com sua base social . É preciso criar mecanismos para ouvir, consultar, se abastecer da força e da determinação do povo. Todos erram menos quando ouvem o povo.

Para voltar a crescer eleitoral e partidariamente o PDT tem que implementar uma profunda transformação em nossa prática partidária, deslocando os esforços prioritários do partido no jogo democrático formal das eleições para o da organicidade partidária voltada para enfrentar a realidade que se abre com a eleição de Lula presidente: a necessidade de aprofundar a organização de nosso povo na luta de massas.

O PDT necessita de uma nova linha política que apóie a política de mudanças do governo de Lula, mas que, através da organização popular, mobilize o povo para apoiar a superação das contradições do programa de governo petista.

A adoção dessa nova linha política apostaria conscientemente na atuação orgânica do PDT nas lutas de massas, nos movimentos sociais e em torno da construção de uma alternativa de unidade popular e classista que realize mudanças estruturais – as reformas de base –aponte para o socialismo, e certamente, a médio ou longo prazo, reverter-se-á em vitórias eleitorais consistentes e transformadoras.

As experiências históricas do trabalhismo provaram que a conquista do poder inclui, mas não se limita a luta eleitoral. Os governos de Vargas e João Goulart demonstraram os imensos limites da democracia meramente eleitoral, dos quais o principal é saber se as elites estão dispostas a respeitar as decisões soberanas de um governo voltado para as maiorias. Demonstraram que a existência da pobreza e o crescimento da miséria mostram que não adiantam remendos na superfície da sociedade e da política, temos de revira-la pelo avesso, na busca da invenção de novas formas de convivência, de novos modos de relação de produção e partilha em que a desigualdade, a hierarquia e o consenso passivo sejam substituídos pela ênfase na responsabilidade, na diferença, na solidariedade, na afirmação da vida.

Este, com certeza, não é o caminho mais fácil, porém abandonar o projeto histórico do PDT e ser obrigado a optar entre uma idílica unidade entre os brizolistas do PDT e os trabalhistas conservadores e oportunistas do PTB, que na prática irá legitimar e aprofundar a linha política que levou a derrota eleitoral e ao esvaziamento do partido, ou ficar a reboque do PT no governo Lula, apostando em pactuar com as classes dominantes a profundidade e o ritmo das transformações, como propõem os que defendem o apoio incondicional ao governo do PT, é apostar decisivamente na bancarrota do PDT.

O subcomandante Marcos, do Exercito Zapatista de Libertação Nacional diz uma coisa muito bonita sobre a relação entre apaixonados: “O amor é como uma xícara de chá que todos os dias cai no chão e se quebra em pedaços. Os verdadeiros apaixonados permanentemente juntam os pedaços, colam e reconstroem a xícara, porém sempre ficam com o receio de que chegue o dia em que a xícara esteja tão quebrada que não seja mais possível reconstruí-la”.

O desafio dos dirigentes e militantes do PDT que concordem com a necessidade dessa nova linha política e de uma nova organicidade partidária é encaminhar estas reflexões em todas as instâncias e garantir que a discussão política e a reflexão coletiva se incorporem na cultura política do PDT e que nunca chegue o dia, onde a manutenção atual linha política, baseada na política do fato consumado, impeça que os dirigentes e militantes reconstruam, mais uma vez, o seu amor e dedicação ao projeto histórico do PDT.

[*] Professor de história com especialização em História do Brasil, sindicalista, membro do Diretório Estadual do Rio de Janeiro e suplente do Diretório Nacional e ex-diretor da Fundação Alberto Pasqualini.

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