O Futuro do PDT

O Futuro do PDT

Não podemos nos enganar como o eleitoralismo, temos de avançar até derrubar todo este sistema.
Leonel Brizola

Não lutamos para nos converter em donos do destino do povo, mas para que o povo se transforme em dono de seu próprio destino.
Daniel Ortega

Nosso partido vive uma contradição histórica entre a hegemonia do brizolismo na definição de nossas bandeiras políticas, que colocou o partido no campo dos inimigos principais do sistema, e a hegemonia do eleitoralismo e do liberalismo na definição das ações políticas e organizativas.
O resultado são as crises e lutas internas sucessivas que vem afetando profundamente a democracia interna do PDT nos últimos anos. Nossa direção histórica - referência a todos aqueles quadros dirigentes nacionais e regionais que, junto à Brizola, historicamente dirigem o partido desde a sua fundação detendo sua hegemonia - para fazer frente as lutas internas, não desenvolve uma estratégia de discussão política ampla e democrática nas instâncias partidárias.

Essas crises e lutas políticas internas tem causado uma insegurança tão grande em nossos dirigentes e militantes que com o passar dos anos a maioria aceita quase tudo que as direções decidem sem seu conhecimento ou participação. A independência e a autonomia política de nossas direções são tão grandes que elas não precisam mais do consenso, da negociação, basta-lhes a resignação dos militantes. Com resignação não há conflito e sem conflito não existe democracia e é isso precisamente alimenta o refluxo político e eleitoral de nossa agremiação partidária. Essa insegurança é “construída” cotidianamente em nosso partido através de um “argumento” que sempre é colocado: ou aceitamos as decisões das direções ou estamos contribuindo com o fim do partido enquanto alternativa eleitoral. Este “argumento” tem contribuído para despolitizar ainda mais nossa militância. Por outro lado quando ocorrem contestações essas são estigmatizadas como uma deslealdade com o partido ou nossas lideranças e, finalmente, um ato de “costear o alambrado”.

Com a falta de discussão política as instâncias e reuniões se transformam em espaços onde tudo imita a política e onde já não resta, senão, pouquíssimos espaços para qualquer sociabilidade digna. O convívio partidário transforma-se ele mesmo em cálculo – de sobrevivência ou de subserviência - e todo o desprendimento desta lógica é “castigado”. Nesta atmosfera, apenas a intriga é permutável, nos transformando em uma agremiação política marcada pelas retaliações e interesses pessoais.

O resultado desta lógica partidária são instâncias onde os procedimentos são rituais, a começar pelas intervenções nas reuniões dos diretórios e executivas, uma vez que todos dizem exatamente o que se espera que digam, comprometendo consequentemente a elevação da consciência política de nossa militância e nos levando a um processo de resignação política de dirigentes e militantes sem precedentes na história do trabalhismo.

Assim com o passar dos anos o partido tem centrado toda a sua organização e ampliação fundamentalmente nas disputas eleitorais e não na realidade da luta de massas de nosso povo. A política é vista de forma liberal, como uma disputa pela filiação e apoio dos políticos profissionais e o partido funciona por espasmos e a reboque do processo eleitoral de dois em dois anos. Isso vem alimentando o crescimento do eleitoralismo, nos afastando das lutas sociais concretas dos excluídos, tornando inorgânica e inócua a atuação de nossos militantes nas lutas de massas dos movimentos sociais, e subordinando toda a ação política do partido à participação exclusivamente parlamentar e eleitoral.

Nossos diretórios privilegiam a discussão do exercício e/ou conquista de cargos públicos e não discutem as definições de linhas políticas e organizativas para nossas instâncias e para nossa atuação nos movimentos urbanos e do campo. Questões primárias relativas a organização como: planejamento das ações políticas, reuniões permanentes, capacitação política, imprensa partidária periódica e permanente e uma política de finanças que seja menos dependente dos militantes com cargos de confiança, seja nos parlamentos, seja nos governos e do fundo partidário, são relegadas a um segundo plano.

Sendo assim, a questão central para o futuro de nossa agremiação política não esta no fato de que nas eleições de 2002 o PDT deva posicionar-se radicalmente na postura de construção de uma Unidade Patriótica e Popular, apoie Lula, Ciro Gomes, Itamar ou tenha uma candidatura própria. A questão central não é a filiação de Eduardo Meohas e/ou Zito no Rio de Janeiro, Itamar e/ou Célio de Castro em Minas ou de Lauro Campos em Brasília; se o PDT vai montar uma frente com Antônio Brito no Rio Grande do Sul, ter um diretório municipal no município do Rio ou em outras capitais, ou estar apoiando os governos do PT no Acre e no Mato Grosso do Sul; se vamos articular de um “grande partido de centro” unindo PDT, PPS, PTB e setores do PMDB depois das eleições de 2002 ou vamos apostar no projeto histórico antimperialista, democrático e popular do PDT de caminho brasileiro para uma sociedade democrática e socialista.

Para romper com a hegemonia do eleitoralismo e o liberalismo na definição das ações políticas e organizativas temos que superar a centralização das discussões e decisões políticas nas executivas que, mais do que um método equivocado de direção, nega aos militantes e simpatizantes que são membros dos diretórios, movimentos e núcleos de contribuírem na construção de nosso próprio destino e do partido. A base partidária deve ter espaços para discutir, questionar, contribuir e não participar de espaços que se resumem a debates de convencimento dos militantes sobre a linha política já decidida pelas direções. Disciplina e lealdade partidária não podem ser confundidas com obediência, nem com confiança cega nas direções.

A responsabilidade de mudar esta realidade é de todos nós, dirigentes e militantes comprometidos com o futuro do nosso PDT.

Prof. Aurelio Fernandes
Membro do Diretório Estadual do Rio de Janeiro e suplente do Diretório Nacional e ex-diretor da Fundação Alberto Pasqualini.

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