Uma contribuição a discussão sobre a crise do PT e os rumos do campo antimperialista e popular

A vingança do “populismo” e do velho caudilho
O PT das heranças e dos demônios do velho trabalhismo...

Os povos que esquecem a sua história estão condenados a repeti-la.
Santayana

O PT surge no final da década de 70 criado por lideranças sindicais, setores progressistas da Igreja e por setores de esquerda, principalmente oriundos do movimento estudantil. Assim como o velho PTB, em 45, nasce de um classismo espontâneo sem ter um projeto histórico claro.
Suas formulações programáticas eram abstratas e imprecisas, ora apontavam na direção da social democracia, ora para o socialismo e em outros para um simples aprofundamento ou radicalização da democracia burguesa. Propunha-se a ser um partido que deveria ser de “todos os trabalhadores da cidade e do campo” e sem “patrões”. A despeito do PT apontar que seu compromisso era com a construção de um novo poder que avançasse no sentido de uma futura “sociedade sem explorados nem exploradores”, não definiu de maneira precisa esse poder e nem as tarefas históricas que teria de realizar.
Na prática, seu programa político se resumiu em assumir, nas esferas política e partidária a agregação dos interesses econômicos dos trabalhadores e a defesa das bandeiras políticas que surgiam das lutas de massa dos setores organizados da sociedade. Seu projeto histórico tornou-se, fundamentalmente, a defesa de uma “verdadeira democracia” que nunca teria existido no Brasil e seria construída em um processo de enfrentamento e radicalização em defesa dos interesses dos trabalhadores e dos setores organizados da sociedade.
Em seu conjunto o PT negava radicalmente o passado trabalhista (ou, como afirmava, “populista”) das tradições dos velhos PTB, PCB e PSB. Para os dirigentes e militantes do PT, na “democracia populista” pré-64 só havia corrupção e demagogia. Os trabalhadores eram manipulados e instrumentalizados por políticos aventureiros e demagogos que desviavam a classe operária de seus “verdadeiros” e “reais” interesses. Acreditavam que a verdadeira luta de massas do povo trabalhador no Brasil começou nas greves do ABC no final da década de 70 e com o surgimento do PT.
Foi fundamentalmente esse repúdio sectário ao resgate da história de lutas do trabalhismo que levou a impossibilidade de se refundar um partido de massas que aglutinasse nacionalmente as forças políticas populares que deram origem ao PT e ao PDT. Enquanto o PT afirmava ser uma ruptura radical com essa continuidade histórica, os brizolistas, ao perder a sigla PTB para os trabalhistas conservadores, aglutinaram-se no PDT, defendendo um novo trabalhismo, produto de toda uma reflexão crítica do passado, e propondo a retomada do fio da historia como caminho brasileiro para o socialismo.
Sectariamente, dirigentes e militantes do PT acusavam o PDT de ser herdeiro do "populismo". O PT seria o único, verdadeiro e autêntico instrumento de defesa dos interesses políticos do povo trabalhador. As declarações de princípio e as afirmações genéricas que ocupavam o espaço da formulação programática resultaram em uma postura sectária: o PT era o dono da verdade e da virtude operária e popular.
Para a classe dominante, as divergências entre PDT e PT foram de grande utilidade. Brizola havia despontado, após sua espetacular eleição ao governo do Rio, como virtual Presidente da República eleito na futura eleição direta. A burguesia através de sua imprensa capitaneada pela Rede Globo, preocupada com o radical posicionamento de Brizola em defesa da democratização dos meios de comunicação, aposta no isolamento e esvaziamento do PDT. Mesmo com a espetacular mobilização popular pelas Diretas Já em 84, as elites políticas impedem a realização de eleições diretas em 85. Alguns anos depois os jornais publicam um depoimento de Tancredo afirmando que a emenda das diretas não foi aprovada por que as chances de Brizola ganhar as eleições eram muito grandes.
Os meios de comunicação apresentam o PT como um partido que, apesar de defender a radicalização e, portanto, “querer botar fogo no país” (o que o deslegitimaria diante da classe dominante), era, por isso mesmo, o mais honestamente de esquerda e moderno, ao contrário do PDT que, além de "brizolista", era herdeiro do "populismo".
Todo esse processo político de isolamento e esvaziamento do PDT, somado aos seus equívocos e a sua inorganicidade abordadas anteriormente, reforçava o discurso sectário do PT e a campanha mistificadora da imprensa.
Esses fatores, somados a aposta dos vários setores do PT em se enraizar nos movimentos sociais e às imprecisões programáticas do PT, que facilitaram a unificação de forças políticas e sociais até então dispersas, levaram à aglutinação paulatina da militância de milhares de lutadores e lutadoras sociais de todo o país e à crescente hegemonia petista na esmagadora maioria dos movimentos sociais e suas entidades no decorrer da década de 80.
Assim, nas eleições de 89, por uma pequena diferença de, aproximadamente, 300 mil votos, Lula derrota o favoritismo de Brizola e disputa o segundo turno com Collor. Mesmo apoiado por Brizola, que transfere a totalidade de seus votos para Lula, o PT é derrotado. Nas eleições de 94, Lula é derrotado por FHC, mas o PT continua o seu processo de crescimento político e eleitoral ultrapassando eleitoralmente o PDT, que sofre uma grande derrota. Em 98, com a candidatura Lula/Brizola, Lula consegue a maior votação de sua história política.
Após as eleições de 1998 e as eleições municipais de 2000, o PT se consolida como o maior partido de massas de esquerda. Esse longo processo político e social leva o PT a representar politicamente os mesmos setores sociais que foram representados pelo trabalhismo pré 64 e, ao mesmo tempo, faz com que ele tenha de superar suas imprecisões programáticas. Conseqüentemente, para manter sua representação, e não por uma ironia da história, a partir de 1998 tornam-se visíveis, no processo de definição programática do PT, as heranças do programa nacional-estatista do velho trabalhismo: defesa de um nacionalismo democrático e de bandeiras de afirmação nacional - protecionismo à indústria, intervenção estatal, reforma agrária, formação do mercado interno, democracia política e social.
Porém, nesse processo, o PT também retoma e aprofunda os demônios do velho trabalhismo que impediram a implementação desse programa no inicio da década de 60: a ilusão da possibilidade de um desenvolvimento nacional voltado para as maiorias dentro do capitalismo e em aliança com um “setor nacional” da burguesia e a aposta exclusiva no processo eleitoral e na lógica das instituições da sociedade do capital.
Nas eleições de 2002, o PT optou por construir uma candidatura palatável ao sistema tendo como mote à defesa de um pacto social entre capital e trabalho para retomar o desenvolvimento do país e garantir uma "transição gradual" para um "novo modelo econômico" e a manutenção do pagamento da divida externa e dos acordos com o FMI.
Ao mesmo tempo, os exemplos das crises argentina e venezuelana fizeram da candidatura de Lula uma opção, também, para setores da burguesia e das oligarquias regionais que entendem que somente um governo presidido por Lula e pelo PT teria representatividade para controlar o descontentamento da maioria da população com a divida social acumulada, não apenas nos dois governos de FHC, mas, nos quinhentos anos de existência do Brasil.

Um comentário:

  1. Brilhante como sempre parceiro!
    Que esse blog se torne mais um foco de resistência contra aqueles que envergonham o verdadeiro trabalhismo. E um amplo espaço de divulgação dos mais puros ideais de Brizola.
    Força camarada, estamos juntos.
    André Gustavo.

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